Nova York, 27/01/2009 – No clássico do cinema de 1967 “A batalha de Argel”, que recria a guerra da independência argelina, um líder insurgente algemado, Bem M’Hidi, é levado perante um grupo de jornalistas franceses para um intenso interrogatório. Um deles lhe pergunta: “Não acha que é um tanto covarde usar bolsas de mulheres e sacolas para levar escondidos artefatos explosivos que matam tantas pessoas inocentes em cafés e clubes noturnos?”. Com a mesma rispidez, o insurgente argelino responde: “E não lhe parece ainda mais covarde lançar bombas de napalm em aldeias desarmadas sobre milhares de civis inocentes? Claro, se tivesses seus aviões de guerra seria muito mais fácil. Deem-nos suas bombas e podem ficar com nossas sacolas”.
Como os rebeldes argelinos, os combatentes do Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) não lutavam em um nível tradicional de campo de batalha, enquanto os militares israelenses lançavam seu grande poder de fogo sobre uma população praticamente indefesa em Gaza. Mais de 1.300 palestinos morreram em 22 dias de conflito. “Talvez fosse interessante ver os papéis trocados: palestinos com os aviões de combate e tanques de batalha norte-americanos e os israelenses com foguetes caseiros”, disse um diplomata árabe, estabelecendo um paralelo com a insurgência argelina. Além dos aviões F-16, os israelenses também usaram uma ampla gama de equipamentos norte-americanos, incluindo helicópteros Apache, tanques M60, veículos blindados para transporte de soldados e artilharia pesada.
Frida Berrigan, pesquisadora associada do Centro de Recursos Comerciais de Armas no Instituto de Políticas Mundiais dos Estados Unidos, disse que a maior parte do arsenal atual israelense está composto por equipamentos militares fornecidos pelos programas de assistência norte-americana. Israel recebeu 226 aviões F-16 e jatos de ataque, mais de 700 tanques M60, seis mil veículos e centenas de aviões para transporte de pessoal, helicópteros de ataque e aviões de treinamento, bem como bombas e mísseis táticos de todos os tipos. Por outro lado, centenas de foguetes erráticos usados pelo Hamas são tão rudimentares que a maioria não atingiu seus objetivos.
“Israel tem enormes recursos militares”, afirmou Natalie Goldring, pesquisadora do Centro para a Paz e Estudos de Segurança no Colégio Edmund A. Walsh de Serviço Exterior da Universidade de Georgetown. Os últimos acontecimentos demonstraram que Israel pode destruir grandes áreas da Faixa de Gaza. “Mas, não pode defender efetivamente seu povo contra os relativamente pouco sofisticados foguetes” do Hamas, disse Goldring à IPS. Apesar de seu tamanho e sua sofisticação, as forças militares israelenses não produziram a paz. E provavelmente não o consigam. “Não há sinal de que nenhuma das partes tenha êxito em usar a força para convencer a outra a se render”, acrescentou.
Por outro lado, organizações de direitos humanos acusaram Israel de empregar munições e artilharia que nunca deveriam ter sido lançadas contra zonas densamente povoadas. A Anistia Internacional exortou as autoridades israelenses a revelarem que tipos de armas e munições usaram contra a população palestina. “Agora sabemos que munições de fósforo branco foram usadas em áreas civis, embora as autoridades israelenses tenham negado isto”, disse Donatella Rovera, que lidera uma equipe investigadora da Anistia em Gaza. “Agora temos evidência irrefutável do uso desta arma, mas os médicos que trataram as primeiras vítimas não sabiam o que havia causado esses ferimentos”, acrescentou.
Em uma declaração divulgada na quinta-feira, a Anistia disse que os médicos em Gaza têm dificuldades para tratar certos tipos de ferimentos por desconhecerem o tipo de armas que os causaram. “Os médicos nos dizem que encontram novos padrões de lesões entre alguns palestinos vítimas dos ataques militares israelenses. Algumas vítimas apresentavam membros carbonizados, e os médicos não sabiam quais armas foram usadas”, acrescentou Rovera.
O chefe do Departamento Cirúrgico do Hospital Al Shifa em Gaza, Subhi Skeik, disse: “Temos muitos casos de amputação e reconstruções vasculares, nos quais normalmente se espera que os pacientes se recuperem. Mas, para nossa surpresa, muitos morreram uma oura ou duas após a cirurgia. Isto é dramático”. Por sua vez, a organização Human Rights Watch disse que o uso de artilharia pesada em áreas residenciais da cidade de Gaza violou as leis da guerra contra ataques indiscriminados.
Em uma declaração divulgada há poucos dias, a HRW disse que um de seus investigadores da fronteira desse território palestino observou o repetido uso de projeteis israelenses de 155 milímetros, que ao explodir provocam uma fragmentação capaz de causar danos a até 300 metros de distância. Disparar esses projéteis “no centro de Gaza, seja qual for o objetivo, provavelmente causará terríveis vítimas civis”,disse Marc Garlasco, analista militar da HRW. Ao usar essas armas nessas circunstâncias, Israel comete ataques indiscriminados violando as leis de guerra, acrescentou.
Consultado sobre a possibilidade de uma mudança de política sob o novo governo dos Estados Unidos, Goldring disse à IPS: “A administração de Barack Obama e seu enviado ao Oriente Médio, George Mitchell, enfrentam uma tarefa difícil”. Mas a diplomacia ajudou a gerar uma situação mais pacífica entre Israel e seus vizinhos, Jordânia e Egito, progresso que antes parecia impossível. “Serão necessárias capacidade e sorte para produzir um resultado semelhante com o Hamas. Mas a opção militar claramente não está funcionando para nenhum das partes”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

