Nova York, 26/03/2009 – A proporção de pessoas infectadas ao mesmo tempo pelo bacilo da tuberculose e o HIV (vírus da deficiência imunológica adquirida) causador da aids, duplica as previsões anteriores ao último estudo da Organização Mundial da Saúde a respeito, divulgado na quarta-feira.
O informe da OMS, apresentado por ocasião do Dia Mundial Contra a Tuberculose, conclui que um quarto das mortes por essa doença está relacionado com o HIV. Para um portador deste vírus, a tuberculose equivale a uma condenação de morte no prazo de seis meses, se não houver tratamento, disse Carol Hamilton, co-presidente da associação acadêmica Centro de Enfermidades Infecciosas para Políticas Globais de Saúde e professora de medicina da Universidade de Duke. A OMS informou que em 2007 morreram de tuberculose 1,77 milhões de pessoas, entre elas 456 mil portadores do HIV, apesar de a maioria das variedades desta infecção respiratória ser curável.
Coincidindo com o informe da OMS, o Centro de Doenças Infecciosas e a organização não-governamental Ação TB divulgaram um estudo detalhando a severidade das coinfecções. “A convergência da co-epidemia é pior do que pensávamos”, disse Joanne Carter, diretora do Fundo Educativo Results, ao apresentar este informe, para quem os doadores das campanhas contra o HIV/aids “não abordam o problema de maneira adequada”. O informe da Results analisa várias das principais campanhas de prevenção e tratamento do HIV/Aids, com o Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da Aids (Pepfar); o Programa Multinacional de Luta Contra a Aids, do Banco Mundial, e o Fundo Mundial de Luta Contra a Aids, a Tuberculose e a Malária.
O estudo observa que todas estas organizações concordam que as coinfecções de tuberculose a Aids são uma prioridade, mas destaca ao mesmo tempo que existe escassa evidência de que a luta contra este fenômeno conte com financiamento ou atenção significativos. O coordenador de pesquisas da Results, Paul Jensen, disse que a atenção que as organizações dão às coinfecções é “insuficiente”. “Existe uma muito modesta destinação de recursos. Quando se centra a atenção nas infecções HIV-tuberculose, isto ocorre de maneira esporádica, escassa e habitualmente voluntária”, acrescentou. O Programa Multinacional, do Banco Mundial, que comprometeu US$ 1,6 bilhão para minimizar a crise do HIV/Aids desde sua criação em 2000, não especifica o financiamento que dedica aos programas para a tuberculose. Assim, é impossível saber com exatidão o quanto é destinado.
Além disso, Jensen disse que os orçamentos do Programa são “incoerentes. O financiamento para programas específicos sobre tubérculos está muito mal controlado”, afirmou. “O Banco Mundial diz ter um compromisso a respeito, mas não há nenhuma estratégia”, acrescentou. Por outro lado, o Fundo Mundial de Luta Contra a Aids, a Tuberculose e a Malária, que entregou US$ 15,2 bilhões para o combate a essas três doenças, inclui a coinfecção HIV-tuberculose em seus formulários de postulação a subvenções somente como nota de pé de página. Entre os nove planos de subvenção analisados no informe, apenas US$ 6 milhões foram destinados às coinfecções.
O estudo da Results foi categórico sobre a necessidade de um compromisso sustentável com a prevenção, o tratamento e especialmente a educação sobre a tuberculose. “Esta doença pulmonar contagiosa foi conhecida há cerca de cem anos e é curável há aproximadamente 50. Mas, de 2006 a 2007 aumentou a quantidade de casos”, disse Carol Hamilton. Com um equipamento de diagnostico adequado, a tuberculose é facilmente detectável por meio de análises e raio X, mas afeta as áreas mais pobres, que carecem de acesso aos equipamentos necessários. Estas áreas também são as mais afetadas pela Aids.
Segundo a OMS, em países com alta prevalência de HIV, 80% das pessoas infectadas com o bacilo da tuberculose também estão com o vírus da Aids. “Os remédios usados para tratar a tuberculose ficaram fracos”, na medida em que o bacilo adquire resistências, acrescentou Hamilton. “Precisamos da liderança norte-americana em matéria de financiamento para programas e pesquisas.” Mas, com a atual crise econômica, parece provável que diminua o financiamento para estes programas. “Estamos todos esperando para ouvir os detalhes, mas estamos definitivamente preocupados”, afirmou Carter sobre o futuro dos financiamentos.
Na última década diminuiu de maneira constante o financiamento dos Centros para o Controle e a Prevenção de Doenças (CDC), agência governamental responsável por rastrear e eliminar a tuberculose nos Estados Unidos. O Congresso norte-americano aprovou legislação que aumenta o financiamento para a luta contra a tuberculose, mas, ainda falta ver se, apesar da crise econômica, haverá dinheiro para isso. O pacote de estímulo do governo de Barack Obama, na realidade, reduz o financiamento dos CDC, e não foi destinado nenhum dinheiro especificamente a projetos relacionados com a tuberculose.
Há exemplos de países com tendências positivas no tratamento das coinfecções HIV-tuberculose. Desde que reconheceu formalmente a existência de um vínculo entre as mortes relacionadas com as duas enfermidades, o Quênia facilita exames de HIV a 80% dos tuberculosos, e também adotou medidas para impedir sua transmissão – que ocorre através do ar – em clinicas onde são tratados portadores do vírus da Aids.
O informe da Results propôs aumentar o financiamento de programas que abordam a coinfecção, disse Richard Chaisson, diretor do Centro para a Pesquisa sobre Tuberculose da Universidade Johns Hopkins. Segundo Chaisson, a prioridade é a conscientização sobre a convergência destas duas epidemias. “As pessoas precisam compreender que o HIV é o fator de risco mais importante nos pacientes com tuberculose e vice-versa”, afirmou Chaisson. Carter concorda. “O que estamos tentando evitar são os cenários onde as pessoas diagnosticadas com HIV sobrevivem, mas, em seguida morrem por uma tuberculose que não foi diagnosticada”, acrescentou. IPS/Envolverde


