DIALOGUES: Indígenas do Ártico reclamam seus direitos ao frio

Québec, Canadá, 23/12/2008 – (Tierramérica).- Os aborígines do Ártico querem viver no frio glacial que forjou sua cultura, hoje ameaçado pela mudança climática, afirma, nesta entrevista exclusiva ao Terramérica, a canadense Mary Simon.

Mary Simon e um mapa de comunidades inuit. - Gentileza da organização Inuit Tapiriit Kanatami

Mary Simon e um mapa de comunidades inuit. - Gentileza da organização Inuit Tapiriit Kanatami

“Aterrador”, esta é a palavra que melhor descreve um caçador perdido em gelos que mudam de forma ou o dono de uma casa cujas bases afundam. É desta forma que a líder indígena canadense Mary Simon descreve a situação que vive hoje o povo inuit por causa do aquecimento global. A mudança climática está modificando a ecologia do Pólo Norte e criando uma crise para 160 mil indígenas da região, os inuit, que vivem dispersos nas margens do Oceano Ártico no Alaska, Canadá, Groenlândia, Noruega e Rússia.

Essa é uma região muito fria para as árvores, e somente alguma pastagem e pequenos arbustos conseguem viver nos três meses de verão boreal, com temperaturas médias de seis a oito graus. Na estação fria, que dura nove meses, a terra e o mar ficam congelados e cobertos de neve. Como o Sol não se eleva no horizonte durante o inverno, a escuridão reina durante as 24 horas do dia, e a temperatura média de 30 graus negativos chega a 60 graus abaixo de zero nos dias mais frios.

Assim, nessas inóspitas condições, os inuit sobreviveram milhares de anos caçando focas, morsas, baleias e renas. Antes, moravam em casas feitas com uma armação de ossos de baleia, pedras e musgo, recobertas com pele animal, ou em iglus. Hoje residem em casas de madeira, fabricadas com materiais importados de lugares a milhares de quilômetros. Mas sua terra de neve e gelo se derrete enquanto a temperatura aumenta duas ou três vezes mais rápido do que em qualquer outra parte do mundo.

“Vivemos da terra, caçando e pescando para obter nosso alimento, cada vez mais difícil porque tudo está mudando”, disse Simon ao Terramérica. Líder do povo inuit canadense e ex-embaixadora desse país na Dinamarca, Simon nasceu na aldeia de Kangisqsualujjuaq, no extremo norte da oriental província de Quebec. O Terramérica conversou com ela na cidade de mesmo nome, a capital provincial.

TERRAMÉRICA: Qual o impacto da mudança climática nos inuit?

MARY SIMON: A rápida mudança climática no Ártico afeta o permafrost (camada sempre congelada no nível superficial do solo) e, portanto, nossas comunidades, que estão construídas sobre ele. Acelera-se a erosão de nossas costas, causando inundações e trazendo insetos que os inuit nunca haviam visto. As previsões cientificas para a região do Ártico são alarmantes. Não, alarmante não é uma palavra bastante forte. Aterrador descreve melhor um caçador perdido no gelo que muda de forma ou o dono de uma casa que racha ao meio quando suas bases afundam.

TERRAMÉRICA: O que diria aos líderes mundiais que devem aprovar em dezembro de 2009 um acordo climático que substitua o Protocolo de Kyoto e estabeleça reduções para os gases de efeito estufa que causam o aquecimento?

MARY SIMON: Eles não o vinculam com o que ocorre no Ártico. A mudança climática é primeiro, e antes de tudo, uma questão humana. Os inuit têm de viver diariamente com seus efeitos. Vivemos da terra, caçando e pescando para obter nosso alimento, que fica cada vez mais difícil porque tudo está mudando. Temos de comprar mais comida do sul (do Canadá) que é muito cara. Por isso, as pessoas são forçadas a se alimentar com o que é mais barato, a comida pronta, descartável. Em nossas lojas raramente há produtos frescos, e isso prejudica nossa saúde. Para os inuit, falar de mudança climática implica uma visão ampla e integral das conexões entre nosso ambiente, nossa política e nosso bem-estar, econômico e cultural.

TERRAMÉRICA: O que deve ser feito?

MARY SIMON: Partes, superficiais, não servem. Necessitamos repensar a maneira como fazemos as coisas para depender menos dos combustíveis fósseis. Precisamos de políticas inter-relacionadas – energéticas, industriais, de transporte e urbanas – para depender radicalmente menos dos combustíveis que emitem gases de efeito estufa. Necessitamos de uma ação real para adotar os cortes exigidos desses gases e precisamos de liderança.

TERRAMÉRICA: O que deveria fazer o Canadá? MARY SIMON: É essencial adotar metas duras de redução de emissões, políticas nacionais apoiadas por uma destinação prioritária do orçamento federal. As medidas sobre gases de efeito estufa devem ser claras e controláveis. A complexidade acarreta dois perigos. Primeiro, o de desviar esforços para tentar “enganar o sistema”, em lugar de investimentos e tecnologias que reduzam as emissões. Segundo, fica muito difícil manter a confiança pública, aprender com nossos erros e não perder de vista os objetivos principais.

TERRAMÉRICA: Você acredita que as pessoas do sul do Canadá, 99% da população nacional, compreendem o que está ocorrendo no norte?

MARY SIMON: Elas ficam sabendo apenas de nossos problemas sociais, do alcoolismo e dos suicídios dos jovens. Não sabem que há muita gente que busca duramente uma vida melhor, mas que há tantos obstáculos. Por exemplo, nossa cultura não é ensinada no sistema educacional. As crianças ainda são castigadas por falarem seu próprio idioma. E a mudança climática nem mesmo foi tema de campanha nas eleições federais de outubro. Isso é simplesmente escandaloso.

TERRAMÉRICA: O que pensa sobre o interesse e as promessas de investimento no Àrtico por parte do governo. MARY SIMON: O governo de Stephen Harper só fala de soberania (reclamações territoriais) e extração de recursos, não da saúde das comunidades. No norte existe uma desesperadora falta de moradia, e as pessoas vivem aglomeradas. Isso tem repercussões: as crianças não vão bem na escola porque têm de dormir por turnos. E surgem focos de tuberculose. Os custos da moradia são três vezes mais altos e há poucos empregos. Embora o governo tenha um plano de moradia social, são poucas, mal construídas e não duram muito. Para afirmar nossa soberania no norte, são necessárias comunidades saudáveis.

* O autor é correspondente da IPS.

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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