DESTAQUES: Desenvolvimento do México em jogo nas salas de aula semivazias

MÉXICO, 06/05/2009 – (Tierramérica O recesso escolar decretado no México em razão da epidemia de gripe suína não tem culpa por estarem quase desertos os cursos nas áreas de ciência e tecnologia

Faculdade de Medicina da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). - Photo Stock

Faculdade de Medicina da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). - Photo Stock

Muitas soluções para o desenvolvimento do México estão na formação científica e tecnológica da geração jovem, afirmam acadêmicos. Mas essas carreiras são quase ignoradas pelos estudantes neste país, onde todos querem ser médicos ou contadores. Até há pouco tempo, Armando Guadarrama frequentava uma sala de aula de apenas 15 alunos, mas agora “nos juntaram com outro grupo porque éramos poucos, e já somos 30”, contou.

Guadarrama cursa o oitavo semestre de Engenharia Química de Petróleo no Instituto Politécnico Nacional (IPN) da cidade do México e é um entusiasta de sua profissão. “Gostaria de fazer pesquisas para melhorar os processos de refino para que contaminem menos o ar”, disse. Embora o petróleo proporcione ao México 10% de seu produto interno bruto (PIB), essa carreira se encontra em um grupo de licenciaturas ignorado pelos jovens do país.

O outro lado da moeda são as carreiras tradicionais, saturadas há décadas: Medicina, Contabilidade, Direito, Turismo, Desenho, Psicologia, Administração, Comunicação, Arquitetura e Cirurgia Oral. Com gráficos nas mãos, o diretor de Educação Superior do IPN, David Jaramillo, explica que “este ano, 28 candidatos disputaram cada uma das vagas disponíveis em Medicina”. Já para cada vaga em Engenharia Química de Petróleo, havia apenas cinco candidatos.

Antonio Aguillar é coordenador-geral de Informação Institucional de outra das universidades mais importantes do país, a Autônoma Metropolitana (UAM). Nela, as dez carreiras tradicionais atraem 52% da demanda. “É triste, porque oferecemos 79 carreiras, ou seja, as 69 restantes têm 48% da demanda”, disse. Há uma razão para as salas semidesertas: “Quando vou conversar com alunos aspirantes. faço um exercício, pedindo que mencionem dez carreiras, mas dificilmente chegam a oito. Há um desconhecimento total”, lamenta. Guadarrama reconhece que a orientação vocacional não influiu na sua escolha. “Tenho um tio que trabalha nessa área, por isso conheci essa profissão”, disse.

Quando os funcionários das três universidades federais da capital mexicana conversam, “a surpresa é que a situação é muito semelhante. Estamos mal em demanda em ciências e tecnologia”, afirma Aguilar. E essa situação “é uma mostra do que ocorre em todo o país”, que investe apenas 0,4% do PIB em Ciência e Tecnologia. É chamativo o fato de que “em um país com um Oceano Pacífico e um Golfo do México impressionantes em riqueza marinha, ninguém queira estudar Hidrobiologia”, disse Aquilar.

“Temos as marés mais intensas do mundo, as zonas de radiação solar mais importantes do hemisfério Norte e estávamos cheios de petróleo, que já está acabando, e é lamentável que Engenharia de Energia não seja uma carreira procurada”, acrescentou. Em um país “que se afoga no sul porque os rios inundam, enquanto no norte morremos de sede, ninguém quer Engenharia Hidrológica”, ressaltou.

O México precisa de mais técnicos, pesquisadores e cientistas para enfrentar problemas tão graves como o aquecimento global. “A mudança global no meio ambiente está criando áreas de desertificação, há problemas de produtividade no campo e insuficiência de reservatórios de água, e não há profissionais suficientes para incidir em opções de solução”, afirma o subdiretor de avaliação institucional da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), Roberto Rodríguez.

