EUA-ORIENTE MÉDIO: Os desafios de missão Mitchell

Jerusalém, 03/02/2009 – Ao iniciar sua missão, o enviado dos Estados Unidos ao Oriente Médio, George Mitchell, seguiu a recomendação de seu presidente, Barack Obama: “Deveria começar ouvindo, porque, em última instancia, não podemos dizer a israelenses e palestinos o que é melhor para eles”. . Obama fez este comentário na semana passada no canal de televisão Al-Arabiya.

“Ouvir” e, de fato, um elemento central da primeira visita de Mitchell nesta missão. Mas, com os enfrentamentos entre o palestino Movimento de Resistência Islâmica (ramas) e o exército israelense, as conversações iniciais do enviado norte-americano forçosamente se centraram ainda mais na situação imediata de Gaza, e em temores de que possa ser reiniciada a luta total. E, por outro lado, menos em preparar o terreno para um novo compromisso diplomático dos Estados Unidos.

Mitchell falou da “importância crítica” de consolidar o cessar-fogo. Isto ainda não é uma ameaça para sua missão, embora, como todos na região, tenha consciência do risco de ficar envolvido muito cedo em acusações e justificativas, e em perguntas de quem dá o primeiro passo para implementar sua parte em qualquer acordo. Isto é, um “dejà vu” do que desbaratou a missão Mitchell original, desenhada para reviver as tentativas de paz no começo da Intifada (levante popular palestino contra a ocupação israelense).

O mandato de Mitchell para “ouvir” também se deve ao fato de no próximo dia 10 os israelenses realizarem eleições gerais. O novo governo em Washington espera o resultado desta votação. Quando Obama sugeriu que tanto israelenses quanto palestinos teriam de “tomar algumas decisões”, o presidente se referia concretamente ao eleitor israelense. Nos últimos dias houve ações palestinas regulares de violação da tentativa de trégua unilateral, e represálias israelenses limitadas. Apesar disso, após suas reuniões com Mitchell na semana passada, os líderes israelenses ainda afirmam que sua guerra de 22 dias em Gaza percorreu um grande trecho para o restabelecimento da capacidade de dissuasão de seu país, o que consideram um componente essencial de sua segurança nacional.

Muitos líderes mundiais apoiaram este argumento. As autoridades de Israel alegaram que estavam se defendendo de ataques com foguetes lançados pelo Hamas desde a Faixa de Gaza contra localidades israelenses. No entanto, a opinião pública internacional se horrorizou com a escala da campanha militar. Dentro de Israel, a opinião pública não parece convencida de que o Estado tenha reafirmado sua capacidade de dissuasão. Muitos eleitores acreditam que isto somente teria sido conseguido “aniquilando” o poder do Hamas.

Esta percepção é destacada por um alto comandante militar, ao afirmar que Israel “perdeu uma oportunidade histórica de derrotar o Hamas”, ao decidir não ampliar a ofensiva. “Estivemos perto de vencer” a organização islâmica, disse ao jornal Haaretz o brigadeiro-general Zvi Fogel, que foi comandante de artilharia na campanha de Gaza. Fogel acrescentou que era essencial uma resposta ao assassinato, na última terça-feira, de um soldado israelense, e que o exército perderia o fator dissuasivo que havia obtido na campanha se não reagir às provocações do Hamas.

Tais avaliações percorrem certo caminho na hora de explicar porque, menos de duas semanas antes das eleições, os maiores vencedores políticos parecem ser os que não estiveram envolvidos na condução da guerra. Isto é, a oposição de direita. Esta se alinhou, precisamente, com a posição de que “a guerra foi interrompida muito cedo”. As últimas pesquisas de opinião virtualmente coram Benjamin Netanyahu, líder do direitista partido Likud, como próximo primeiro-ministro. Netanyahu já ocupou esse cargo entre 1996 e 1999. “Encerram-se as apostas. Esta campanha eleitoral acabou”, disse o popular apresentador de TV Nissim Mishal na noite de quarta-feira.

De fato, os especialistas em política enfatizam que o próprio Netanyahu já começou a tarefa de planejar a coalizão de governo que gostaria que o apoiasse. Nos 60 anos de existência de Israel como Estado, nunca um partido ganhou a maioria absoluta no Knesset (parlamento) de 120 cadeiras. Nos últimos 20 anos, foram feitas coalizões. Mas, na entrevista que Obama concedeu ao canal Al-Arabiya houve uma mensagem mais sutil. “Continuarei acreditando que a segurança de Israel é primordial. Mas, também creio que há israelenses que reconhecem a importância de conseguir a paz. Estarão dispostos a fazer sacrifícios se o momento for adequado e se houver um sócio serio do outro lado”, afirmou.

Assim, não é imprevisível que o que Mitchell ouviu Netanyahu dizer possa ser de grande interesse para Obama. Que tipo de coalizão quer formar que vencer? Vislumbra que a coalizão liderada pelo Likud incluirá o centro-direitista Kadima e o centro-esquerdista Partido Trabalhista, ou optará por uma coalizão dura e direitista na qual o Likud será a ala de esquerda. (IPS/Envolverde)

Jerrold Kessel

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