ÁFRICA DO SUL: Hortas comunitárias contra a fome

Cidade do Cabo, 05/01/2009 – Há alguns anos, Regina Fhiceka, de 66 anos, e os cinco membros de sua família só podiam comer verduras uma vez por semana. Nos outros dias, apenas milho e pão, o que havia de mais barato no distrito de Philippi, Cidade do Cabo, na África do Sul. Mas Fhiceka soube da existência de um projeto municipal para incentivar a população a formar hortas comunitárias. “Conhecia algumas mulheres da comunidades que haviam iniciado sua própria horta no quintal dos fundos. Pedimos às assistente social que nos ajudassem a conseguir um terreno maior. Preenchemos os formulários exigidos e o escritório local do Ministro da Agricultura nos entregou uma área”, contou. Fhiceka.

Ela e outras cinco mulheres receberam um terreno na periferia de Philippi, onde vivem cerca de 150 mil pessoas em condições muito precárias. Em poucos meses já haviam obtido uma abundante colheita de verduras e hortaliças, como tomate, repolho, cenoura e feijão, e começaram a vender o excedente. “Não tive outra opção. Comecei a cultivar porque não tinha dinheiro para comprar verduras no mercado. Também me dei conta de se fizéssemos isso em grupo teríamos mais que o suficiente para nos alimentar e conseguir algum dinheiro com a venda do excedente”, afirmou. Fhiceka conta que o consumo regular de verduras melhorou sua saúde. “Antes de trabalhar na horta comunitária não comia bem e sempre ficava resfriada. Agora, raramente fico doente”, garantiu.

Pela primeira vez, em 2007 houve a mesma quantidade de pessoas vivendo nas cidades do que no campo, segundo o Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (UM-Habitat), o que aumentou a demanda por alimentos, água, moradia e outros serviços básicos nos centros urbanos. As cidades nas nações em desenvolvimento n ao costumam estar preparadas para lidar com a pressão causada pelo aumento da população. Mas, os governos reconheceram a importância da agricultura urbana e iniciaram vários projetos nesse sentido.

Em Cidade do Cabo, muitos, com Fhiceka, receberam ajuda graças a um acordo de cooperação assinado dia 25 de novembro entre a prefeitura e a Associação para o Desenvolvimento Municipal para a África Oriental e Austral (MDP-ESA). O convenio se refere à implementação de um projeto de agricultura urbana em Philipp. O MDP-ESA ajuda prefeituras de todo o mundo a desenvolver e ampliar projetos de agricultura urbana através de seu programa Cidades Agrícolas para o Futuro. O orçamento de Philippi para os próximos cinco anos é de US$ 99 mil. Os agricultores urbanos recebem ajuda para conseguir terrenos, orientação sobre o tipo de cultivo e ajuda para encontrar mercados onde venderem seus produtos. Projetos desse tipo contribuem para enfrentar a crise alimentar, as más condições de saúde e a pobreza.

Como em todo o continente, as mulheres sul-africanas são a coluna vertebral da agricultura em pequena escala. A iniciativa de Philippi será de grande ajuda para elas, que ganham a vida vendendo verduras e devem cuidar dos netos quando estes perdem os país por causa da aids. Também contribuem para cuidar do meio ambiente, pois aprendem a reutilizar a água. “Sou pobre, mas acredito que tenho de ajudar as pessoas com minhas verduras”, disse Fhiceka. “Algumas pessoas são tão pobres e estão tão doentes que não teem nada. Não posso ficar sentada e ver com morrem de fome porque sofrem de aids e não podem plantar nem conseguir trabalho”, acrescentou. Mais de 80% da população de Philippi não possui fonte de renda formal, segundo Stanley Visser, responsável de desenvolvimento da Cidade do Cabo.

“Muitas famílias dependem de suas plantações domesticas. Com a crise econômica e a conseqüente insegurança alimentar pela alta dos preços, as hortas comunitárias são uma das estratégias básicas para sobreviver. Muitos moradores de assentamentos informais pobres chegam do campo e se dedicam a plantar, porque eram pequenos agricultores e aplicam seus conhecimentos nas cidades”, prosseguiu Visser. Uma horta domestica permite que uma família de seis pessoas tenha verdura fresca por um ano. Se voltarem a cultivar e assegurarem que a terra esteja bem fertilizada, podem viver dela por vários anos. “As chamadas hortas de trincheiras também são populares nas pequenas localidades”, disse Visser. As pessoas cavam espécies de trincheiras para jogar nelas o lixo biodegradável. Cobrem tudo com terra e plantam as sementes. O solo é rico em nutrientes e pode ser cultivado por quatro anos, quando é preciso adubar novamente.

“As mulheres que trabalham em hortas comunitárias costumam ajudar os mais pobres do que elas e os doentes”, disse Rob Small, diretor da organização Abalimi Bezakaya (expressão xhosa que significa cultivo domestico), que trabalha em vários distritos desta cidade. “As mulheres teem um forte sentimento comunitário e sempre ajudam os outros. As hortas costumar estar localizadas em propriedades escolares, porque os diretores estão dispostos a colaborar co a comunidade, pois teem contato diário com as conseqüências devastadoras da pobreza”, disse Small. “O Ministério da Educação apoia os projetos de hortas comunitárias e terrenos de sua propriedade”, acrescentou.

As hortas comunitárias apresentam um sentido de conservação ambiental, porque os agricultores costumam plantar arbustos e outras plantas em volta de seus terrenos. Assim, essas áreas, que podem ter entre mil e cinco mil metros quadrados, atraem insetos e pequenos animais que as convertem em pequenos espaços de biodiversidade, afirmou Small. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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