TIBET: China pisa forte 50 anos depois

Pequim, 03/02/2009 – A China se prepara para o 50º aniversario do levante tibetano com uma dura campanha de propaganda sobre ao males da opressão feudal que vivia esse território do Himalaia antes de 1949. Há cinco décadas o líder espiritual do Tibet, o Dalai Lama, fugiu para o exílio. A maciça campanha chinesa de segurança em áreas tibetanas iniciada no começo de janeiro incentivou o governo do Tibet no exílio, radicado na localidade indiana de Dharamsala, a apelar à ajuda da comunidade internacional.

A campanha de alto impacto e a intensificação de outras “políticas de linha dura da China) causarão muito mais violações dos direitos e das liberdades fundamentais do povo tibetano”, disse Kesang Yangkyi Takla, ministro das Relações Exteriores do Tibet, segundo um comunicado divulgado no último dia 29 no site do governo no exílio. Takla apelou parlamentos, governos e indivíduos de todo o mundo para que intervenham “ativamente” para impedir uma ofensiva semelhante à que em março do ano passado reprimiu os protestos anti-chineses no Tibet.

Informes divulgados na mídia estatal chinesa indicam que 81 pessoas – acusadas de atividades criminosas – foram detidas até agora na ofensiva que começou dia 18 de janeiro. Mas o governo do Tibet no exílio disse que a campanha foi lançada para impedir protestos políticos em um ano carregado de aniversários tensos. No começo de janeiro, o parlamento regional do Tibet, apoiado por Pequim, estabeleceu o dia 28 de março como novo feriado anual para comemorar o “dia de emancipação dos servos”. Nessa data, há 50 anos, um milhão de pessoas foram libertadas da servidão na região do Himalaia, afirma a China.

Desde a proclamação do feriado, os papas da propaganda chinesa lançaram um enorme esforço de mídia para retratar o que chamam de “Tibet pré-libertação” como um feudo medieval de sofrimento e tortura, onde uns poucos senhores e lamas eram donos de todos os bens, incluídos os servos que trabalhavam para eles e viviam endividados por toda a vida. O novo feriado busca “recordar a todos os habitantes chineses, incluídos os tibetanos, a histórica reforma democrática iniciada há 50 anos”, disse o subsecretário-geral do parlamento regional do Tibet, Pang Boyong, após a aprovação da legislação, segundo a agência estatal de notícias Xinhua.

Acompanhados de fotos de arquivo de crianças e servos esquálidos aos quais seus amos deixaram cegos, os principais meios de comunicação impressa divulgara artigos dedicados ao novo dia de emancipação. O Beijing Youth Daily se referiu à data com um dia que marcou “a libertação de escravos e a vitória do povo”. O Southern Weekend e o China Daily publicaram artigos sobre pessoas que escaparam da escravidão que, segundo eles, tinha com as cores mais sombrias a vida sob o regime do Dalai Lama nessa região teocrática do Himalaia.

“Muitos estrangeiros costumam comparar o Tibet do passado com o paraíso utópico de Shangri-La criado pelo escritor britânico James Hilton em sua novela “Horizonte Perdido”, escreve o especialista em Tibet Wang Xialolin em um comentário publicado no Beijing Youth Daily. “Poucos deles podem sequer imaginar que até 50 anos atrás o Tibet era como um país da Europa medieval, onde 95% da população vivia sob a opressão feudal”, acrescentou.

A China sempre afirmou que o Tibet é parte integral de seu território soberano. Também insiste em dizer que a marcha do Exército de Libertação Popular sobre a região nos anos 1950 e 1951 fez com que o povo tibetano se libertasse do regime feudal do Dalai Lama. Em 29 de março de 1959, o governante Partido Comunista da China anunciou a dissolução do governo existente no Tibet. Poucos dias antes, o Dali Lama e cerca de 10 mil seguidores foram forçados a fugir para a Índia após o sufocamento de um maciço levante tibetano.

No ano passado, o 49º aniversario desse levante de 10 de março gerou protestos de monges e civis em Lhasa e outras regiões. Temerosos de que o aniversario mais importante deste ano possa criar novos distúrbios, Pequim se dedica com energia a divulgar seu ponto de vista sobre os fatos de 1959. Mas a medida foi considerada por grupos de tibetanos exilados como um esforço para reescrever a historia e evitar abordar os problemas que a região enfrenta.

“É melhor aceitarmos a realidade de que existe um problema dentro do Tibet, e isso ficou claramente demonstrado pelas manifestações ocorridas em março de 2008”, disse o secretário-adjunto do escritório do Dalai Lama, Tenzin Takhla. “Assim, penso que os chineses, em lugar de tentar esconder esse fato criando este novo feriado, deveriam abordar a questão de maneira realista e séria”, acrescentou. Na última tentativa de promover suas próprias crenças sobre o Tibet, Pequim apresentou a controvertida figura do décimo Panchen Lama como exemplo para os tibetanos em busca da unidade étnica.

Assinalando o 20° aniversário da morte do monge – a segunda personalidade mais importante na hierarquia budista tibetana – funcionários do Partido Comunista o ungiram como inimigo do separatismo e exemplo patriótico para todos os tibetanos. “Sempre esteve na primeira linha da luta contra o separatismo e protegeu decididamente a unidade étnica”, disse du Qinglin, alto funcionário comunista encarregado de grupos religiosos e étnicos, em um artigo publicado na semana passada no People’s Daily em comemoração ao aniversario de 28 de janeiro.

Embora o Panchen Lama inicialmente tenha apoiado o Partido Comunista em seus esforços por dominar o Tibet, também esteve entre os poucos contemporâneos do presidente Mao Zedong (1949-1976) que se atreveram a criticar e se opor às suas políticas nos anos 50 d 60. O Panchen Lama se opôs à independência tibetana acreditando que os novos governantes comunistas criariam um Tibet mais justo e próspero. Mas, as cenas de profanação religiosa, matanças de monges e fome que viu no final da década de 50 durante suas viagens ao Tibet, abalaram sua fé.

Contradizendo o conselho de seus assessores, que temiam por sua segurança, Panchen Lama elaborou um documento de 70 mil palavras em que denunciou as políticas de Mao de coletivização de terras e destruição da religião no Tibet. O texto afirma que os tibetanos estavam em uma situação de inanição passiva, que o budismo estava sendo aniquilado e que a nacionalidade tibetana ou deixaria de existir ou seria completamente assimilada.

Após apresentar o pedido aos líderes chineses em meados de 1062, Panchen Lama foi criticado e denunciado como traidor e passou cerca de 10 anos em confinamento solitário ou sob prisão domiciliar. Foi libertado em 1977, após a morte de Mão, e reabilitado um ano depois. Como o texto com as denúncias do Panchen Lama nunca foi publicado na China continental, foi fácil para Pequim ocultar a verdadeira luta de lealdades do monge. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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