Rio de Janeiro, 15/12/2008 – Tirar do estancamento os processo regionais, afirmar a vontade de integração sem exclusões e contribuir para superar certos atritos bilaterais são os méritos em relação à Cúpula da América Latina e do Caribe da próxima semana no Brasil, afirmam analistas. O encontro de governantes da região, amanhã e depois na Costa do Sauípe, na Bahia, comprova que ‘o Brasil continua levando a sério o papel de liderança que sempre buscou”, disse Maria Teresa Romero, professora de pós-graduação da Universidade Central da Venezuela.
Brasília mantém a iniciativa de convocar “esta operação que parece voltada a criar uma aliança de esquerda democrática no continente, para oposição à Alternativa Bolivariana para os Povos de Nossa América (que reúne Bolívia, Cuba, Dominica, Honduras, Nicarágua e Venezuela) e acentuar uma política regional distinta da esquerda radical”, acrescentou a professora. Cuba será o país mais beneficiado por esta cúpula, na qual “pela primeira vez os 33 países (latino-americanos e caribenhos) convocados poderão se reunir sem tutelas, sem potências estrangeiras como os Estados Unidos ou provenientes da Europa”, disse o jornal oficial cubano Granma.
A cúpula é por si mesma “uma novidade por não contar com Estados Unidos ou Espanha”, disse Diego Ventura, pesquisador de assuntos internacionais da Universidade Nacional Autônoma do México. Antes, os chefes de Estado e de governo de toda a região somente se reuniam em cúpulas interamericanas ou ibero-americanas. Como único país marginalizado do sistema da Organização dos Estados Americanos, Cuba tem “muito a ganhar” e pode colher “um prestigioso reconhecimento”, além do rechaço às sanções que foram impostas por Washington há 46 anos, disse Marcos Azambuja, ex-embaixador na Argentina e na França e que ocupou outros altos cargos na chancelaria brasileira.
Raúl Castro fará sua primeira viagem oficial ao Brasil como presidente de Cuba, além de participar da Cúpula da América Latina e do Caribe. Na quinta-feira estará em Brasília retribuindo a visita que o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez em outubro e o apoio brasileiro à reclamação de acabar com o bloqueio norte-americano. Castro quer se aproximar do Brasil, que reúne “condições políticas para apoiar e facilitar a reinserção internacional” e o desenvolvimento industrial previsto em Cuba, para que no futuro possa “evitar cair outra vez na órbita dos Estados Unidos”, segundo Luiz Alberto Moniz Bandeira, autor de livros sobre a história das relações entre América Latina e Washington.
Na visão do novo presidente cubano, o Brasil seria um aliado mais importante do que a Venezuela, apesar da atual ajuda petroleira venezuelana, acrescentou Bandeira. Cuba já tem relações diplomáticas plenas com 30 das outras 32 nações latino-americanas e caribenhas que estarão representadas na cúpula do Brasil. As exceções são Costa Rica e El Salvador. Mas seu grande problema é o enfrentamento com os Estados Unidos desde o início dos anos 60.
Retomar agora um processo de aproximação regional plena é oportuno, apesar do próximo desafio dos Estados Unidos, a crise econômica nascida precisamente nesse país e a fragmentação latino-americana e caribenha em variados blocos de integração, dizem os analistas internacionais consultados pela IPS. A formulação de uma “agenda própria, mais ou menos comum” para suas relações com Washington é uma necessidade da região neste momento de transição no governo dos Estados Unidos, disse Bandeira.
Será positivo ter propostas prontas para discutir com a nova administração dos Estados Unidos, “cuja transição começou com a vitória de Barack Obama” nas eleições de novembro, disse a brasileira Cristina Pecequilo, professora do Centro Universitário Ibero-americano, de São Paulo. Além de aproximar-se de líderes de toda a região e intensificar a política brasileira de diálogo tanto Sul-Sul quanto Norte-Sul, esta cúpula cria melhores condições para os países da região enfrentarem melhor preparados a crise mundial, acrescentou.
“Hoje é a hora de nossa segunda independência” e a reunião convocada pelo Presidente Lula só tem sentido “nesse horizonte estratégico”, disse Marcelo Gullo, especialista em política argentino da estatal Universidade Nacional de Rosário, para quem “já é possível afirmar o fim da hegemonia absoluta dos Estados Unidos sobre o sistema internacional. “Caminhamos para o multipolarismo’,no qual os países que “não conseguem se agrupar para formar um Estado continental serão objetos e não sujeitos da história, Estados subordinados de forma perpétua, meros segmentos indiferenciados do mercado internacional”, afirmou Gullo.
Nesse sentido, a cúpula no Brasil representa uma resposta à “clara paralisação” de outros processos de integração regional, como o Grupo do Rio, o Mercosul e a Cúpula das Américas, disse Paz Milet, professora do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade do Chile. Tampouco avança para a última iniciativa de integração regional, a União de Nações Sul-americanas (Unasur), que reúne 12 países da América do Sul com a proposta original do Brasil, modificada por influência venezuelana.
O Brasil busca, então, “se reposicionar na região”, segundo Milet, que destaca a integração energética como “um dos temas que exigem tratamento em um fórum multilateral. Limar certas asperezas”, como o incidente diplomático entre Santiago e Lima, por declarações belicosas do comandante do exército peruano, Edwin Donayre, e as discordâncias entre Brasília e Quito pela expulsão de uma construtora e a negativa do governo equatoriano de pagar um empréstimo brasileiro que considera ilegítimo, pode ser outro resultado da Cúpula da Bahia.
O Equador se colocou em posição incômoda diante de seu vizinho por rejeitar uma dívida contraída no contexto do Convenio de Pagamentos e Créditos Recíprocos da Associação Latino-americana de Integração (Alalc), “o único sistema de financiamento que não depende do aval dos Estados Unidos ou da Europa”, segundo Moniz Bandeira. Mas, a cúpula desta semana poderá apresentar como resultado concreto a assinatura do Acordo sobre o Conselho de Defesa da América do Sul, já negociado com êxito, segundo o historiador.
A cúpula é oportuna, mas agrava a multiplicidade de esquemas de integração, o “excesso de processos e cúpulas”, disse o embaixador Azambuja. É preciso “simplificar e dar um foco aos demasiados tabuleiros” com que o Brasil joga, acrescentou. Mas, O diplomata espera que a cúpula permita “dar harmonia e equilíbrio” aos numerosos blocos sub-regionais que se formaram na América Latina e no Caribe. Não se pode esquecer que, apesar da conveniência de diversificar as alianças e reforçar a liderança regional,”é a América do Sul o espaço prioritário de integração” para o Brasil, concluiu a professora Pecequilo.
No caso do México, a participação de seu presidente, o conservador Felipe Calderón, não elimina o fato de “estar distante da região, não apenas o governo, mas o país”, com demonstra a ausência total da cúpula nos noticiários desse país, disse Ventura. (IPS/Envolverde)
* Com as colaborações de Daniela Estrada (Chile), Diego Cevalos (México), Humberto Márquez (Venezuela), Marcela Valente (Argentina) e Patricia Grogg (Cuba).

