AMÉRICA LATINA-UE: União transatlântica tem urgência

Madri, 12/05/2009 – Personalidades da América Latina e da União Européia concordaram em destacar, ontem, na capital espanhola, que é impossível deter a construção da unidade entre as duas regiões, para assim garantir um futuro melhor para toda sua população, qualquer que seja seu lugar de residência O chamado foi ouvido no ato pelo Bicentenário das Independências Latino-americanas, do qual participaram, entre outros, o rei Juan Carlos I; a comissária de Relações Exteriores da UE, Benita Ferrero-Waldner; o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, José Miguel Insulza; o secretário-geral iberoamericano, Enrique Iglesias; o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, e a deputada chilena Isabel Allende.

O chanceler da Espanha, Miguel Angel Moratinos, também presente ao ato, disse à IPS que se deve acreditar “no potencial que têm os iberoamericanos a agirmos juntos com um bom plano de ação”. Entre as primeiras medidas que os Estados iberoamericanos deveriam tomar disse que está a reforma da Organização das Nações Unidas e a “luta efetiva contra a pobreza, porque podemos e devemos fazer isso”, destacou. Ao abrir a cerimônia, o rei Juan Carlos recordou que a Constituição de Cádiz de 1812, “cujo âmbito de aplicação se estendia aos dois continentes”, se plasmaram em ideais e princípios “entre os quais se destacam liberdade, igualdade e solidariedade”.

Por isso, Juan Carlos disse que “recordar esses valores constitucionais e aquela luta pela liberdade nos oferecem também a oportunidade para aprofundar ainda mais nosso conhecimento mutuo e promover o muito que compartilhamos”. Estes bicentenários de independência da Espanha que se sucederão – acrescentou – “oferecem uma boa ocasião para impulsionar nossas relações e para refletir sobre o presente e o futuro da Comunidade Iberoamericana” de Nações, formada por Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Espanha, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Peru, Paraguai, Portugal, Andorra, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. Porque “se trata de nossa voz ser mais considerada, contribuindo generosa e positivamente para a criação de uma sociedade internacional mais livre, justa, democrática e solidária”, concluiu o rei.

Iglesias disse à IPS que “é natural se falar sobre o passado e que este seja investigado a fundo, mas, o mais importante é olhar par ao futuro e agirmos juntos para elaborar e cumprir um bom plano de ação conjunta”. Referindo-se à crise econômica e financeira global, o dirigente hispano-uruguaio destacou que a América Latina é uma região que “tem consciência de que pode resolver seus problemas por si mesma e deve fazer isso com medidas concretas”. Para isso é necessário que os “países iberoamericanos apóiem-se mutuamente neste novo mundo para que a geração do bicentenário seja a mais formada, para contar com o capital humano indispensável a fim de garantir um desenvolvimento amplo, sustentável e equitativo”.

Ferrero Waldner se referiu ao comércio entre Europa e América Latina com duras críticas. Recordou que a UE negocia três acordos com a América Central, outro com a Comunidade Andina de Nações (CAN, integrada por Bolívia, Colômbia, Equador e Peru) e também com o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai mais Venezuela em processo de adesão plena). O primeiro, a seu ver, “caminha bem”. Com a CAN, “a negociação não é fácil, pois se perdeu muito tempo com isso, mas ainda há uma chance de prosperar”. A negociação mais complicada é com o Mercosul porque – disse – desde esse bloco regional afirma-se que primeiro é preciso terminar a negociação com a Organização Mundial do Comércio, “que já fracassou”.

Segundo a comissária da UE, na América Latina não há muita coerência entre seus países e “o maior desafio que enfrentam é a pobreza e a exclusão social, com gente muito rica e gente muito pobre”. Acrescentou que a União Européia deveria dedicar mais fundos para apoiar aquela região e compreender melhor os imigrantes que vivem neste território, lembrando que quando os europeus emigraram para o outro lado do Atlântico foram bem recebidos. Sobre a pobreza e a exclusão, o escritor mexicano Héctor Aguilar Camín disse estar “cansado de ouvir vamos combater a pobreza, quando o que é preciso dizer é como construir riqueza para a maioria da população”.

O socialista Felipe González, primeiro-ministro espanhol entre 1982 e 1996 e hoje embaixador extraordinário e plenipotenciário para a Comemoração dos Bicentenários da Independência das Republicas Iberoamericanas, abriu o encontro recordando que as guerras da independência foram “explosões de liberdade diante do poder absoluto e o germe da igualdade perante a lei, baseada na Constituição de 1812 e compartilhada pelos dois lados do Atlântico”. Como é normal nos atos públicos dos últimos tempos, a questão da crise teve seu lugar na tribuna desde o começo.

González disse que “toda epidemia financeira pode se converter, como está ocorrendo agora, em uma pandemia”, ou seja, que caso não seja enfrentada firmemente poderá se estender a todo o planeta. Afirmou que a América continua produzindo 62% do produto interno bruto mundial, mas que o comércio intrarregional da América Latina e do Caribe não passa de 6%, enquanto dentro da UE esse intercâmbio chega a 77%. Para que América Latina e Caribe aumentem seu intercâmbio de bens e serviços “são necessárias regras de comércio compartilhadas” e obras conjuntas, já que “uma boa estrada integra, enquanto 20 discursos não o fazem”. Ou seja, é preciso passar das palavras aos fatos.

Sobre o futuro da América Latina e do Caribe, o ex-primeiro-ministro aconselhou olhar para o passado, porém, mais ainda voltar a atenção para o futuro, no qual se deve trabalhar duro. Um ponto fundamental – disse – é redistribuir a renda de maneira mais equitativa e investir mais na capacidade de formação humana. E para satisfação dos presentes que lotavam a sala de reuniões da Casa da América, no centro de Madri, afirmou que nos últimos anos a América Latina está reagindo positivamente e que existe uma crescente interdependência entre seus países, embora não seja equilibrada. IPS/Envolverde

Tito Drago

Tito Drago es corresponsal de IPS en Madrid. Periodista y consultor especializado en relaciones internacionales, nació en Argentina y vive en España desde 1977, tras su paso por varios países latinoamericanos y europeos. En 1977 abrió la primera corresponsalía de IPS en España y en 1978 se trasladó a la sede mundial de la agencia en Roma para reestructurar la jefatura de redacción. Es escritor y conferencista. Fue presidente del Club Internacional de Prensa de España, del que es presidente honorario desde 1999. También presidió la Asociación de Corresponsales de Prensa Extranjera (ACPE). Entre 1989 y 2008 fue director general de la agencia de comunicación y editora Comunica, de la revista Mercosur y de los libros y los sitios web de las Cumbres Iberoamericanas de Jefes de Estado y de Gobierno. Desde 1992 dirige el portal sobre la Actualidad del Español en el Mundo.

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