BERLIM, 10/03/2009 – (Tierramérica). Se tudo correr bem, a Agência Espacial Europeia tentará, pela segunda vez, em novembro, colocar em órbita o Cryosat-2, destinado a revelar os segredos dos gelos polares.
O objetivo do satélite era medir de maneira precisa as mudanças de volume nas massas de gelo polar para comprovar os efeitos do aquecimento global no Ártico e na Antártida. Deveria ter sido colocado em órbita em outubro de 2005. Os dados que colhesse nos três anos e meio seguintes serviriam de base científica para os debates sobre como limitar ou reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa. Porém, o lançamento fracassou por falhas técnicas no lança-foguetes. Apenas em novembro deste ano, a ESA estará em condições de realizar um novo lançamento.
Nos mais de três anos transcorridos, o conhecimento acumulado sobre o derretimento das massas de gelo é considerável. O estudo mais exaustivo sobre a vida no Polo Norte, apresentado em fevereiro pela organização Artic Ocean Diversity, estabeleceu que uma quantidade crescente de crustáceos de águas quentes estende seu habitat para zonas polares, como as norueguesas Ilhas Svalbard, devido ao aquecimento global. Entretanto, a ESA continua acreditando que a missão Cryosat será útil.
“Claro que os conhecimentos sobre o aquecimento e derretimento das massas de gelo avançaram. Mas a tecnologia utilizada pelo Cryosat permitirá as medições mais precisas jamais feitas sobre as alterações no volume das geleiras nos dois polos”, disse ao Terramérica Daniel Steinhage, especialista em geleiras do Instituto Alfred Wegener para a Pesquisa Polar e Marinha, da Alemanha, e conselheiro científico da missão Cryosat.
Entretanto, reconheceu que as observações do Cryosat-2 chegarão muito tarde para serem utilizadas na conferência que a Organização das Nações Unidas realizará de 7 a 18 de dezembro em Copenhague, para se chegar a um acordo climático internacional destinado a substituir o Protocolo de Kyoto, que expira em 2012. “Isso não significa que os conhecimentos que o satélite coletar não sejam úteis ao debate científico sobre o aquecimento global”, disse Steinhage.
A partir de meados de novembro, o satélite estará em órbita do planeta durante 42 meses, a 717 quilômetros de altura, com inclinação incomum, que lhe permitirá alcançar latitudes de até 88 graus nos dois polos. “Por razões geométricas, é muito difícil manter uma órbita ao redor da Terra que alcance latitudes de 88 graus, tanto no norte quanto no sul do planeta”, afirmou Steinhage. Estas latitudes constituem um ângulo cego para praticamente todos os satélites que orbitam a Terra passando pelos polos. “Por isso, as imagens e medições dos polos disponíveis atualmente são incompletas. O Cryosat-2 vai preencher essas lacunas, obtendo dados desconhecidos sobre a geologia dos polos e do gelo”, acrescentou.
O satélite será capaz de realizar medições de grande precisão graças ao seu radar interferométrico que, ao contrário dos tradicionais, dispõe de duas antenas que emitem sinais eletromagnéticos e recebem seus ecos refletidos pela superfície gelada nos polos. As antenas funcionam como olhos humanos, permitindo uma visão tridimensional das massas polares. O radar “pode medir exatamente a energia que for refletida da superfície das camadas de gelo, independente do ângulo que tenham”, disse Steinhage.
Isto permitirá tomar medidas tridimensionais, tanto da espessura das camadas de gelo sobre o nível do mar nos dois polos e suas modificações anuais, como das mais ínfimas mudanças na superfície. O radar interferométrico pode fornecer dados ignorados sobre o padrão dos fluxos marinhos nas margens da massa de gelo, cuja correlação com o derretimento é crucial para determinar as mudanças de longo prazo, explicou ao Terramérica Duncan Wingham, professor de Física do Clima no University College de Londres. Wingham destacou que “o Cryosat utiliza radares que emitem microondas em lugar de simples ondas magnéticas, o que aumenta a exatidão das medições”.
Como o satélite sobrevoará tanto o Polo Norte quanto o Polo Sul, suas medições permitirão verificar ou retificar as observações feitas até hoje sobre o ritmo de derretimento das massas de gelo no Ártico e na Antártida. “Precisamos saber se estas mudanças se compensam mutuamente e quais são os mecanismos de transmissão através dos oceanos”, enfatizou Steinhage.
* O autor é correspondente da IPS.


