Buenos Aires, 15/04/2009 – O glifosato, herbicida amplamente usado em cultivos de soja na Argentina, causa má-formação no desenvolvimento de embriões anfíbios, afirmam cientistas desse país que divulgaram algumas descobertas obtidas através de uma pesquisa inseticida. “As deformações observadas são consistentes e sistemáticas”, disse à IPS o professor Andrés Carrasco, diretor do Laboratório de Embriologia Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires (UBA) e pesquisador principal do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet).
A redução do tamanho das cabeças dos embriões, alterações genéticas no sistema nervoso central, aumento de morte de células que intervêm na formação craniana e cartilagens deformadas foram efeitos repetidos na experiência de laboratório, resumiu o biólogo. A notícia foi divulgada segunda-feira pelo jornal Página 12. Carrasco explicou à IPS que as conclusões correspondem a um resumo de “uma investigação com dados precisos”, mas que o trabalho final ainda não está pronto para publicação. Porém, considerou necessário divulgar os primeiros resultados “por uma questão de interesse geral”.
O glifosato é o princípio ativo do herbicida Roundup, fabricado pela norte-americana Monsanto, que desenvolveu as sementes de soja geneticamente modificadas para resistir a altas doses desse produto que combate toda espécie verde que não seja essa variedade transgênica. A responsável pela comunicação dessa empresa na Argentina, Fernanda Pérez Cometto, a Monsanto tem “diversos estudos que mostram a inocuidade do herbicida em humanos, animais e no meio ambiente”. Mas, enquanto não conhecer o estudo da UBA a companhia “não dará nenhuma opinião”.
“É chave conhecer que tipo de metodologia foi usado para ter evidências, por isso solicitamos ao laboratório uma copia do estudo”, disse Cometto. De todo modo, insistiu, a porta-voz, o herbicida da Monsanto foi avaliado em 1996 por autoridades argentinas que o qualificaram como sendo de “improvável risco grave”. A funcionária disse que, “obviamente, se trata de uma substancia que deve ser usada corretamente, com os alertas existentes no rotulo, como o repelente ou o hipoclorito de sódio. Não se pode tomar um copo de herbicida e achar que não haverá nenhum efeito”.
Carrasco explicou que em uma primeira fase da experiência foram submersos embriões anfíbios em uma solução do herbicida diluída em água em uma proporção até 1.500 vezes menor do que a usada nas plantações argentinas. Os embriões desenvolveram deformações na cabeça. Em seguida, células embrionárias injetadas com glifosato diluído em água, mas sem os aditivos do produto comercial para facilitar sua penetração, apresentaram um impacto ainda mais negativo, o que revela que a toxidade está no princípio ativo, não nas demais substancias, afirmou o biólogo.
“É de supor com certeza que o mesmo que ocorre com anfíbios pode ocorrer em humanos”, disse Carrasco, que trabalha com uma equipe de especialistas em biologia, bioquímica e genética há 15 meses. Os resultados são comparáveis pela conservação dos mecanismos que regulam o desenvolvimento embrionário dos vertebrados. “É evidente que o produto acumula nas células”, alertou.
Uma mistura potencializada de glifosato lançada por aviões é uma das armas usadas pelas autoridades da Colômbia para erradicar à força as plantações ilegais de coca, matéria-prima da cocaína. Os efeitos destas fumigações sobre outras plantações, animais e pessoas em zonas fronteiriças com o Equador levaram a denúncias internacionais de Quito contra Bogotá. Na Argentina são usados cerca de 200 milhões de litros de glifosato por ano. A soja ocupa cerca de 50% da superfície agrícola, quase 17 milhões de hectares, e é o principal produto de exportação. O herbicida é aplicado principalmente através de fumigação aérea.
O engenheiro agrônomo Jorge Gilbert, do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA), disse à IPS que o glifosato, como outros produtos químicos usados para combater pragas e mato, “não é bom nem mau por si mesmo, mas depende das técnicas de aplicação que são utilizadas”. O INTA fornece assessoria técnica aos agricultores, mas nunca assumiu uma posição crítica à soja transgênica. Ao contrário, muitos de seus profissionais consideram que a introdução da semente modificada resistente ao herbicida foi um avanço no desenvolvimento rural.
Por outro lado, organizações ambientalistas e sociais denunciam há pelo menos cinco anos que as áreas povoadas vizinhas das plantações de soja sofrem grande quantidade de casos de câncer, deformações congênitas, lupus, doenças renais e respiratórias, dermatite e outras enfermidades. O não-governamental Grupo de Reflexão rural (GRR), que em 2006 lançou a campanha “Parem de fumigar” nas províncias com mais plantações de soja, divulgou este ano um informe com testemunhos de moradores, ativistas e médicos rurais de dezenas de localidades do país.
O advogado do grupo, Osvaldo Fornari, disse à IPS que o informe foi apresentado à justiça federal para que investigasse o trâmite de aprovação do herbicida e, com base nos casos de eventuais vítimas por contaminação, pediu a aplicação do princípio precautório e a proibição preventiva do uso do Roundup. A presidente argentina, Cristina Fernández estabeleceu por decreto uma comissão nacional integrada por pessoal técnico do Ministério da Saúde, das Secretarias de Meio Ambiente e Agricultura e do INTA, que deverá determinar os impactos sanitários e ambientais do glifosato. IPS/Envolverde

