ECONOMÍA-CHINA: Sem expectativas para a cúpula do G-20

Pequim, 20/03/2009 – A China poderá ir em busca de seus próprios objetivos, segundo analistas, se a cúpula do Grupo dos 20 países industrializados e emergentes não conseguir definir uma estratégia para reativar a economia mundial, no contexto das discrepâncias entre Estados Unidos e Europa. “É sabido que o fracasso das negociações internacionais na cúpula de Londres de 1933 assentou as bases para o surgimento dos Estados Unidos como potência financeira”, disse um editorial do influente jornal de língua chinesa de Xangai Diyi Caijing Ribao. “No contexto da atual débâcle, sem precedentes, do sistema financeiro dependente dos Estados Unidos, a China poderia pretender criar uma nova ordem mundial se fracassar a cúpula de Londres?” do dia 2 de abril, pergunta o jornal.

A China não tem muitas expectativas sobre esse encontro, a julgar pela retórica oficial. O ex-vice-presidente do Banco Popular da China Wu Xiaoling não foi muito otimista sobre seu resultado na entrevista coletiva em Xangai. “É impossível alcançar um acordo concreto. Não devemos ter muitas ilusões. Por isso, temos de erguer nossa voz”, afirmou. Mesmo assim, Pequim dedicou muito esforço na preparação da cúpula. Funcionários dos ministérios de Comércio e Finanças, do Banco Central e da Comissão de Regulamentação Bancaria foram enviados a Londres no começo deste mês para forjar e apresentar uma estratégia unida na reunião do próximo mês.

Divididos em dois grupos, as autoridades financeiras trabalham para assentar as bases da participação da China nas vastas negociações, incluídas a reforma do Fundo Monetário Internacional e de outros organismos multilaterais de crédito, a dimensão e a coordenação das medidas de estímulo e o início de um sistema de regulamentação internacional. A posição da China começou a ser vislumbrada na reunião de ministros das Finanças do G-20 do final de semana, preparatória da cúpula de abril. O titular da pasta, Xie Xueren, pediu à comunidade internacional que acelere as reformas das instituições financeiras internacionais e construir um novo sistema, “justo e honesto, compatível e ordenado”, disse.

Wu Xiaoling concordou com Xie. As nações industrializadas devem ter uma responsabilidade maior na proteção dos interesses dos países em desenvolvimento e dar às economias emergentes mais poder em instituições internacionais como o FMI. “O FMI deveria aumentar a participação das economias emergentes e tratar todos os membros igualmente. Teria de implementar um novo conjunto de normas para regular a economia mundial, em torno das superpotências”.

Na reunião de ministros das Finanças também ficou em evidência a magnitude dos desacordos entre Estados Unidos e Europa. Funcionários norte-americanos, com apoio da Grã-Bretanha e do Japão, tentam conseguir apoio para levar adiante mais medidas de estímulo promovidas pelos governos. Mas as nações européias são cautelosas a respeito de medidas baseadas sobre o endividamento. Por outro lado promovem uma maior regulamentação e supervisão para evitar uma deterioração maior da economia mundial.

As diferenças entre Estados Unidos e Europa e o aprofundamento da crise econômica desviaram o debate sobre a responsabilidade da China nos desequilíbrios econômicos internacionais, que dominaram os círculos financeiros no final de 2008. Para desilusão de Pequim, as diferentes opiniões também empurraram a agenda da cúpula de abril para um aumento das contribuições para o FMI, em lugar de discutir uma reforma.

“As nações industrializadas deixaram pelo caminho o que teria de ter sido o assunto central da cúpula, como reformar o FMI”, disse Xu Mingqi, economista da Academia de Ciências Sociais de Xangai. Em lugar de discutir como redistribuir os direitos de voto dentro da instituição, argumentou Xu, os governantes teriam de decidir como criar um mecanismo monetário que seja aplicável aos países com divisas fortes e que sirva para proteger os interesses de investidores globais.

Por sua vez, o primeiro-ministro chinês se referiu ao assunto em sua entrevista coletiva anual da semana passada. Wen Jiabao disse estar “preocupado” com a segurança dos ativos da China nos Estados Unidos e pediu a Washington garantias de que manterá seu valor. A China é o maior possuidor de bônus do tesouro dos Estados Unidos. O montante de seu investimento chegava a US$ 696 bilhões no dia 31 de dezembro de 208. Este país também tem de lidar com a queda da demanda internacional, da qual depende sua economia baseada nas exportações, mas Pequim vê a crise como uma oportunidade para impulsionar seus objetivos de aumentar seu peso no concerto mundial e sua voz nos organismos multilaterais de crédito.

Nos últimos meses, Pequim deu os primeiros passos no sentido de transformar sua moeda, controlada e parcialmente conversível, em uma divisa regional mediante empréstimos e acordos comerciais regionais baseados no yuan. Além disso, a China prometeu contribuir com suas enormes reservas de divisas com o fundo de resgate do FMI, sob a condição de ser aumentado seu direito de voto na instituição. A participação dos países BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – no FMI é de 9,62% do total, cerca da metade da norte-americana. Alguns economistas chineses alertam as autoridades para não comprometerem fundos com o FMI antes de os Estados Unidos perderem seu direito de veto.

“Mesmo se a China optar por injetar uma grande quantia de dinheiro no FMI, não tem sentido aumentar seu peso na instituição”, disse Yu Yongding, presidente do Instituto de Economia e Política Mundial, da Academia de Ciências Sociais chinesa, ao site de notícias em inglês China Daily, “pois Washington tem poder de veto nos processos de decisão”. Mas, outros especialistas consideram que há mais espaço para a China conseguir seus objetivos e propõem uma cooperação direta com os Estados Unidos. “Sou mais pelo G-2 (EUA e China) do que pelo G-20 para resolver a crise”, disse Liu Yuhui, economista do Instituto de Estudos Financeiros, da Academia de Ciências Sociais. “Não creio que haverá grandes avanços na cúpula do G-20”, disse Liu. “O FMI é uma instituição com um poder econômico distribuído de forma rígida e levará muito tempo para mudar o status quo”, acrescentou. IPS/Envolverde

Antoaneta Bezlova

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