DESENVOLVIMENTO: Outros 40 milhões de famintos

Roma, 11/12/2008 – A carestia aumentou em mais 40 milhões o número de pessoas na fome neste ano, informou a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a alimentação na capital italiana. A quantidade de desnutridos em todo o mudo subiu para 963 milhões, em comparação com 023 milhões de 2007, segundo a última edição do informe anual “O estado da insegurança alimentar no mundo”, apresentado esta semana pela FAO. Esse número representa um aumento superior a 80 milhões desde o período base 1990/92, e é provável que se somem muitos mais ao exército de famintos e pobres do mundo devido à crise financeira, acrescenta o documento.

Um agudo aumento no preço dos alimentos é responsável por reverter a tendência previamente positiva para reduzir pela metade a proporção de pessoas que sofrem fome em todo o mundo até 2015, segundo a FAO. “Devido ao encarecimento dos alimentos iniciado há dois anos, 75 milhões de pessoas foram empurradas para a fome crônica. Esta tendência continuou, arrasta 40 milhões a mais este ano”, disse em entrevista coletiva o diretor-geral desta agência da ONU, Jacques Diouf.

O preço dos principais cereais caiu mais de 50% em relação ao máximo registrado em junho, mas continua sendo alto comparado com anos anteriores. “A redução dos preços internacionais dos alimentos não deveria desviar a atenção da necessidade de aumentar a produtividade agrícola”, acrescentou Diouf. “Existências alimentares que não são respostas, volatilidade dos preços dos alimentos e as crises financeira e econômica continuam ameaçando a insegurança alimentar. Os preços dos alimentos nos mercados locais ainda estão em níveis sem precedentes”, alertou.

“Para cumprir estes desafios sem pressões importantes sobre os preços dos alimentos o rendimento do cereal em países em desenvolvimento deveria aumentar 40%, os requisitos de irrigação ter aumento de 50% e incorporar entre 100 milhões e 200 milhões de hectares” às terras cultivadas”, disse à IPS o economista da FAO Kostas Stamoulis. Vários especialistas sugerem que o encarecimento dos alimentos representa uma oportunidade para a agricultura. Mas a maioria dos países em desenvolvimento não aproveita isto.

“Por mais que tenha duplicado o preço das sementes e dos fertilizantes em 2006, os agricultores pobres não puderam aumentar a produção. Por seu lado, os agricultores ricos em países industrializados puderam enfrentar o aumento de custos e ampliar as plantações”, disse Stamoulis. Por esta razão, é provável que a produção de cereais nas nações industrializadas aumente pelo menos 10% este ano. Sendo que o aumento nos países em desenvolvimento pode não superar nem mesmo o 1%.

Em uma cúpula realizada no começo deste ano em Roma, Diouf pediu urgência à comunidade internacional para aumentar em pelo menos US$ 300 bilhões anuais os investimentos em países pobres, para ajudar os agricultores a enfrentar a escassez e a carestia. Dois terços das dificuldades se distribuem em sete países: Bangladesh, China, Etiópia, Índia, Indonésia, Paquistão e República Democrática do Congo. O avanço nestes países com grandes populações teria um importante impacto na redução da fome mundial. Quase dois terços dos famintos do mundo vivem na Ásia (583 milhões em 2007).

No ano passado na África subsaariana uma em cada três pessoas (ou 236 milhões) sofriam fome crônica, o que representa a proporção mais alta de desnutrição em uma região, diz o informe. A maior parte do aumento nos números da fome se registra na República Democrática do Congo, onde conflitos persistentes contribuíram para aumentar a proporção de pessoas que sofrem fome de 29% para 76%

A África subsaariana concretizou alguns avanços na redução da proporção de pessoas que sofrem fome crônica de 34% (1995/97) para 30% (2003/05). Congo, Gana, Malawi, Moçambique e Nigéria conseguiram a maior redução na proporção de desnutridos. Gana é o único país que atingiu a meta de redução da fome contida nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

América Latina e Caribe foram os que apresentaram melhores resultados em reduzir a fome antes do encarecimento dos preços dos alimentos. Depois, a carestia aumentou o número de pessoas com fome na região para 51 milhões em 2007. Oriente Médio e África setentrional sofrem, habitualmente, os níveis mais baixos de desnutrição do mundo em desenvolvimento no planeta, diz o informe da FAO. Mas os conflitos no Afeganistão e Iraque e o encarecimento dos alimentos pressionaram para a alta, de 15 milhões de pessoas no período 1990/92 para 37 milhões em 2007.

É necessário um enfoque global para combater seu impacto sobre a fome, disse Diouf. Isto significa “medidas para permitir reação ao setor agrícola frente aos preços elevados” e redes de segurança e programas de proteção social para os mais vulneráveis do ponto de vista alimentar. (IPS/Envolverde)

Sabina Zaccaro

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