Berlim, 01/12/2008 – O comércio justo está em moda na Alemanha. Mas, ativistas contrários à globalização criticam as grandes empresas que assumem essa bandeira e fazem dinheiro graças a esse novo modelo sem adotar seus princípios de justiça e desenvolvimento. Chama-se “comércio justo” os intercâmbios que levam em conta desenvolvimento, meio ambiente e padrões trabalhistas dos países produtores do Sul. No dia 18 de setembro, quase todas as crianças alemãs em idade escolar comeram “bananas do comércio justo”, dentro da campanha “Comer bananas por um mundo melhor”. Isto foi uma prova do sucesso que o conceito tem na Alemanha.
Nesse dia, foi vendido um milhão de bananas. A iniciativa foi da Transfair, organização que reúne várias empresas alemãs que tiram proveito do comércio justo. Numerosas organizações que trabalham com crianças, entre elas o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), participaram da celebração. “O comércio justo está em moda na Alemanha”, disse à IPS Didier Overath, diretor da Transfair. “Em 2007, os produtos do Sul que tinham o nosso rótulo aumentaram 30%”. O faturamento do comércio justo na Alemanha praticamente triplicou desde 2003 até esse ano, quando chegou a US$ 243 milhões.
O sucesso se deve à maior consciência das populações das nações industrializadas sobre o quanto é injusto o sistema de comércio mundial e que os pequenos agricultores e fabricantes do Sul em desenvolvimento devem se beneficiar diretamente dos ganhos gerados pro sua produção. Além disso, o comércio justo garante que a produção respeite padrões internacionais trabalhistas e ambientais. “Com a etiqueta de comércio justo vendemos principalmente alimentos”, explicou Overath, como banana, cacau, café, chá, açúcar, mel, arroz, vinho, sucos, entre outros. Mas, a Transfair também vende produtos de algodão, instrumentos musicais, jóias, etc. Os produtos que levam o rótulo de comércio justo incluem 750 artigos diferentes, vendidos em mais de 800 estabelecimentos comerciais especiais da Alemanha.
No “dia da Banana” a Transfair pagou um dólar a mais sobre o preço de mercado para cada caixa da fruta, disse Overath, dinheiro esse “doado aos programas educativos e de saúde das comunidades produtoras”. Porém, os ativistas contra a globalização criticam o funcionamento do comércio justo. Mas a Transfair alega que seu sistema é superior, do ponto de vista ético, em relação às práticas tradicionais. “O comércio justo combate os problemas derivados das práticas de intercâmbio tradicionais ao colocar as pessoas à frente do lucro”, diz um comunicado da companhia.
Práticas tradicionais, explica a empresa, são as baseadas na maximização do lucro em benefício de uns poucos e sem considerar padrões trabalhistas, de direitos humanos e ambientais. Também diz que seus sócios do Sul lhe oferecem “um preço justo, cooperação de longo prazo, boas condições de trabalho, processos de trabalho democráticos e respeito e promoção dos direitos humanos”. Para a Transfair, comércio justo é uma “associação comercial baseada no diálogo, na transparência e no respeito para obter maior igualdade nos intercâmbios internacionais. Contribui para o desenvolvimento sustentável ao oferecer melhores condições para os produtores e trabalhadores marginalizados bem com garante o respeito de seus direitos, em especial no Sul”.
Mas, em alguns casos ocorre o contrário, segundo seus críticos. A Transfair assinou um contrato de cooperação com a rede de supermercados alemã Lidl, acusada de vender produtos de baixo preço e violar os direitos de seus próprios trabalhadores. Os produtos de baixo preço são aqueles cujo custo de venda é menor do que o de produção. Além disso, a Transfair tem acordos de cooperação com multinacionais como a Nestlé, acusada de explorar os recursos de água em várias partes do mundo sem dar atenção aos direitos das populações locais nem ao meio ambiente.
A Associação para Taxação das Transações Financeiras e Ajuda aos Cidadãos (Attac) qualificou de “simples cosmético” o acordo entre Transfair e Lidl. “Naturalmente que é bom para que a Lidl, finalmente, reaja às críticas dos consumidores. Mas, ao mesmo tempo, como continua vendendo mais de 1.200 produtos de baixo preço, temos de concluir que sua cooperação com a Transfair é meramente cosmética”, disse Kay Schulze, coordenador da campanha da Attac contra essa empresa.
“Um componente fundamental do comércio justo é o respeito aos direitos dos trabalhadores. E sobre este assunto a Lidl não mudou substancialmente sua conduta”, disse Schulze. Também se critica a Transfair por sua falta de transparência e alguns de seus critérios de classificação e seu processo de certificação dos produtos que vende. Por sua vez, a porta-voz da Transfair, Claudia Brueck, disse à IPS que “a cooperação com a Lidl faz parte de nossa estratégia geral de ampliar o impacto do comércio justo nas lojas da Alemanha. Somos uma organização que certifica produtos, mas não controlamos o comportamento das corporações”.
Claudia Brueck reconheceu que a cooperação com organizações multinacionais como a Nestlé é ambígua e pode simplesmente ser considerada como uma “lavagem verde” (greenwashing) das identidades corporativas. “Há 10 anos, o comércio justo era uma idéia de alguns poucos”, acrescentou, “mas agora se converteu em um gigantesco mercado”. As “empresas também se deram conta de que os consumidores do Norte estão informados e preocupados pela situação dos países do Sul e não querem mercadorias manchadas com exploração infantil ou produzidas sob condições ambientais e humanitárias questionáveis”, acrescentou.
Por isso, as corporações mudam suas estratégias. “A Transfair vende café de organizações mexicanas que pressionam pequenos agricultores de lugares como O Estado mexicano de Chiapas”, afirmou Jan Braunholz, especialista alemão em comércio justo que há pouco redigiu um informe a respeito. “Por isso aumenta a oposição contra a qualificação de comércio justo em Chiapas”, acrescentou. Desde o início da década de 90 esse Estado é palco da oposição de agricultores contra a globalização neoliberal e também é a terra do insurgente Exército Zapatista de Libertação Nacional.
Segundo Braunholz, uma das organizações certificadoras de comércio justo, a Fairtrade Labelling Organisations International (FLO), paga aos pequenos produtores de café mexicano preços muito baixos e cobra deles uma taxa muito alta por seu selo. A Certificadora Mexicana de Produtos e Processos Ecológicos (Certimex) é alvo das mesmas críticas, acrescentou. “A FLO se aproxima de grandes corporações nacionais ou multinacionais para envolvê-las no comércio justo”, explicou. “Essa aproximação e o alto custo para obter um certificado empurram os produtores de café mexicanos novamente para os coiotes, os intermediários que trabalham para as grandes companhias internacionais”. (IPS/Envolverde)

