México, 21/01/2009 – Membros da comunidade negra da América Latina e do Caribe esperam que o governo de Barack Obama, primeiro afro-descendente a chegar à presidência dos Estados Unidos, abra brechas e sacuda consciências a favor de seus direitos. Que alguém como Obama fosse presidente seria impossível pensar até há poucos anos, sua aparição em cena “mostra uma mudança à qual todos devemos atende e sobre a qual todos temos expectativa”, disse à IPS desde a Venezuela Nirva Camacho, integrante da não-governamental Coordenação de Mulheres Afro-latino-americanas, Afro-caribenhas e da Diáspora, que reúne grupos de 33 países. Enquanto par Juan Monta]no, colunista de jornais equatorianos, a posse de um afro-americano como mandatário tem”um significado extraordinário para nos”. Com o novo presidente dos Estados Unidos chega uma “mensagem clara” para os governos latino-americanos contra o racismo e a exclusão que ainda sofrem milhões de negros, disse Montaño à IPS desde Esmeraldas, no norte do Equador onde a população em sua maioria é dessa raça.
Segundo diversos estudos, os descendentes dos escravos africanos somam na América Latina e no Caribe 150 milhões de pessoas, na maioria pobres e excluídos em razão da cor de sua pele. Nesta região, a população negra é de “alta densidade e pouca ressonância”, além de discriminada, diz um estudo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Embora somem milhões de pessoas – a maioria delas se concentra em Brasil, Colômbia e Venezuela – chama a atenção sua tênue presença política e seu pouco acesso a instancias de governo, diz o estudo da Cepal a “Discriminação étnico-racial e xenofobia”.
Uma pesquisa do Instituto Interamericano de Direitos Humanos diz, por sua vez, que em quase todos os países da região os afro-descendentes são “vítima de discriminação racial e exclusão, razão pela qual sofrem grandes privações econômicas e sociais, além de ocuparam um número muito menor de cargos de direção na sociedade”. Desde Caracas, Camacho disse que “para os afro-descendentes, sobretudo da Venezuela, a presidência de Obama gera esperanças de mudança e uma expectativa média, pois já nos decepcionou sobre suas primeiras declarações sobre nosso presidente, Hugo Chávez”.
Em entrevista à rede de televisão Univisión, Obama disse que Chávez representa um obstáculo para o progresso da América Latina e que é preocupante existirem informes indicando que esse mandatário apoiou as Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia. Por sua vez, Chávez disse que Obama “será um fiasco para seu povo e para o mundo”. Camacho afirmou que Chávez foi um presidente que deu voz aos negros e trabalha em “um projeto revolucionário que, esperamos, Obama entenda e respeite”.
Montaño, que além de colunista é diretor de Gestão Ambiental no município de Esmeraldas, acredita que a presença de Obama mostra que o poder dos negros está crescendo. “Há um alto simbolismo em tudo isto que esperamos seja entendido e assumido também na América Latina”, acrescentou. Montaño contou que nos últimos dias viu na população de Esmeraldas um “grande entusiasmo e expectativa por Obama. Muitos estão interessados no que conseguiu e no que pode fazer”, disse.
O 44º presidente dos Estados Unidos, filho de pai queniano e mãe branca natural do Estado do Kansas, ambos falecidos, evitou pronunciamentos radicais contra o racismo nem falou especificamente da rejeição sofrida pelos negros. Nos Estados Unidos, onde 12% de seus 305 milhões de habitantes são negros, o índice de pobreza dessa comunidade é três vezes mais alta do que a dos brancos, e o nível de desemprego é o dobro. Na América Latina, onde os negros representam um terço da população total, sua situação é considerada ainda pior.
“Aqui no Equador, por exemplo, onde temos uma Constituição que reconhece nossos direitos, ainda não ocupamos cargos públicos de alto nível no governo”, disse Montaño. Camacho, afirmou que os negros da região conquistaram nos últimos anos espaços de organização e expressão antes inexistentes, mas, ressaltou que “ainda falta muito por avançar”. Obama representa munição e apoio nesse caminho, acrescentou. (IPS/Envolverde)

