AMBIENTE-ISRAEL: Ecossistema debaixo da ponte

Telavive, 10/03/2009 – Se tudo continuar como está planejado, os passageiros do trem Jerusalém-Telavive não poderão mais ver o belo Monte Yitla. As autoridades pretendem construir uma ponte de 144 metros de comprimento para que um trem de alta velocidade passe sobre o pequeno cânion nas colinas de Jerusalém conhecido como Monte Yitla. Moradores e ambientalistas insistem em afirmar que preferem um túnel para que o habitat seja mantido intacto.

A empresa estatal ferroviária Israel Railways trabalha há seis anos em uma nova linha de alta velocidade entre Jerusalém e Telavive, passando pelo aeroporto Ben Gurion. Algumas das partes ocidentais do trajeto próximas a Telavive e a área central já foram construídas, mas o trecho através das colinas de Jerusalém ainda está no papel. A parte mais polêmica do plano é a construção da ponte. A Autoridade de Natureza e Parques e a Sociedade para a Proteção da Natureza lideram a oposição ao projeto.

“Pela manhã, ou à tarde, venho aqui e rapidamente subo a colina, e meu coração se enche de alegria”, conta Eyal Arad, residente da aldeia Nataf, que fica próxima, enquanto toma um café em uma ladeira do cânion, a poucos metros de onde se pretende construir a ponte. Arad visita o lugar há sete anos, dos 21 que vive em Nataf, e faz o que pode para protegê-lo. Colocou uma grande placa pedindo aos veículos de quatro rodas que mantenham distância. Mas é o trem que não pode parar.

A viagem de Telavive a Jerusalém demora atualmente entre 83 e 97 minutos, metade do tempo de uma viagem de carro nas horas de pouco tráfego. Mas, devido ao crescente movimento na Autopista 1, que liga as duas cidades, cresce o apoio a uma via mais rápida. O trem de alta velocidade cobriria essa distância, de 65 quilômetros, em 28 minutos. A disputa pela chamada Ponte 8 sobre o cânion continua. “O Monte Yitla está situado no coração de uma das áreas mediterrâneas melhor preservadas nas colinas de Jerusalém”, disse Ze’ev Hacohen, guarda-florestal da Autoridade de Natureza e Parques.

“Esta ponte é completamente desnecessária”, afirmou Avraham Shaked, coordenador de programas de conservação no distrito de Jerusalém da Sociedade para a Proteção da Natureza em Israel. “A única forma de um trem ir a Jerusalém é através de um túnel, debaixo da montanha”. O plano da Israel Railways pode afastar as gazelas, os falcões e as hienas da área, e colocar em risco uma variedade já ameaça de flora e fauna. A Autoridade de Natureza e Parques informou que “próximo ao local onde se planeja construir a Ponte 8 fica um cânion que é um dos mais profundos e impressionantes das colinas de Jerusalém, e que funciona como habitat para uma grande variedade de espécies de plantas de montanhas e lar de ninhos para espécies predadoras com falcões e abutres”.

Um comitê independente publicou em outubro um informe reconhecendo a importância ecológica e a vulnerabilidade do cânion, bem como o beneficio da alternativa subterrânea para o trem. Porém, os especialistas afirmaram que não é bom demorar com o projeto e apoiaram o plano, embora com modificações para minimizar o impacto ambiental. Mesmo assim, lideradas por Shaked e Hacohen, as organizações ambientalistas não se rendem. Acusam a companhia de trens de ineficiência e ter deixado que o custo do projeto passasse dos US$ 512 bilhões em 2004 para quase US$ 7 bilhões atualmente, ignorando o meio ambiente. “Isto não teria acontecido na Alemanha, Áustria, Suíça, França ou em qualquer outro lugar. Não seria necessária a luta de ambientalistas”, afirmou Shaked.

O diretor da divisão de coordenação da Israel Railways, Yaron Ravid, disse que se prevê a finalização do projeto dentro de seis ou sete anos. “Se os ambientalista continuarem lutando contra este trem, será demorado e, finalmente, fracassará. Atualmente encontra-se atrasado por causa deles”, afirmou. Este é o mês em que as aves predadoras costumam caçar suas presas sobre as coloridas flores do cânion. Também será o mês em que se tomará uma decisão sobre a ponte, pois se aproxima o prazo para responder às objeções apresentadas ao projeto.

Arad faz o que pode. “Nos finais de semana, quando o tempo está bom, esta região fica inundada de excursionistas. Por isso, peço a todos que conheço que a visitem. Digo a eles que venham rápido, antes que fique arruinada”. E Shaked faz campanha à sua maneira. “Podemos ter trens em todas as partes do país, mas não restará nada do país”, afirmou. IPS/Envolverde

* Este artigo é parte de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (http://www.complusalliance.org).

Ido Liven

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