Cracóvia, Polônia, 14/04/2009 – Milhares de cidadãos da Europa oriental que emigraram para o oeste após a ampliação da União Européia em 2004 regressam agora expulsos pela crise financeira que assola seus países adotivos. Mas não é fácil voltar, encontrar trabalho e se adaptar novamente aos seus países de origem, igualmente afetados pela crise global, quando não mais, segundo especialistas. “A situação é muito grave e para muitas pessoas não parece que vai melhorar logo”, disse à IPS Zora Butorova, analista do Instituto de Assuntos Públicos na Bratislava.
Quando em 2004 foram incorporadas 10 novas nações da Europa orienta à UE, centenas de milhares de cidadãos dos países dessa região, mais pobres que seus vizinhos ocidentais, se trasladaram para Grã-Bretanha, Irlanda e um pouco depois para a Espanha, após a abertura de seus mercados de trabalho aos novos cidadãos europeus. Não há dados oficiais sobre o número de emigrantes. Na Grã-Bretanha, a imprensa disse que um milhão de poloneses chegaram entre 2004 e 2008 em busca de trabalho, além de dezenas de milhares de eslovacos, letões e lituanos, seguidos de outros cidadãos dessa regia. Na época, as economias ocidentais cresciam de forma saudável e não foi muito difícil para eles conseguir trabalho em diferentes setores. Mas, agora voltam aos seus países de origem apesar de, segundo os economistas, apesar da previsão de na Europa oriental a produção cair 15% este ano.
Na Bulgária, a indústria perde postos de trabalho em grande escala. Em dezembro, 15 mil pessoas ficaram desempregadas nos setores metalúrgico, mineiro e têxtil, segundo a imprensa local. O governo prevê criar novos postos na construção para os cidadãos que retornarem. Na Romênia, as autoridades informaram que esperam a volta de um terço dos três milhões de romenos registrados no exterior. Os especialistas previram que os cidadãos que voltarem sofrerão uma falta de trabalho crônica. Na Eslováquia, 9,8% da população economicamente ativa não tinham trabalho em fevereiro, a cifra mais alta dos últimos dois anos. Somente este mês se registraram no seguro-desemprego 1.387 cidadãos que haviam trabalhado no exterior.
Quem volta aos seus países de origem denuncia discriminação trabalhista. Na Polônia, a imprensa divulgou casos de pessoas que disseram não serem consideradas para determinados empregos porque haviam trabalhado no estrangeiro, Jacek Marcin, originário da Cracóvia, voltou à Polônia no mês passado após trabalhar três anos em Londres como pedreiro. Chegou a ganhar mais de 2.500 euros (mais de US$ 3.200) por mês, mas antes de retornar seu salário era um décimo desse valor. “Passei de uma vida cômoda, com dinheiro suficiente para viver e poupar algum no fim do mês , para uma que o salário não dava para comer”, contou à IPS.
“Quando começou o retrocesso da economia britânica pensei em voltar à Polônia. Familiares e amigos diziam que havia muito trabalho por aqui porque o país cresceu muito nos últimos anos. Mas agora também chegou a crise e as coisas não estão melhor do que na Grã-Bretanha”, disse Marcin. “Não há trabalho em nenhum lugar. Cada vez que aparece um, há centenas de candidatos. Em algumas entrevistas olham pra a gente com desdém por termos trabalhado no exterior. Parecem estar com ciúmes e querem te castigar por ter ido e ganho mais dinheiro do que eles”, disse este pedreiro de 27 anos.
Butorova disse que muitos dos cidadãos da Europa central e oriental que agora regressampode optar por voltar a emigrar diante da funesta situação econômica. “Nos países da região, o desemprego se agrava e, apesar da experiência e conhecimentos adquiridos no estrangeiro por parte dos que retornam, simplesmente não há trabalho”, disse a especialista à IPS. “É uma grande depressão e alguns deles podem emigrar de novo. Se tiveram coragem para fazer isso uma vez, seguramente farão novamente”, acrescentou. IPS/Envolverde

