Roma, 20/02/2009 – O nigeriano Kanayo F. Nwanze foi eleito ontem presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida). Seu mandato se desenvolverá em tempos de crescente incidência das mulheres camponesas. Representantes de 165 países presentes na reunião desta agência da Organização das Nações Unidas em Roma elegeram Nwanze à frente de outros candidatos de Israel, Paquistão, Alemanha, Níger e Índia. Os problemas das mulheres agricultoras estão, junto com os preços e a mudança climática, entre as prioridades do Fida.
A força de trabalho feminina agrícola aumentou um terço na década passada, segundo a agência. Não se sabe quantas camponesas há no mundo, mas sabe-se que 30% das pequenas fazendas da África, por exemplo, são dirigidas por mulheres. Com frequência, o trabalho das agricultoras não é reconhecido. “Nos países em desenvolvimento as mulheres fazem a maior parte do trabalho nas fazendas, mas seu papel permanece invisível, sem reconhecimento e sem registro de estatísticas”, disse Annina Lubbock, da Divisão de Assessoramento Técnico sobre Gênero, do Fida. “Na África, por exemplo, as agricultoras produzem entre 60% e 80% de todos os alimentos”, calculou.
As mulheres sofrem as restrições que afetam todos os pequenos produtores: dificuldades no acesso ao credito e aos serviços, falta de dinheiro para insumos, infra-estrutura deficiente e mercados pobres, explicou Lubbock. Porém – acrescentou – também enfrentam outras restrições específicas de gênero. “Elas têm uma enorme carga de trabalho porque combinam a tarefa produtiva com a doméstica e com o cuidado com a família. Não têm acesso aos títulos de propriedade nem a serviços”, como informação sobre preços, novas variedades de sementes ou novas tecnologias, disse Lubbock. A escassa representação feminina nas organizações camponesas cala a voz das mulheres, acrescentou, afirmando que “são ouvidas nas bases, nas não nos níveis mais altos”.
Alguns grupos, como a Associação de Fazendeiros Asiáticos para o Desenvolvimento Rural Sustentável, com sede nas Filipinas, procuram mudar essa situação. “Nossos membros nos dão ação afirmativa”, disse a secretária-geral da entidade, Estrella Penunia. “Isto se traduz em pelo menos 30% dos lugares na junta de capacitação e nas estruturas de governo institucional”, disse. Da associação participam nove organizações agrícolas de oitos países asiáticos, que representam cerca de 10 milhões de camponeses. Nas Filipinas e na Coréia do Sul atuam organizações independentes femininas que trabalham em paralelo com outras entidades de agricultores, afirmou Penunia.
“Trabalham muito para que o governo atenda as demandas por credito, capital e acesso aos recursos, atuando lado a lado com dirigentes rurais masculinos para pressionar os funcionários”, explicou a dirigente. Cinco por cento dos orçamentos nacional e locais das Filipinas devem ser reservados para questões de desenvolvimento relacionadas com o gênero. “Mas, é algo pelo qual devemos lutar”, disse Penunia à IPS. “Se ficássemos de braços cruzados o dinheiro pagaria despesas de clubes noturnos e festas ou qualquer coisa em nome do gênero e do desenvolvimento. Por isso as mulheres estão ali para falar ao governo, pedir dinheiro para a agricultura, para capacitação. Nos organizamos para pressionar, dialogar e negociar”, ressaltou.
Nas Filipinas as mulheres também lutam pelo direito à terra. “Quando o governo dá títulos de propriedade, apenas há nomes de homens nos papeis. As organizações de camponesas reclamaram que constasse o nome dos dois membros do casal, e tiveram êxito”, recordou a ativista. Por outro lado, na Índia “o sistema descentralizado de governo fortalece as autoridades locais, que agora podem decidir sobre os recursos”, disse à IPS a finlandesa Eija Pehu, do Departamento de Desenvolvimento Agrícola e Rural do Banco Mundial. “O sistema de cota permitirá às mulheres participar do processo descentralizado de tomada de decisões”, acrescentou.
Os US$ 200 milhões destinados pelo Banco Mundial para um programa de apoio às pequenas fazendas no Estado indiano de Andhra Pradesh não serviam, no início, para favorecer as camponesas. Mas, “quando as autoridades estaduais perceberam que havia muitos grupos autogestionados dirigidos por mulheres, incentivaram a criação de centros comunitários de compra de grãos, verduras e frutas. Agora, o programa contempla as mulheres”, Pehu. (IPS/Envolverde)

