SOMÁLIA: Contar o custo depois da retirada da Etiópia

MOGADÍSCIO, 10/02/2009 – Refugiados somalis no Quénia – perto de 1 milhão de pessoas ficarami deslocadas devido à luta entre Islamistas e forças etíopes. Crédito: Manoocher Deghati/IPS O ataque suicida com carro-bomba que atingiu Mogasdíscio no passado dia 24 de Janeiro, matando pelo menos vinte pessoas e ferindo quase cinquenta pessoas, é um comentário explosivo sobre o insucesso da intervenção militar etíope na Somália há dois anos para expulsar as forças islamitas que acredita representarem “um perigo claro e presente” para a Etiópia. Os últimos soldados etíopes deixaram Mogadíscio como parte de um acordo entre o governo da Somália e uma importante facção da oposição, a Aliança para a Nova Llibertação da Somália, sediada em Djibouti (ARS-D), facção dominada pelo movimento islamita conhecido por União dos Tribunais Islâmicos (UIC).

O movimento controlou as regiões do centro e sul da Somália durante a segunda metade de 2006, áreas onde se lhe atribuía o facto de ter estabelecido uma ilusão de ordem pública. Hoje em dia, as pessoas sentem nostalgia dos “Seis Meses de Paz” durante os quais a violência cessou e a vida dos somalis normais regressou a algo perto do normal depois de 15 anos de conflito.

Em resposta à pressão exercida no sentido de seguirem a posição da UIC e imporem a lei islâmica, os dirigentes das regiões autónomas da Puntlândia e da Somalilândia anunciaram planos para implementarem a shari'a por um lado, e para prenderem islamitas suspeitos do outro.

O sucesso da UIC indicou um assinalável contraste com as dificuldades encontradas pelo Governo Federal de Transição da Somália, aprovado pela comunidade internacional. O TFG foi formado em 2004 em consequência de negociações de paz realizadas em Nairóbi e patrocinadas pela Autoridade Inter-Governamental para o Desenvolvimento, uma entidade regional.

Mas durante os primeiros dois anos da sua existência – durante os quais o TFG se debateu constantemente com lutas políticas intestinais e alegações persistentes de corrupção – foi incapaz de se impor naquele país devastado pela guerra e ficou confinado à cidade de Baidoa, no sul.

A crescente força de um governo islamista era preocupante para pelo menos um dos vizinhos da Somália: a Etiópia acusou os islamitas de ameaçarem a sua segurança nacional ao colaborarem com o seu rival regional, a Eritreia, e com grupos rebeldes etíopes com vista a desestabilizarem o país.

“Enviámos as nossas forças militares para a Somália há dois anos porque existia um perigo claro e presente contra a Etiópia,” disse à IPS Wahde Belay, porta-voz do Ministério dos Negócios Estangeiros etíope em Adis Abada. “A União dos Tribunais Islâmicos tinha decretado uma jihad contra nós. Por isso é que decidimos combater a UIC”.

As forças e tanques etíopes atravessaram a fronteira com a Somália no final de Dezembro de 2006, tendo derrubado os islamitas com facilidade em menos de duas semanas. Mas as forças etíopes passaram os dois anos seguintes a lutar contra uma sublevação islamita-nacionalista mortífera, tendo agora retirado sob fogo dos mesmos islamitas que vieram aniquilar.

“O facto de as forças etíopes terem conseguido derrotar os islamitas facilmente não garantiu uma vitória duradoura, visto que os combatentes logo se reorganizaram e começaram a defender-se. Agora que os etíopes se retiram da Somália, a maior parte das regiões do sul e do centro estão novamente sob o controlo dos islamitas,” disse à IPS Yusuf Maalin, analista político independente.

Avaliar a presença da Etiópia

Nos últimos dois anos, perto de 10.000 civis morreram. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados calcula que mais de um milhão de pessoas, principalmente de Mogadíscio, fugiram de casa para escapar à violência quase diária entre os combatentes rebeldes e os soldados etíopes que apoiam as forças governamentais somalis.

Diversas organizações locais e internacionais de direitos humanos acusaram os soldados etíopes de cometerem atrocidades contra os civis locais e de bombardeamento indiscriminado de zonas residenciais urbanizadas. Também acusaram os rebeldes islamitas de usarem civis como escudos humanos ao dispararem de zonas povoadas.

