DESTAQUES: Mal de Chagas avança na Argentina

BUENOS AIRES,, 03/02/2009 – (Tierramérica).- Fontes não-governamentais da Argentina estimam que a Doença de Chagas está recrudescendo neste país.

Casa de adobe em Jujuy, Argentina. - Photo Stock

Casa de adobe em Jujuy, Argentina. - Photo Stock

Após dois anos de vigência do programa governamental “Argentina justa, Argentina sem Chagas”, retrocede o combate a essa enfermidade, principal endemia nacional, afirmam especialistas. Esta doença transmitida pelo protozoário Trypanosoma cruzi não tem cura se não for adotado um tratamento antiparasitário em seus primeiros estágios. A via de transmissão de 95% dos casos neste país é a picada de uma espécie de barbeiro (Triatoma infestans), um inseto hematófago que faz ninho em gretas e espaços livres de construções de adobe, cana, palha e tronco, materiais das humildes casas rurais. Outras vias de transmissão são as transfusões de sangue, os transplantes de órgãos e pela placenta.

Em 1911, foi comprovada na Argentina a presença desse mal que leva o nome de seu descobridor, o brasileiro Carlos Chagas. O país contou com um dos principais pesquisadores no assunto, o médico Salvador Mazza, que ao longo de duas décadas, desde 1926, abordou a enfermidade em seus aspectos patológicos, clínicos, epidemiológicos e sociais. Esta doença é de evolução lenta, já que o parasita pode fazer ninho nos tecidos do corpo humano, principalmente no coração, o que acaba causando a morte em pelo menos 30% dos casos. Os sintomas da infecção inicial, estudados por Mazza, incluem febre, vômito, dispnéia e crise convulsiva.

Em outubro de 2006, o governo de Nestor Kirchner (2003-2007) considerou que havia um “recrudescimento do problema” pela “dispersão das atividades e debilidade da estrutura funcional” para o combate da doença. Neste contexto, o Ministério da Saúde lançou o Programa Federal de Chagas, que fixou com objetivo “interromper a transmissão e minimizar o impacto de suas consequências nas pessoas afetadas”. Em seu site, o Programa diz que, “pelos numerosos fatores envolvidos, aos quais se somam aqueles de poder político e econômico, esta enfermidade passa a ser não apenas uma tradicional doença da pobreza, mas um modelo dos mecanismos de ocultamento e exclusão como forma de discriminação social e trabalhista”.

Sonia Tarragona, diretora-geral da Fundação Mundo Sano, especializada em Chagas, disse ao Terramérica que as medidas tomadas pelo governo “são boas, mas ainda não há nenhuma mudança significativa” e a informação estatística é deficiente. Tarragona disse que esta patologia “está contemplada dentro das chamadas enfermidades desatendidas”. A vinculação entre o Mal de Chagas e a pobreza faz com que “não haja nenhum interesse em desenvolver vacinas nem remédios por parte da indústria farmacêutica. A quem vão vender a vacina se não há quem possa comprar?”, perguntou.

O Mal de Chagas está presente desde o sul dos Estados Unidos até a metade norte da Argentina e do Chile, com cerca de 15 milhões de casos. Na Argentina, o Ministério da Saúde calcula que existam 2,5 milhões de infectados, mas que apenas 25% deles desenvolvem a doença. Esta é registrada em 19 das 23 províncias. Delas, sete estão em situação crítica, com barbeiros em mais de 5% dos domicílios. Entre estas últimas estão Formosa, Chaco e Santiago del Estero, no norte, algumas das mais pobres. De Chaco, Rolando Rivas, titular da Fundação Nelson Mandela, com sede em Resistencia, a capital provincial, disse ao Terramérica que ali “falta um levantamento serológico, especialmente entre a população indígena e crioula”. A doença “faz parte da estatística negra da saúde, não há vontade de mudar as coisas”, denunciou.

Rivas deu como exemplo, com base em dados oficiais, que, entre 2001 e 2003, durante a feroz crise econômica e social vivida pela Argentina, “não se fumigou um único rancho em todo Chaco, apesar de o governo nacional ter enviado os inseticidas”. Entre “2000 e 2006 foram entregues medicamentos a apenas 167 pacientes, quando Chaco deve ter cerca de 60 mil doentes”, acrescentou. Devido a uma mudança de administração no governo provincial, Rivas registrou que “no segundo semestre de 2008, após muitas contra-marchas, houve melhor trabalho de fumigação na floresta El Impenetrable – que inclui parte do Chaco, Santiago del Estero e Salta – com a chegada de brigadas do Ministério nacional”. Porém, alertou que “são necessárias casas antibarbeiro, com pisos e paredes bem acabados, e não parar de fumigar”.

Tarragona apontou como principal deficiência do combate ao Mal de Chagas na Argentina a disparidade da execução de políticas preventivas entre as diferentes províncias, que atuam coordenadas pelo governo nacional, e a falta de continuidade das tarefas de roçado das casas em risco, única ferramenta preventiva. Um dos problemas enfrentados pelos epidemiologistas é que uma alta porcentagem da população afetada não está consciente da doença, porque esta pode não apresentar sintomas durante anos. Além disso, como os doentes costumam morar na área rural e ter baixo nível educacional e escasso ou nulo contato com serviços sanitários, permitem, sem querer, que o barbeiro faça ninhos e assim a transmissão da doença, e convivem com animais do mais diverso tipo, também sujeitos a contágio.

Na região, Brasil e Uruguai conseguiram interromper a transmissão por picada de barbeiro, ao contrário da Argentina, onde há um ressurgimento em províncias que haviam conseguido deter a doença, segundo dados não oficiais. Bolívia e Paraguai apresentam a mesma tendência que a Argentina.

* O autor é correspondente da IPS.

Sebastián Lacunza

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