Bruxelas, 14/11/2008 – A União Européia outorga um quinto do que deveria dar ao financiamento para a pesquisa sobre tuberculose, tomando em conta a enorme riqueza do bloco, segundo a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF). A tuberculose mata 1,7 milhão de pessoas ao ano, e especialistas em saúde estimam que são necessários 1,450 milhão de euros (mais de US$ 1,8 milhão) para investigar e combater essa doença, segundo informe divulgado esta semana pelo MSF. Mas, a Comissão Européia – ramo executivo da UE – destinou a esse assunto ano passado menos de 19 milhões de euros, acrescentou.
Segundo a MSF, a comissão deveria ter dado pelo menos 101 milhões de euros à pesquisa sobre tuberculose no ano passado, como sua “justa cota” de trabalho contra a doença. Spring Gombe, autora do estudo da MSF, descreveu o financiamento da Comissão Européia como “uma quantia vergonhosamente pequena”, considerando que a UE concentra 31% do produto interno bruto mundial e “inclui uma quantidade desproporcionalmente alta das economias mais poderosas do mundo”. No imaginário popular de muitos países ocidentais, a tuberculose se associa com novelas populares como “As cinzas de Angela (Angela’s ashes, de Frank McCourt), que ilustram uma era já acabada.
Mas a Organização Mundial da Saúde calcula que a cada ano ocorrem nove milhões de novos casos da doença. O escasso financiamento dedicado pela UE à combater o mal se contradiz com seu recrudescimento no território do próprio bloco, particularmente nos Estados bálticos (Letônia, Lituânia e Estônia), disse Gombe. O informe calcula que se a União Européia pagasse uma cota justa do necessário para desenvolver novos tratamentos deveria fornecer cerca de 409 milhões de euros ao ano para a luta contra a tuberculose.
Os governos da UE não compensam o irrisório da quantia destinada a combater a doença pela Comissão Européia, que maneja um programa de pesquisa científica de sete anos no valor de 50 bilhões de euros (mais de US$ 63,3 bilhões). Alemanha, o maior país do bloco, gastou menos de 19 milhões de euros no ano passado em pesquisa sobre a tuberculose. A MSF também se queixa de que a Comissão não prevê programas dedicados a reduzir o custo do diagnóstico dessa doença, uma cobrança urgente da comunidade médica.
O médico tido von Schoen-Angerer disse que, “em lugar de melhorar”, a epidemia da tuberculose “está piorando”, pois “ainda se propaga rapidamente, em particular na África” junto com a aids. Algumas cepas da tuberculose ficaram resistentes a numerosos medicamentos, o que afeta cerca de meio milhão de pacientes ao ano. Von Schoen-Angerer disse que, embora sejam desenvolvidos novos remédios, fica impossível tratar os doentes devido a essa resistência. As finanças públicas devem abrir caminho nesta área, afirmou, já que os laboratórios se negam a destinar recursos a medicamentos destinados aos pobres, porque é improvável que consigam benefícios econômicos.
Hannu Laang, funcionário da Comissão para assuntos de saúde, disse que é “um pouco infeliz” a MSF ter examinado dados de 2007, já que esse foi o primeiro ano de seu “programa marco” de sete anos para a pesquisa científica. No ano passado foram comprometidos cerca de 20 milhões de euros para a pesquisa sobre tuberculose, mas a Comissão “não teve tempo” de gastar toda essa quantia em 2007. Assim, parte desse dinheiro será gasto este ano, e outra parte foi usada para melhorar as ferramentas de diagnostico, afirmou. Embora fosse possível aumentar o financiamento para as questões relativas a este mal, “sempre existe a possibilidade de tirarmos dinheiro de algum outro lugar. Talvez seja o caso de retirar da pesquisa sobre câncer ou diabete. É uma questão muito delicada”, acrescentou.
Mas Carl Schlyter, membro do Parlamento Europeu pelo Partido Verde sueco, disse que a Comissão Européia precisa reexaminar suas prioridades para a pesquisa científica, pois metade do dinheiro para esse fim na área energética se destina à geração nuclear. “Se não solucionarmos a tuberculose, não conseguiremos um desenvolvimento adequado nos países pobres. Se as pessoas estão doentes, não podem trabalhar”, afirmou. Stewart Cole, professor do Instituto Mundial da Saúde, em Genebra, considera errado os países ricos usarem a atual crise financeira como desculpa para reduzir o financiamento da pesquisa sobre tuberculose. “Toda crise econômica é seguida por um aumento da tuberculose. A pobreza agrava esta doença. A incerteza sobre a renda leva à depressão, que tem um efeito importante no funcionamento do organismo e desata uma forma latente de tuberculose. Este não é o momento de reduzir o financiamento. Muito pelo contrário, reclamamos um aumento”, afirmou. (IPS/Envolverde)

