SAÚDE-MALAUI: Chuvas Expõem Saneamento Deficiente

LILONGWE, 04/02/2009 – As autoridades instalaram tendas para tratar as vítimas de cólera em Lilongwe Crédito: Pilirani Semu-Banda O Zimbabué – onde a cólera ceifou mais de 2.700 vidas até agora segundo a Cruz Vermelha – não é o único país da África Austral que enfrenta um aumento da doença enquanto caem as chuvas em toda a região. O Malaui também luta contra um surto de cólera que matou 19 pessoas desde o início da estação chuvosa, um número de mortes anormalmente elevado. Desde então, já se registaram e trataram 485 casos da epidemia. Os registos da Organização Mundial de Saúde referentes à estação chuvosa de 2007/2008 indicam que nem sequer um único caso de cólera foi registado na capital do país, Lilongwe, no ano passado, embora tivessem sido documentadas 20 mortes e 1.022 casos em nove dos 27 distritos do Malaui.

Além do actual surto em Lilongwe, um outro caso de cólera foi tratado na capital comercial do país, Blantyre, há duas semanas, mas tratou-se de um caso importado do Zimbabué, segundo o secretário principal de saúde do Malaui, Chris Kang'ombe.

“O Hospital Central Rainha Isabel em Blantyre tratou um camionista zimbabueano que tinha cólera. Recuperou e entretanto regressou ao Zimbabué,” disse Kang'ombe.

Existe muito comércio e movimentação transfronteiriços entre o Malaui e o país vizinho do Zimbabué. As autoridades de saúde do Malaui têm estado atentas a essa situação e estão a intensificar a educação cívica sobre a cólera a fim de garantir que a grave situação daquela doença no Zimbabué não se propague ao seu país, segundo Kang'ombe.

Mas a cólera não se propaga primariamente de pessoa para pessoa directamente. Os peritos de saúde do país atribuíram o problema à falta de água potável, juntamente ao saneamemnto deficiente e à higiene inadequada.

O surto de cólera atingiu com maior violência Lilongwe, e as comunidades circundantes. Kang'ombe disse que todas as pessoas que faleceram residiam naquela cidade com maior crescimento do Malaui, que tem um elevado número de pessoas a viverem em bairros de lata com pouco acesso a água potável. A cólera é transmitida através de água ou alimentos contaminados.

“Deparamo-nos com surtos de cólera quase todas as estações chuvosas, quando as pessoas com nenhum ou pouco acesso a água potável recorrem a água não tratada de charcos,” disse Kang'ombe à IPS.

O clã Banda, que vive na periferia da cidade de Lilongwe, perdeu dois membros da família para esta doença num prazo de duas semanas. Um outro membro da família também foi infectado mas recuperou depois de receber tratamento.

Um membro do clã, Jabu Banda, disse que a tia tinha ficado doente com cólera há duas semanas e dera entrada numa das tendas montadas pelo Ministério da Saúde em Likuni, uma das zonas de elevada densidade de Lilongwe, especialmente para cuidar da vítimas da cólera. “Morreu dois dias depois de ter sido levada para o centro de saúde,” contou Banda.

Acrescentou que a sobrinha também começara a mostrar sinais de cólera uma semana após aquele falecimento na família. “Levámo-la ao centro de saúde mas faleceu um dia depois,” disse Banda.

Banda referiu que à prima, que desempenhava o papel de tutora das duas vítimas, também fora diagnosticada cólera na semana passada.

“Acabaram de lhe dar alta na clínica mas ainda tem de recuperar completamente. Está muito fraca,” Banda disse à IPS.

Para gerir o surto de cólera, o Ministério de Saúde do Malaui montou tendas especiais perto de hospitais locais e dentro das zonas que foram altamente afectadas pela doença.

“A ideia é evitar misturar os pacientes com cólera com os outros pacientes que dão entrada nos hospitais por doenças menos contagiosas,” referiu Kang'ombe.

Acrescentou que o surto teria sido contido rapidamente se as pessoas prestassem mais atenção à higiene. Segundo Kang'ombe, muitas pessoas nos bairros de lata e zonas circundantes comem alimentos como fruta sem os lavar. As frutas como mangas, bananas e ananases são abundantes durante a estação chuvosa no Malaui.

“Estamos a fornecer cloro aos agregados familiares para que consigam tratar a água. Também estamos a impedir que as comunidades preparem comida em ajuntamentos como funerais e que evitem comprar géneros alimentícios da rua para evitar a contaminação,” referiu

O MInistério da Saúde também avisou as pessoas que tratam os corpos das pessoas que morreram com cólera que tenham um cuidado redobrado. Do ponto de vista cultural, a maioria das comunidades no Malaui dá um banho aos mortos antes do respectivo funeral.

Entretanto, há receios de surtos de cólera noutras partes do Malaui – as autoridades de saúde estão vigilantes nas zonas do país propensas a cheias, que incluem os distritos de Chikwawa e Nsanje no sul, as zonas mais baixas do Malaui, que sofrem cheias todos os anos e onde as epidemias de cólera são mais comuns durante a estação chuvosa.

As cheias já afectaram 2.100 agregados familiares em 21 aldeias no distrito de Nsanje e outras 1.573 famílias no distrito de Chikwawa desde o início do Ano Novo, segundo estatísticas governamentais dos gabinetes dos comissários distritais.

Um grupo de trabalho composto pelo Ministério de Saúde, Fundo das Nações Unidas para a Infância – (UNICEF), Organização Mundial de Saúde (OMS) e Departmento para o Desenvolvimento Internacional do Reino Unido (DFID) está a trabalhar actualmente no sentido de promover a educação cívica sobre a higiene e a clorinação das fontes de água no país para controlar surtos adiiconais de cólera.

A estação chuvosa do Malaui estende-se de Novembro a Maio, tendo o país mais cinco meses para lutar contra a cólera.

Pilirani Semu-Banda

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