Abdelfatah Shaweye, vice-presidente da câmara de Mogadíscio, afirma que, apesar das críticas acerca da presença da Etiópia no país, a intervenção foi instrumental em criar o governo internacionalmente reconhecido na capital e na maior parte do país nos primeiros meses após a invasão.

“Apesar daquilo que os grupos de direitos humanos dizem acerca dos soldados do país amigável, eles ajudaram-nos imenso e sacrificaram-se para impor a ordem no nosso país,” Shaweye disse à IPS.

No entanto, Sheik Abdirahim Isse Adow, porta-voz da ala armada da UIC, disse que a Etiópia não tinha alcançado o seu objectivo, derrotar os islamitas, que afirma estarem agora “tão fortes como sempre” e controlarem o mesmo território que controlavam na altura em que os forças etíopes invadiram a Somália.

“O que as forças (etíopes) trouxeram é mais miséria para as pessoas deste país e mais derramamento de sangue. Não se conseguiram impor ou reter o nosso país.” Adow apontou à IPS.

A Etiópia retirou agora completamente as suas forças da Somália, dizendo que a ameaça constituída pelos islamitas tinha desaparecido.

“Se a Etiópia acreditar que existe um perigo claro e presente, não há motivo algum para que não possamos tomar uma medida idêntica no futuro,” disse Wahde Belay.

No entanto, Maalin afirmou que a Etiópia teria de pensar muito bem antes de tornar a entrar na Somália visto que “o aventureirismo e oportunismo” da primeira invasão tinha tido elevados custos para a Etiópia em termos de vidas e da sua reputação a nível de direitos humanos.

“Os islamitas prejudicaram a Etiópia de forma mais profunda do que foram prejudicados, visto que, como o observador acidental pode verificar, a Etiópia deixa os islamitas numa posição muito mais forte do que antes da invasão há dois anos. E aquilo que aconteceu durante a sua presença no país destruíu muito mais do que aquilo que a Etiópia ganhou,” disse Maalin.

O que é que acontece agora?

A UIC e um grupo dissidente, a facção de linha dura conhecida como al-Shabaab – referida como organização terrorista com ligações à Al-Qaida pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos – controlam novamente a maioria da região do centro e sul da Somália, enquanto o governo de transição somali controla pequenas áreas da capital, Mogadíscio, onde perto de 3.400 soldados da paz da União Africana protegem instalações governamentais, incluindo o palácio presidencial, aeroporto e porto.

Os soldados da paz fazem parte de uma força de manutenção da paz com 8.000 efectivos autorizada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas no início de 2007 para substituir as forças etíopes. Mas apenas o Uganda e o Burundi enviaram tropas conforme prometido; os outros países africanos que prometeram contribuir tropas citaram razões de segurança e de logística para não enviar os soldados.

Elementos da UIC assinaram um acordo de paz e de partilha do poder com o TFG em Outubro de 2008. Sheik Sharif Ahmed, líder da facção de Djibouti da Aliança para a Nova Libertação da Somália (ARS-D) e chefe do governo da UIC em 2006, foi eleito presidente do TFG no dia 31 de Janeiro. Mostra-se agora mais conciliador para com a Etiópia, mas enfrenta uma forte oposição das facções rivais do ARS e da al-Shabaab, que continua a opor-se veementemente a qualquer presença estrangeira na Somália.

A Etiópia não deixou o seu “inimigo” desfrutar o poder recentemente reconquistado na Somália sem diversos desmancha-prazeres. Uma nova e bem armada facção, a Ahlu Sunnah, apareceu do nada para confrontar a al-Shabaab nos dias que levaram à declaração, por parte da Etiópia, da decisão de retirar as suas tropas da Somália.

A al-Shabaab assevera que a nova facção foi criada, armada e apoiada pela Etiópia para fazer uma guerra por procuração contra as forças islamitas. Numa conferência de imprensa a 26 de Janeiro, o Primeiro Ministro etíope, Meles Zenawi, declarou que a Etiópia não estava “desapontada” ou “insatisfeita” com o facto de a al-Shabaab estar agora a enfrentar uma oposição armada dentro da Somália.

“Não vos posso dizer que estamos insatisfeitos com o facto de (aquela facção) querer lutar. Não vos posso dizer que não apoiaremos tais diligências,” disse Zenawi aos jornalistas.

Apesar de chefiar agora um governo somali aprovado internacionalmente, provavelmente Sharif irá constatar que liderar o país vai ser muito mais difícil do que da primeira vez.

(Michael Chebud, em Adis Abeba, contribuíu para este relatório.)

Abdurrahman Warsameh

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