Jaramillo diz que este país é um “dos principais produtores de prata, caulim, bauxita, cimento e vidro, mas não se agrega valor a estes materiais”. Ao mesmo tempo, “todas as ciências da terra, como Engenharia Geodésica, Mineração, Geologia, Metalurgia, têm problemas de demanda”. Sem profissionais de Matemática e Física, carreiras desprezadas, “sempre teremos tecnologias dependentes”, disse Rodriguez, membro da Academia Mexicana de Ciências. Em Astronomia, o México “contribuiu para o mapa do Universo e dos buracos negros, em nível parelho ao das pesquisas do resto do mundo. E, para ter astrônomos, deve existir a carreira de Física”, acrescenta.

Também houve contribuições significativas “no conhecimento das áreas e fazendas costeiras e aproveitamento de mangues” graças à Oceanologia. Por isso, as universidades não podem fechar os cursos menos procurados, embora sofram para reunir um mínimo de estudantes que possibilite abrir um. Essas carreiras “ofereceriam emprego, desenvolvimento profissional, um nicho de oportunidades. Em outros países são fortemente exploradas, e aqui, com 106 milhões de habitantes, temos apenas 15 pessoas que querem estudá-las”, acrescenta Rodríguez.

O jovem Guadarrama tem expectativas: “Se entrar no site da Pemex (Petróleos Mexicanos), verá que um estagiário de Engenharia de Petróleo recebe 20 mil pesos (US$ 1.400), e isso sem ter um diploma”, afirma. Itzel Condado cursa o segundo semestre de Química na Unam e acredita que a maioria de seus colegas rejeita essa carreira por “pensarem que vão ganhar mais em outras, ou que não haverá trabalho”, apesar de “existir muita pesquisa em Química Verde, que estuda os processos que ajudam a contaminar menos o ambiente”, afirma.

No outro extremo, as carreiras tradicionais registram demandas históricas no país. Em março, o reitor da Unam, José Narro, confirmou para este ano “a maior demanda” da história da instituição mais importante do país: 114 mil jovens prestaram exames de admissão, mas apenas oito em cada cem conseguiram entrar.

A grande quantidade de reprovados é uma constante nacional. As autoridades universitárias explicam que o sistema de educação superior tem capacidade para apenas 26 em cada cem mexicanos em idade de cursar faculdade. Além disso, o México vive o efeito do “bônus demográfico”, uma relação favorável entre a população em idade dependente e aquela em idade de trabalhar. Historicamente, o país sempre teve mais crianças, mas, pelas políticas de natalidade da década de 70, agora tem mais jovens, uma situação que se manterá até 2025.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o México conta com 16 pessoas em idade de trabalhar para cada dez crianças ou adultos idosos. Porém, os benefícios do bônus demográfico – alerta a ONU – não são automáticos e é preciso capitalizar, educando a juventude para desenvolver uma força de trabalho mais qualificada. A chave para encher as aulas de Ciência e Tecnologia é a “intervenção do Estado”, diz Aguilar. Os programas de bolsas “têm êxito” em manter os jovens estudando e ao mesmo tempo “dando preferência aos que buscam carreiras técnicas e cientificas”, explicou.

Condado é um exemplo. Continuou estudando graças a uma bolsa da Academia Mexicana de Ciências por ter ganho a Olimpíada Nacional de Química. Contudo, em sua sala é um dos poucos interessados nessa ciência. “Somos 50 alunos, mas muitos estão ali porque não entraram em Medicina, são os que desertam, e no final apenas 30 se formam”.

É preciso divulgar os projetos de pesquisa dos laboratórios e suas aplicações na vida cotidiana, propõe. Isso faria os estudantes que inicialmente optaram por Medicina refletirem, “porque queriam salvar vidas e é possível salvar mais vidas em Química do que em Medicina”, afirma. E dá um exemplo: “Um professor nos disse que se alguém encontrar a maneira de converter o dióxido de carbono em ácido acético (vinagre), resolverá o problema do aquecimento global”.

* Este artigo é parte de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org).

Verónica Díaz Favela

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