POLÍTICA: Onde estão os partidos?

Rio de Janeiro, 03/03/2009 – É a hora da política, afirmou o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao se referir à necessidade de intervenções governamentais para superar a crise financeira mundial. Mas os partidos, os atores políticos básicos por definição, evitam o protagonismo. O que propõem os partidos em nível nacional e de suas correntes internacionais como saída para a crise? São os especialistas, principalmente economistas, os quais Lula rechaça por sua grande responsabilidade no desastre, que encabeçam o debate e apresentam alternativas, executadas, ou não, pelos governos.

Por mais que se diga que as crises financeira, ambiental, energética e alimentar estão associadas, os remédios continuam fragmentados. Ambientalistas defendem o combate à mudança climática, com incursões em temas alimentares e energéticos que pouco dialogam com os responsáveis dessas áreas, que também se enfrentam na questão dos biocombustíveis. E os assuntos econômicos também têm donos exclusivos. A política é mais do que nunca necessária para a resposta sistemática a esses desafios, os quais não parecem ter soluções isoladas se a intenção é sanar as causas e não os efeitos das crises, que não por casualidade coincidiram no tempo.

Não se trata apenas de ampliar a intervenção do Estado na economia. A ação de muitos governos, com redução de taxas de juros, ajudas bilionárias a bancos, estímulos à produção para manter empregos e defesa da regulamentação, é de emergência e não produto do triunfo de uma “ideologia econômica”, disse José Luis Fiori, professor de Economia Política Internacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Acredita-se que “não há alternativa”, como se justificou o liberalismo conservador há 30 anos, agora com sinal invertido, estatizante e “sem maiores discussões teóricas ou ideologias e nenhum entusiasmo político”, acrescentou Fiori em recente artigo.

Este professor prevê “uma epidemia darwinista”, diante da impossibilidade de acordo político entre os “interesses contraditórios” nos Estados Unidos e no mundo. Não seriam os partidos capazes de mediar nesses conflitos de interesses, em seu campo na política? Os partidos estão “sem massa crítica” para apresentar respostas à altura do desafio, e um exemplo é o Partido dos Trabalhadores, cujos melhores quadros hoje estão no governo, segundo Jorge Nahas, dirigente do setor em Minas Gerais e secretário municipal de Política Social de Belo Horizonte.

A liderança do Presidente Lula, refletida na imagem positiva que tem para 84% dos entrevistados na pesquisa mais recente, parece ter esterilizado o partido que fundou em 1980 e que há uma década ainda era considerada a força partidária mais autentica e organizada do país. Sucessivos escândalos de corrupção em 2005 e 2006 contribuíram para enfraquecer o PT. O governo e Lula também forma afetados, com a renúncia forçada de vários ministros, mas o Presidente se recuperou com juros, desequilibrando ainda mais a relação entre ele e seu partido.

Esta situação permite ao Presidente impor ao PT, sem um debate interno, a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, para sua sucessão em 2010. Houve resistências iniciais pelo fato de a ministra ser uma noviça no partido, ao qual aderiu em 2001 procedente do Partido Democrático Trabalhista, que alterna períodos de aliança e de oposição ao PT.

A preponderância absoluta de um líder nacional que tira a importância dos partidos se acentuou em muitas partes do planeta. A crise exacerba essa tendência. As esperanças do mundo estão na liderança do presidente norte-americano Barack Obama, não em seu Partido Democrata. Os líderes de esquerda e direita da América Latina contam com apoio popular para mudar as regras do jogo a favor de suas reeleições e para designar a esposa como sucessora, como foi o caso de Nestor e Cristina Kirshner na Argentina, pouco importando o que pensam seus partidos. Inclusive o PT se converteu em “mero instrumento eleitoral”, admitiu Ladislau Dowbor, professor da Universidade Católica de São Paulo e membro do partido. Economista com uma longa experiência como consultor da Organização das Nações Unidas em matéria de desenvolvimento, Dowbor discute com um grupo de colegas brasileiros e estrangeiros a formulação de propostas sistêmicas para “enfrentar simultaneamente os dramas sociais, os desafios ambientais” e também o desperdício de recursos, que exigem a construção de uma nova institucionalidade mundial.

A crise financeira é uma oportunidade para mobilizar forças sociais em favor de soluções amplas e de um desenvolvimento sustentável, socialmente mais equilibrado, em contraposição aos que querem manter o sistema “inviável”, apenas corrigindo exageros, com regulamentação, “sem toca em sua lógica”, afirmou. O grande problema é mobilizar forças sociais capazes de promover as mudanças. Dowbor reconhece que “poucas pessoas entendem” a crise financeira, o que dificulta a ação, mas afirmou acreditar que os impactos sofridos serão agentes mobilizadores.

Diante da ausência dos partidos, Dowbor menciona o movimento de organizações não-governamentais, um conjunto de sindicatos, como o dos trabalhadores da área financeira na América Latina, e forças difusas com poder de pressão. O aquecimento global está popularizando “pela primeira vez uma tema ambiental”, deu como exemplo. De todo modo, as mudanças necessárias “colocam em primeiro plano” a necessidade de uma reforma política. É preciso acabar com a contribuição de grandes corporações para o financiamento das campanhas eleitorais, que lhes permite ganhar influência para “fazer as regras do jogo a seu favor”, eliminando controles sobre suas atividades e corrompendo políticos, afirmou. (IPS/Envolverde)

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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