Washington, 20/04/2009 – O governo do Iraque e a comunidade internacional devem facilitar condições de segurança para o retorno dos 2,6 milhões de refugiados, alertou a organização especializada Refugiados Internacional (RI). Apesar de alguns dados desanimadores, o governo em Bagdá ainda não calculou de modo realista sua capacidade de absorver retornados, segundo o informe “Iraque: Evitando o ponto de não-retorno”. A RI concluiu que grande parte dos retornados tem dificuldades para encontrar moradia, energia elétrica, água, emprego e acesso à saúde.
“Há uma imensa pressão sobre os refugiados iraquianos para que retornem. O problema é que voltam para localidades que sofreram limpeza étnica e com pobres serviços estatais”, disse o presidente da RI, Ken Bacon. O estudo se baseia em uma pesquisa in loco da organização nas cidades de Bagdá, Eskanderia, Faluja, Karbala e Hilla para analisar a situação humanitária dentro do Iraque. A missão da RI concluiu que as organizações de ajuda carecem de um panorama completo da situação, e que as restrições impostas ao pessoal da Organização das Nações Unidas deveria se adaptar às condições reais de segurança em cada região iraquiana.
“As restrições são irracionais porque a segurança melhorou”, disse Bacon. “Ninguém diz que o Iraque é completamente seguro, mas há medidas que podem ser tomadas para garantir a segurança do pessoal da ONU e o acesso da ajuda aos setores vulneráveis da população”. Os iraquianos ouvidos pela RI expressaram o desejo de que a ONU regresse e funcione plenamente no país. “Visitamos grupos de refugiados em condições de vida deploráveis, e ainda não foram registrados pelo Ministério de Refugiados e Migração. Ainda não haviam recebido nenhuma assistência de agências da ONU”, disse Bacon.
Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), apenas 50 mil famílias regressaram até agora, a maioria para Bagdá, e apenas 8% eram refugiados em países vizinhos. A OIM também indicou que 61% dos 2,6 milhões de refugiados internos 1,5 milhão nessa condição desde fevereiro de 2006 querem voltar para suas casas, mas não se sentem capazes de fazê-lo. O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) informou que ajudou 780 pessoas a regressarem da Jordânia e da Síria desde outubro, e que não tem planos de dar assistência a retornos em grande escala num futuro próximo.
O estudo do Acnur indica que os recentes choques em Diyala, Mosul, Basra e Bagdá demonstram que a situação ainda é muito instável e violenta para que os refugiados retornem. A maioria dos que retornaram desde a Síria não pode se instalar em suas casas, pois voltaram a ser atacados, e tiveram de mudar para outras áreas. Muitos encontraram suas casas ocupadas por outras famílias e sem poder recuperá-las. “Não estão convencidos de que o retorno é sustentável. A maioria dos refugiados está esperando”, disse ao jornal The Washington Times o representante do Acnur na Jordânia, Imran Riza. “Por isso não voltam definitivamente. Os números são relativamente baixos. Os que desejam voltar devem se inteirar com familiares ou conhecidos quais são as possibilidades”, explicou.
Muitos refugiados internos estão desempregados, sem acesso à ajuda alimentar, vivem em condições esquálidas, carece de recursos e enfrentam grandes dificuldades para contar com serviços básicos, afirma o relatório da RI. Segundo esta organização, o governo iraquiano não tem vontade nem capacidade para atender as necessidades dos refugiados, embora conte com grande quantidade de dinheiro, o que reduz sua credibilidade diante do público. Enquanto isso, a comunidade internacional é lenta para responder por considerar que se trata de um problema dos Estados Unidos.
“Muitos governos doadores foram reticentes em participar da assistência aos refugiados, pois acreditam que Washington e Bagdá devem pagar a maior parte da conta”, disse no ano passado Roberta Cohen em um informe da norte-americana Instituição Brokings intitulado “Iraq’s Displaced: Where to Turn?”. A “principal razão para esta crise não receber a atenção que merece é porque não vemos os iraquianos vivendo em acampamentos de refugiados”, disse em março em uma conferência o legislador norte-americano Alcee L. Hastings. “São uma população espalhada por cidades como Amã, Damasco, Cairo e Beirute. Isto faz com que a crise humanitária seja virtualmente invisível para a comunidade internacional”, acrescentou. IPS/Envolverde

