Manágua, 30/04/2009 – Lorena Castillo tinha 10 anos quando lhe disseram que seu papel na vida era ser boa dona de casa, esposa abnegada e mãe exemplar. Nada disse era ensinado na escola, lhe disse seu pai quando ela pediu para ir com seus irmãos na que havia na zona rural onde viviam. Originaria do município de Chontales, 139 quilômetros a noroeste da capital, Lorena nasceu em um ambiente patriarcal onde o pai regia o destino de filhas e filhos. Três décadas depois, ela soube que existia outro mundo e que a vida teria sido diferente para ela se tivesse aprendido a ler e escrever quando era uma menina que sonhava ser professora.
Agora, acaba de completar 40 anos e de concluir o curso de alfabetização sob a direção de uma jovem voluntária de 21 anos, que chegou de Manágua para ensinar-lhe muitas coisas que desconhecia e apenas suspeitava. “Já escrevi minha primeira cartão para meu filho e posso entender algumas notícias”, disse orgulhosa à IPS esta mulher que sobreviveu realizando trabalhos domésticos nos últimos 30 anos. Como Lorena, na Nicarágua há milhares de mulheres que somente agora descobrem a luz de conhecimento proporcionado pelas letras.
Uma ambiciosa campanha de alfabetização promovida pelo governo sandinista pretende ensinar a ler e escrever mais de 400 mil mulheres este ano, enquanto setores femininos veem com desconfiança a iniciativa e duvidam da qualidade do ensino em relação à questão de gênero. O ministro da Educação, Miguel De Castilla, informou à IPS que o governo de Daniel Ortega trabalha desde seu início em 2007 em uma maciça campanha de alfabetização, com a meta de declarar o país livre de analfabetos no próximo dia 19 de julho.
Nessa data se completarão 30 anos desde que as esquerdistas guerrilhas sandinistas derrubaram a ditadura direitista da família Somoza, que governou este país centro-americano por 43 anos a sangue e fogo. Como parte das celebrações, o governo espera concluir a Campanha nacional de Alfabetização de Martí a Fidel, cuja meta é que 772.025 analfabetos maiores de 15 anos completem o ensino básico. Desse total, 52% são mulheres.
Não é a primeira vez que o governo sandinista busca vencer a ignorância acadêmica. Em 1980, um ano depois do triunfo da Revolução Popular Sandinista, começou a Cruzada Nacional de Alfabetização, que reduziu o analfabetismo de 52% para 12,9% em um ano. Segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Informação de Desenvolvimento, em 2005 o analfabetismo alcançou mais de meio milhão de nicaraguenses, de uma população então calculada em 5,3 milhões de habitantes. Desta vez a meã é reduzir a proporção para menos de 5%.
Esta é a porcentagem fixada pela Organização das Nações Unidas para a Educaçao, a Ciência e a Cultura (Unesco) para declarar um país livre do analfabetismo. Para isso, disse De Castilla, conta-se com 54 mil voluntários, dos quais 95% são jovens com menos de 30 anos e cerca de 60% são mulheres, que já alfabetizaram 433.734 pessoas. Com a campanha de acesso ao sistema educacional, o governo pretende avançar nos primeiros três Objetivos de Desenvolvimento do Milênio que a comunidade mundial traçou tendo como data limite 2015: erradicar a pobreza extrema e a fome, fornecer ensino primário universal e promove a igualdade de gênero.
Esses e outros cinco objetivos foram adotados em 2000 pelos 189 países da ONU, com a finalidade de combater a pobreza e as desigualdades e melhorar o desenvolvimento humano em todo o mundo. Para atingir a segunda meta, a Nicarágua deve chegar a uma cobertura de 100% no ensino primário, partindo de uma base de 75% de crianças matriculadas em 1998. “A idéia não é apenas ensinar homens e mulheres a ler e escrever, mas formá-los e ensinar-lhes a pensar de maneira diferente. Uma pessoa letrada tem mais possibilidade de sair da pobreza do que uma analfabeta”, disse o ministro.
(IPS/Envolverde)

