Cairo, 06/02/2009 – Israel se proclamou vencedor de seu ataque contra o território palestino de Gaza, mas muitos analistas entendem que esse país não conseguiu seus objetivos. A brutalidade da agressão só fez reavivar e validar a noção de resistência armada entre os árabes. “A tenacidade da resistência em Gaza frente ao poder militar israelense ressuscitou a idéia de resistência armada”, disse à IPS Gamal Fahmi, especialista político e editor responsável do semanário de oposição Al-Arabi Al-Nassiri. Israel golpeou objetivos em Gaza por terra, mar e ar durante 21 dias a partir de 27 de dezembro, em uma ostensiva represália pelos foguetes lançados por facções da resistência palestina, liderada pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamás).
Em suas últimas duas semanas a ofensiva israelense sem precedentes encontrou uma férrea resistência dentro e em torno de numerosos centros povoados. A operação quase chega ao seu fim, embora isto seja incerto, após o anúncio de Israel de um cessar-fogo unilateral no dia 17 de janeiro. No dia seguinte, a resistência palestina também informou uma trégua temporária, não sem antes lançar vários foguetes contra território israelense. Nas semanas seguintes, Israel retirou gradualmente suas forças terrestres da Faixa de Gaza com saldo de mais de 1.300 palestinos mortos, em sua maioria mulheres e crianças, além de vários milhares de feridos.
Altos oficiais israelenses se apressaram em anunciar o triunfo de sua operação militar. Mas alguns analistas egípcios consideram que, apesar do grande número de vítimas civis e danos à infra-estrutura, o conflito foi uma vitória estratégica para a resistência Palestina. “A vitória em uma guerra não está determinada pela quantidade de vítimas, mas pelo êxito dos objetivos traçados previamente”, afirmou Abdelhalim Kandil, especialista político e editor responsável pelo semanário independente Sout Al_umma em uma coluna publicada no dia 26 de janeiro.
“E Israel não conseguiu cumprir as metas que previa obter nas três semanas de castigo a Gaza”, ressaltou. O cessar-fogo unilateral de Israel, pelo qual nada recebem em troca da resistência encabeçada pelo Hamás, não tem precedentes na história guerreira israelense, explicou Kandil. “A resistência proclamou seu próprio cessar-fogo um dia depois, mas não sem antes demonstrar que sua capacidade para lançar foguetes contra Israel permanece intacta”, acrescentou este especialista.
Gamal Mazloum, ex-general do exército egípcio, disse que os objetivos da guerra declarados por Israel mudaram mais de uma vez durante a campanha militar. “No transcurso da ofensiva, militares israelenses passaram da afirmação de que o objetivo da operação era ‘remover’ o Hamás para ‘distorcer’ sua capacidade de lançar projeteis, até ‘dar uma lição’ no movimento islâmico”, disse Mazloum à IPS. “Porém, a inesperada tenacidade da resistência os obrigou a concluir a agressão sem conseguir nenhum desses objetivos. Agora, Israel diz que seu propósito principal era “acabar com o contrabando de armas para Gaza”, acrescentou.
Para dirigentes do Hamás, o verdadeiro objetivo de Israel esteve claro desde o começo. “A razão da agressão israelense é tirar o Hamás do governo na Faixa de Gaza”, afirmou seu líder, Musa Abu Marzook, no dia 13 de janeiro. “Essa é sua intenção desde que o movimento islâmico venceu as eleições”. Não é a primeira vez que tenta derrubá-lo pela força. Pouco depois da surpreendente vitória do Hamás nas eleições legislativas de janeiro de 2006, os Estados Unidos armaram e treinaram de forma encoberta elementos do partido secular Fatah, rival do Hamás, com a intenção de eliminar este movimento de uma só vez.
Desde a Cisjordânia, o Fatah controla a Autoridade Nacional Palestina (ANP), presidida por Mahmoud Abbas com apoio do Ocidente. O plano, coordenado pelo general norte-americano Kieth Dayton e pelo homem forte do Fatah, Mohamed Dahlan, ficou conhecido como Plano Dayton. Após inteirar-se da conspiração em meados de junho de 2007, o Hamás expulsou de forma preventiva seus adversários do Fatah e tomou o controle de Gaza pela força, no qual se mantém até hoje. Isso motivou o embargo contra esse território palestino a partir de janeiro de 2008, que jogou em uma grave crise humanitária seus 1,5 milhão de habitantes.
Dirigentes do Hamás afirmam que a Operação Chumbo Derretido foi simplesmente outra tentativa de Israel em acabar o trabalho que o Fatah, com seu apoio e o dos Estados Unidos, não conseguiu realizar em 2007. “Tentaram fazer o Fatah enfrentar e combater o Hamás, mas os derrotamos na Faixa de Gaza”, disse Marzook em referência ao Plano Dayton. “Por isso Israel teve de se encarregar por si mesmo do assunto”. Numerosos analistas coincidem em dizer que as duas operações tinham o mesmo objetivo: destruir o movimento islâmico. “Tanto o Plano Dayton quanto o último ataque israelense pretenderam, e fracassaram, em tirar o Hamás de Gaza”, afirmou Mazloum.
O Plano Dayton é significativo na cronologia do conflito palestino-israelense, mas, raramente é mencionado nas coberturas jornalísticas dos grandes meios de comunicação. “O assunto Dayton é amplamente ignorado, além de vários fatos vinculados à Palestina sempre serem objeto de enganos e desinformações na imprensa ocidental”, disse Fahmi. “Além disso, raramente é mencionado que o Hamás venceu as eleições legislativas de 2006 de forma democrática e nem há referência à grande corrupção na ANP”, acrescentou.
Além de Israel não ter conseguido seus objetivos, alguns analistas dizem que as arrepiantes imagens da guerra divulgadas em todo o mundo foram um desastre para o Estado judeu em matéria de relações públicas. “A guerra revelou a criminosa forma de atuar de Israel para todo o mundo”, disse Fahmi. “Também serviu para reavivar a causa palestina na consciência da comunidade internacional”, disse Mazlou, referindo-se às manifestações de solidariedade a Gaza em todo o mundo. O Estado Judeu “já se viu afetado pelas consequências desta crise política, econômica e social”.
Mazloum atribuiu o inusitado cessar-fogo unilateral declarado por Israel ao crescente mal-estar em todo o mundo por seu ataque contra a população de Gaza, em sua maioria civis indefesos. “Houve uma explosão de raiva popular no mundo árabe sem precedentes que colocou os governos sob uma tremenda pressão e pode causar uma grave escalada regional. A flagrante carnificina também levou a comunidade internacional a pressionar Israel para por fim aos seus ataques”, acrescentou o ex-militar. O Hamás já estava colhendo os frutos do que resultou ser uma vitória política, tanto no âmbito local quanto no regional.
“Em Gaza como na Cisjordânia, controlada pelo Fatah, as pessoas se aliaram em torno do Hamás, enquanto defensor da causa palestina”, explicou Mazloum. “No âmbito regional, o movimento de resistência islâmica provou que pode permanecer no poder e mostrou que não se pode simplesmente eliminá-lo da equação. O Egito, por sua vez, não terá outra opção a não ser lidar com o Hamás enquanto ator político”, acrescentou. O resultado mais notável, segundo Fahmi, é que ressurgiu o conceito de resistência armada contra Israel, após 30 anos de negociações sem resultado. “A resistência não significa violência irracional desprovida de considerações políticas, como seus detratores pretendem fazer crer. A mudança, no contexto da brutal ocupação, é a única opção lógica”, explicou. (IPS/Envolverde)

