DESENVOLVIMENTO-ÁFRICA: Uma Mensagem de Esperança Para os Agricultores

NAIROBI, 20/04/2009 – Os telemóveis estão a ser usados para diagnosticar e tratar de doenças nas plantas que causam enormes prejuízos aos agricultores, proporcionando uma oportunidade para aumentar os seus rendimentos à medida que a informação sobre ameaças de doenças em locais específicos seja disponibilizada. Uma iniciativa em dois distritos do Uganda obriga os trabalhadores com conhecimentos comunitários (TCC) a enviar mensagens por telemóvel aos agricultores em certas localidades. A informação pode incluir detalhes sobre como impedir as doenças e onde adquirir sementes que não estejam contaminadas, assim como oferecer sugestões sobre a forma de melhorar a qualidade do solo e aumentar as colheitas.

Com as mensagens de telemóvel, os agricultores num projecto piloto nos distritos de Mbale e Mbusheni, no leste e no oeste do país respectivamente, conseguiram suspender a propagação da doença da banana, doença bacteriana que se espalha rápidamente, e também do vírus que se espalha nos cachos superiores da bananeira (BBTV), mediante um diagnóstico e tratamento antecipados.

“Treinámos os trabalhadores com conhecimentos comunitários a usar os telemóveis de modo a transmitir informação aos agricultores. Eles dão sugestões agrícolas e conselhos por telemóvel e sobre o que se deve fazer ou não para controlar as doenças. Os agricultores até fazem perguntas acerca da doença que faz murchar a banana e sobre o BBTV, e recebem uma resposta automática nos seus telemóveis”, disse à IPS Whitney Gantt, da Fundação Grameen, organização que luta contra a pobreza a nível mundial.

“A inciativa aumentou a produtividade porque os agricultores já aprenderam onde é que as doenças causam o maior risco. Assim, podem tomar as medidas de controlo necessárias antes de serem afectados, incluindo a obtenção de informação sobre onde é que podem obter plantas limpas”.

A banana faz parte dos alimentos básicos neste país da África Oriental e, segundo estatísticas governamentais, mais de 10 milhões de pessoas estão dependentes dela para sua alimentação e rendimento. Desde 2002 que a doença da banana, cujos sintomas incluem o aparecimento da cor amarela e o amadurecimento precoce em plantas jovens, aterroriza os agricultores e se tem espalhado noutras partes do país. Em Março, as autoridades lançaram uma campanha nacional para controlar a doença que já se propagou a 21 distritos dos 11 iniciais no ano passado.

Segundo Gantt, é provável que o projecto dos telemóveis seja reproduzido noutras áreas do país. Ela foi uma das investigadoras que se reuniram em Nairobi para discutir as tecnologias que podem gerar informação local (geoespacial) específica destinada aos agricultores e, assim, fazer aumentar a produtividade agrícola em África.

Os especialistas em informação espacial reuniram-se em Nairobi entre 31 de Março e 4 de Abril. O encontro fez parte da Semana Geoespacial Africana, evento organizado pelo Grupo Consultivo de Pesquisa Internacional Agrícola (CGIAR), um grupo mundial centrado virado para a pesquisa agrícola.

Muitos agricultores em pequena escala no continente africano não dispõem de muita informação, além do seu instinto e da sua experiência passada, antes de decidirem que produtos agrícolas vão semear. Têm falta de acesso a informação específica nas suas zonas agricolas, incluindo informação sobre o tipo de solo, fertilizantes, como adquirir as melhores sementes, condições climáticas e os preços nos mercados.

Consequentemente, os pequenos agricultores arriscam-se a ver as suas culturas e as suas vidas destruidas devido a condições climatéricas inesperadas e a doenças. Também podem não tirar partido de todos os benefícios de uma boa colheita, visto que não conhecem o valor real das suas culturas ou onde vender os seus produtos com o máximo lucro.

A prestação de informação geoespacial aos agricultores, especialmente sobre solos, doenças e ameaças de peste, técnicas agrícolas apropriadas, preços competitivos e padrões climáticos iminentes, surgiram como muito importantes para assegurar uma elevada produção agricola e ao mesmo tempo reduzir as incertezas da produção.

“Esta informação só é conhecida por especialistas. O desafio consiste em saber como vamos transmiti-la aos agricultores no terreno de forma a poderem beneficiar dela?” perguntou à IPS Nadia Manning-Thomas, investigadora e coordenadora externa do Instituto Internacional de Gestão de Água.

Além dos telemóveis, os mapas tecnológicos do Google podem oferecer muita informação relevante para os agricultores. Os agricultores podem usar esta tecnologia online para ver recomendações sobre o clima, solos e fertilizantes para as suas explorações agrícolas e ainda verificar as localidades onde existem mercados e articulações rodoviárias que são cruciais para o transporte dos seus produtos.

Espera-se que um projecto em curso na Etiópia capte informação acerca do acesso a estradas, reservatórios de água para irrigação, localização de silos, e áreas de mercado que podem ser usadas pelos agricultores. Segundo Tesfaye Korme, do Centro Regional para a Identificação de Recursos Destinados ao Desenvolvimento, esta informação vai definitivamente melhorar a produção gricola e a segurança alimentar … se os agricultores puderem ter acesso fácil a ela.

Mas o facto de só se poder ter acesso aos mapas pela internet – e numa ligação de alta velocidade – levanta mais um desafio, visto que o acesso à internet em África é reduzido, especialmente nas áreas rurais onde quase todos os agricultores africanos residem.

Alguns acreditam que tal situação pode incentivar as autoridades a facilitar o acesso à internet para os residentes das zonas rurais. “A tecnologia existe e África precisa dela. Os governos devem tirar partido dela para que o continente não continue cego a essa tecnologia”, afirmou Dr. Peter Okoth do Centro Internacional para Agricultura Tropical.

De acordo com Okoth, o estabelecimento de centros de informações nas aldeias, com pelo menos um computador ligado à internet, pode ser uma maneira de garantir o acesso à internet nas zonas rurais. Essa possibilidade vai tornar-se realidade no Quénia, onde cabos de fibra óptica vão ser instalados a partir de Julho deste ano, com vista a garantir ligações de internet rápidas e baratas.

Joyce Mulama

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