DIREITOS HUMANOS-CUBA: Damas de branco voltam à carga

Havana, 19/03/2009 – As chamadas Damas de Branco iniciaram ontem na capital cubana mobilizações que se estenderão por quase uma semana e incluirão caminhadas, com a finalidade de pedir a libertação de seus familiares opositores, presos há seis anos.

 - Patricia Grogg/IPS

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“Somos pessoas pacificas e só queremos que libertem nossos maridos”, afirmou à IPS Bárbara Rojo, uma das mulheres que se reuniram na causa de Laura Pollán, que costuma atuar como porta-voz do grupo, ganhador em 2005 ganhou do prêmio Sakharov de direitos humanos.

No primeiro dos seis dias de mobilização, um para cada ano de prisão de seus parentes, as Damas de Branco programaram assistir uma missa na igreja do Sagrado Coração, localizada em uma movimentada rua da capital de Cuba. Hoje, irão à Catedral, no coração do perímetro histórico da Havana Velha. Como é habitual, elas se deslocam a pé, organizadas em fila, portando palma de Santa Rita (gladíolo) nas mãos e fotografias de seus familiares no peito.

À sua passagem, muitos transeuntes as observam em silencio, mas já enfrentaram gritos e lemas revolucionários por parte de civis que, segundo as Damas de Branco, seguem ordens oficiais. Nesta ocasião, algumas integrantes do grupo que residem em localidades do interior do país não puderam chegara à Havana por ficarem retidas em suas casas pelas chamadas “britadas de resposta rápida”, que atuam também por conta das autoridades, segundo Rojo. Em carta dirigida ao presidente de Cuba, Raúl Castro, as mulheres responsabilizaram as autoridades por eventuais “novas provocações e o pelo que possa ocorrer com nossa integridade física e nossas vidas”.

A nova ofensiva das Damas de Branco coincide com a viagem do Comissário para o Desenvolvimento e a Ajuda Humanitária da União Européia, Louis Michel, que hoje e amanhã participará em Havana de um seminário sobre as relações de cooperação da UE com Cuba. “Enviamos uma carta particular ao comissário, não creio que se reúna conosco nem com ninguém da oposição, mas acredito que é importante que venha nesta data”, afirmou Pollán, recordando que em sua visita anterior, em outubro, Michel se absteve de conversar com grupos da dissidência interna. Em sua carta a Castro, as mulheres solicitaram tolerância para o exercício de suas demandas, amparado constitucionalmente, e a liberdade “imediata e incondicional” de seus parentes.

As Damas de Branco são filhas, mulheres ou mães de 75 dissidentes presos entre 18 e 20 de março de 2003 e condenados a penas que variam de seis a 28 anos de prisão, acusados de conspirar com Washington com fins subversivos. Desse total de pessoas, 54 ainda permanecem nas prisões, um recuperou a liberdade após cumprir a pena e os 20 restantes foram soldos com licença extra-penal, uma figura que é aplicada quando as condições penais são incompatíveis com a saúde do prisioneiro. Vários destes últimos residem atualmente no exterior.

Essas prisões coincidiram com o clima de tensão criado por vários sequestros de embarcações aéreas e marítimas por pessoas que pretendiam emigrar para os Estados Unidos, sendo que um deles desembocou na aplicação da pena de morte a três de oito responsáveis pelo seqüestro de uma embarcação com todos os passageiros a bordo. Segundo documentos da chancelaria cubana, os presos realizavam “atividades para a derrubada da ordem pública, econômica e social decidido pelo povo cubano e agiram financiados e sob instruções de uma potência estrangeira”.

Entretanto, as Damas de Branco insistem que os 75 foram presos injustamente e lembram que a organização Anistia Internacional os reconheceu como “prisioneiros de consciência” já que suas atividades não são condenáveis “em nenhum país que desfrute de uma verdadeira democracia”. Em reação às prisões, a União Européia aplicou a Cuba uma série de medidas diplomáticas que limitaram as visitas governamentais bilaterais de alto nível, iniciaram a prática de convidar dissidentes para suas recepções oficiais nas datas nacionais e reduziram a participação de países da UE em acontecimentos culturais de Cuba. Por sua vez, Havana congelou sua relação com as embaixadas européias. A suspensão definitiva das resoluções de castigo de Bruxelas, em junho de 2008, deu lugar ao começo do diálogo entre Cuba e a UE e ao relançamento da cooperação bilateral. IPS/Envolverde

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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