La paz, 08/05/2009 – Protetora, senhora espiritual, dona da fertilidade, representação da Virgem Maria e Casa Grande são os significados que os povos indígenas das culturas andinas e das planícies da Bolívia dão à Terra, uma veneração agora reconhecida pela Organização das Nações Unidas. Na decisão da ONU de declarar o Dia Internacional da Mãe Terra, Pachamama em quéchua e aymara, a proposta do presidente a Bolívia, Evo Morales, expressa a preocupação dos povos indígenas desta região da América pela destruição do planeta, a acelerada destruição de florestas e faunas e pela contaminação da água.
A celebração pretende que os governos de todo o mundo, os organismos internacionais e o resto do sistema intergovernamental se dediquem a cada 22 de abril a se conscientizarem dos desafios que tem a humanidade para preservar a saúde do planeta, disse o presidente da Assembléia Geral da ONU, o nicaraguense Miguel d’Escoto. A proposta de Morales, da etnia aymara, tem origem nos ancestrais costumes dos povos indígenas, firmes crentes nas bondades da terra e convencidos de viver em harmonia com a natureza.
Estes princípios culturais caracterizam o governo esquerdista de Motrales, como se vê nas medidas aplicada para recuperar os benefícios da exploração dos hidrocarbonos, e para o bem-estar coletivo, e proclamar como bens não privatizáveis a água e outros recursos naturais. A declaração da ONU “é um reconhecimento de que a Terra e seus ecossistemas sustentam nossas vidas. Também realça nossas responsabilidades em promover a harmonia com a natureza”, disse d’Escoto.
Mas o pronunciamento também encerra significados políticos como os expressados pelo embaixador boliviano na ONU, Pablor Sólon, que reclama um compromisso de todas as nações para evitar à Terra “os danos de um capitalismo selvagem que somente vê lucro e não mede os impactos”. Sólon destacou o conteúdo da nova Constituição boliviana, em vigor desde fevereiro, que em seu artigo 20 reconhece a toda pessoa o direito ao acesso universal e equitativo dos serviços básicos de água potável, esgoto, eletricidade, gás domiciliar, postal e telecomunicações.
Porém, a Mãe Terra, conhecida por quéchuas e aymaras como Pachamama, encerra outros significados desde a visão tradicional de povos antigos. O antropólogo aymara Angel Yujra explicou à IPS que a palavra Pachamama vem de dois vocábulos aymara e quéchua. Pacha com seu significado de tempo, espaço e representação do todo, e Mama é a representação da categoria superior entre as mulheres, o mais alto cargo espiritual, político e de autoridade dentro de uma cultura ou confederação de nações. As duas palavras unidas representam a senhora com grande autoridade que maneja um espaço territorial como Tiahuanacu ou o Tahuantinuyo, conta Yujra.
Tiahunacu é uma antiga civilização localizada no altiplano que rodeia o lago Titicaca, a oeste de La Paz, e estima-se que atingiu seu maior desenvolvimento por volta de 2000 antes de Cristo, enquanto o Tahuantinsuyo incluiu uma ampla área sul-americana e que hoje compreende as faixas costeiras do norte do Chile, Peru e Equador, e as zonas por onde se estende a cordilheira dos Antes na Argentina e na Bolívia, em uma área aproxima de três milhões de quilômetros quadrados. Segundo Yujra, o conceito de Pachamama é equivalente a uma senhora do cosmos das culturas dos povos do sul, hoje conhecidas como América Latina.
Nas zonas de planícies quentes e florestas ricas em flora e fauna, a Mãe Terra é a Casa Grande que guarda a floresta, a água, os animais e a natureza em seu conjunto, disse à IPS o diretor de Terras do ministério do setor, Bienvenido Zacu. A cultura guarani, a qual pertence Zacu, denomina a terra como “Ñandereta”. Os povos guarayos, chiquitanos, mojeños e também os guaranis rendem um culto permanente à terra e, como explica Zacu, antes de caçar ou pescar, os indígenas da região conversam com a natureza com que pedindo licença para obter os frutos de suas entranhas. “Não se pode entrar disparando uma escopeta na floresta. É preciso pedir permissão com muita fé para caçar animais silvestres”, explicou.
Os ritos aymaras consideram a Pachamama como protetora de todos os nascidos nos povos do Sul, e seu nome se associa às sociedades agrícolas desenvolvidas antigamente nas terras ecológicas que compreendem desde a costa, o altiplano, os vales e a Amazônia, afirma Yujra. A Pachamama é considerada a senhora da fertilidade e as evocação é permanente em tempo de plantar e colher em uma sociedade agrícola que valoriza em alto grau o alimento produzido pela terra, segundo o antropólogo. Em agradecimento à abundante colheita ou para pedir um ano com clima favorável para a produção agrícola, os indígenas andinos realizam um tributo em maio e agosto.
As oferendas consistem em ervas escolhidas para rituais, doces, papel colorido, gordura animal e fetos de llama que são colocados em uma fogueira na forma de um prato de comida para pedir ou agradecer a Pachamama, descreve o antropólogo aymara. Outra época em que se agradece à Terra é a temporada de chuvas, antigamente chamada de Anata, e agora conhecida como carnaval, um tempo em que as plantações estão florescentes. Após a colonização espanhola, os povos indígenas associaram Pachamama com a Virgem Maria, um costume mantido até hoje. Yujra diz que isso se deveu a uma tentativa dos jesuítas, principais missões católicas, em evangelizar os povos nativos e substituir seus deuses e costumes pela cultura cristã européia.
O culto à Mãe Terra não diminuiu em 300 anos de colonialismo. e a incorporação da religião católica entre os povos indígenas terminou em um processo intercultural onde se compartilha padrões culturais como um intercâmbio de produtos espirituais e materiais, afirmou. Yujra assegura que à luz da nova Constituição aprovada no governo Morales, que reconhece os valores culturais dos povos indígenas, muitos sacerdotes aymaras dirigem seus passos para restaurar espaços rituais sagrados, aos espíritos antigos e ao mesmo culto a Pachamama. IPS/Envolverde

