SAÚDE: Nova ferramenta para diagnosticar a malária

Uxbridge, Canadá, 12/12/2008 – A malária mata uma criança a cada 30 segundos. Um novo avanço em matéria de diagnostico pode reduzir esse número devastador, anunciaram cientistas canadenses. A descoberta de biomarcadores – traços biológicos no sangue de meninos e meninas – que identificam duas das formas mais letais de malária foi apresentado nas reuniões anuais da Sociedade Norte-americana de Medicina Tropical e Higiene, na cidade de Nova Orleans.

“Uma criança com febre pode ser tratada em uma clinica com remédios, mas isso não será suficiente para tratar a malária cerebral”, disse à IPS Conrad Liles, especialista em doenças tropicais do Centro McLaughlin-Rotman para a Saúde global (MRCA), de Toronto (Canadá). Esta variedade da doença, que se desenvolve nos vasos sangüíneos do cérebro, é a mais mortal. Entre 2% e 5% das crianças com malária desenvolvem a forma cerebral, e 40% delas morrem, disse Liles à IPS após apresentar sua descoberta, no domingo.

Liles e seus colegas do MRC descobriram uma correlação entre a malária cerebral e uma proporção anormal entre duas variedades de proteínas que regulam a ativação dos vasos sangüíneos, conhecidas como angiopoietinas. Quando se detecta uma proporção anormal em uma amostra de sangue, a criança pode ser tratada de maneira muito mais intensiva. Os estudos de campo feitos com os tailandeses Noppadon Tangpukdee, Srivicha Krudsood e Sornchai Looareesuwan, e os ugandenses Robert Opoka e Chandy John mostram que a proporção de identificações com sucesso de malária cerebral era muito alta, entre 80% e 100%. “Somente matar o parasita não é suficiente, porque a doença ainda pode ser desenvolvida”, disse Liles.

A malária é uma enfermidade do sangue causada por um parasita que se encontra dentro de certas espécies de mosquitos. Os sintomas, como febre, dores de cabeça e vômitos, aparecem ao redor de nove a 14 dias após a picada de um mosquito infectado. Se não há remédios disponíveis para o tratamento ou se os parasitas são resistentes a eles, a infecção pode levar a um coma, a uma anemia severa e, inclusive, à morte. Em todo o mundo a malária causa entre 350 e 500 milhões de doentes e mais de um milhão de mortes por ano.

As grávidas que não apresentam sintomas desta doença podem ter altos níveis de parasitas em suas placentas, o que constitui importante causa de abortos espontâneos, baixo peso ao nascer e anemia materna. Cerca de 10 mil mulheres morrem anualmente devido à malária de placenta, enquanto até 400 mil desenvolvem uma anemia severa. A doença também causa até 200 mil mortes infantis e inumeráveis casos de bebês nascidos com baixo peso, importante fator de risco de morte na primeira infância.

“As crianças nascidas com baixo peso devido à malária na placenta têm várias desvantagens antes de terem respirado”, disse Kevin Kain, do MRC, e diretor do Centro de Medicina Tropical e do Viajante, no Hospital Geral de Toronto. “Qualquer doença adicional que sobrevenha na primeira infância tem mais probabilidades de matá-las”, acrescentou. Análises realizadas com mulheres grávidas do Quênia revelaram que as que sofriam malária na placenta tinham altos níveis de outro biomarcador em seu sangue: a proteína C5a, que há uma parte importante da defesa inata do corpo contra as infecções.

“Um teste que ajuda a detectar a malária na placenta significa que as mulheres podem ser tratadas durante a gravidez, reduzindo seu risco de morte ou anemia, e talvez salvando seus bebês de má-formação ou abortos espontâneos”, disse Kain. Ainda não estão disponíveis essas analises. O MRC e outros institutos desenvolvem um “teste de diagnóstico imediato” que servirá para analisar várias coisas, com os dois biomarcadores. A esperança é que estas ferramentas de diagnóstico sejam baratas, fáceis de usar, não exigiam refrigeração e estejam disponíveis dentro de três a cinco anos, disse Liles.

Estas descobertas procedem de uma nova capacidade de detectar a patogênese de uma doença em nível molecular. Ao se compreender o avanço da enfermidade os pesquisadores esperam não apenas detectá-la mais rapidamente como também interromper seu curso. Estes biomarcadores oferecem novos objetivos para potenciais novos remédios ou mesmo medicamentos já existentes para outras doenças que poderiam alterar o avanço da infecção, acrescentou o especialista.

As angiopoietinas foram descobertas há apenas 10 anos, enquanto crescia o tumor de um paciente de câncer. Pensando que o processo da malária envolvesse uma infecção semelhante ao crescimento dos vasos sanguíneos em tumores, se tratou de “um calculo educado” para ver se havia alguma relação, recordou Liles. Desenvolver tais biomarcadores e ferramentas de diagnostico pode melhorar drasticamente o tratamento e reduzir os custos gerais pelo uso mais eficiente de recursos limitados, disse. “Penso que a descoberta tem implicações significativas”, afirmou.

Na segunda-feira, o The New England Journal of Medicine informou que esta candidata a vacina contra a malária, mais avançada clinicamente, deu tanto aos bebês quanto às crianças menores uma proteção significativa. “Os resultados do estudo de hoje demonstram que nossos investimentos para desenvolver vacinas contra a malária começam a dar frutos. Estamos mais próximos que nunca de desenvolver uma para as crianças da África”, disse Christian Loucq, diretor da Malaria Vaccine Initiative.

Nos bebês, este projeto de vacina pode ser administrado dentro de programas existentes de imunização para doenças como difteria, tétano e poliomielite, nos países africanos. Em crianças de cinco a 17 meses, a possível vacina RTSS,s/AS01 reduziu em 53% o risco de malária durante um período de acompanhamento de oito meses. Os estudos foram feitos no Quênia e na Tanzânia. (IPS/Envolverde)

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *