SAÚDE-MÉXICO: Escola recupera profissão de parteiras

San Miguel de Allende, México, 19/05/2009 – A especialista em comunicação mexicana Marla Vargas teve seu bebê na banheira de sua casa e atendida por uma parteira, porque “queria ter uma experiência diferente, e para meu filho uma melhor chegada ao mundo”.

 - Gentileza CASA

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A prática mexicana de parteiras remonta às culturas pré-hispânicas que habitavam este país antes da chegada dos conquistadores espanhóis no início do século XVI. Em muitas comunidades rurais as parteiras são a única opção para atender gravidez e partos diante da insuficiente cobertura dos serviços de saúde estatais.

Mas a formação destas profissionais é escassa neste país de quase 107 milhões de habitantes. Nesta cidade de arquitetura colonial, localizada cerca de 300 quilômetros a noroeste da Cidade do México, funciona a única escola de parteiras com reconhecimento oficial, pertencente ao não-governamental Centro para os Adolescentes de San Miguel de Allende (Casa). “A escola nasceu com o objetivo de dar às mulheres a oportunidade de terem uma atenção de qualidade”, disse à IPS Maricruz Coronado, parteira e diretora do Casa desde 2008.

A organização nasceu em 1981 e sua Escola de Parteiras em 1997. Desde então, formou 38 profissionais e conta atualmente com 32 jovens procedentes de todos os pontos do país, boa parte delas filhas de parteiras tradicionais. A Organização Mundial da Saúde define as parteiras tradicionais, ou matronas, como “uma pessoa (geralmente mulher) que dá assistência à mãe durante o parto e que inicialmente adquiriu suas habilidades atendendo ela mesma seus partos ou trabalhando com outras parteiras tradicionais”.

Desde 1919 as profissionais estão agrupadas na Confederação Internacional de Parteiras, que atualmente engloba 88 associações de 75 países. Desde 1992, em todo dia 5 de maio se comemora o Dia Internacional das Parteiras, para destacar seu papel a favor da saúde de milhões de mulheres no mundo. O Casa recruta as estudantes em comunidades rurais, onde a única atenção médica para as grávidas está nas mãos das matronas. Após se formarem, as jovens retornam às suas comunidades com conhecimentos que lhes permitem melhorar os cuidados pré-natais das mulheres. As candidatas pagam mensalmente US$ 45, enquanto a organização subsidia alojamento, material didático e uniformes. Os requisitos para fazer o curso são estudos secundários completos, idade acima dos 18 anos e ser de uma comunidade rural.

Ajudar a comunidade indígena

“Em minha comunidade não há serviços médicos. As mulheres precisam ir até o hospital mais próximo, que fica a 45 minutos de caminhada e outros 40 de ônibus”, contou à IPS Noemí Salazar, uma das alunas que está perto de se formar. Com 26 anos e mãe de dois filhos, Noemi vem de uma comunidade indígena do Estado de Veracruz. O parto assistido por uma parteira reduz a mortalidade materna e infantil e ajuda o nascimento de bebês mais sãos. “Nas comunidades rurais as parteiras são as que salvam as mães e os bebês”, ressaltou Maricruz Coronado.

O México possui taxas de morbidade por gravidez, parto e puerpério (entre seis e oito semanas após o parto) de quase 50%, e de mortalidade infantil neonatal de 22 para cada mil nascidos vivos, segundo dados oficiais. Mais de 51% da população mexicana são mulheres. A mortalidade materna é de 52 mortes para cada cem mil nascimentos. O México conta desde 1993 com uma norma oficial de alcance nacional que regula a atenção à mulher durante a gravidez, o parto e o puerpério, bem como ao recém-nascido.

A profissionalização das parteiras implica sistematizar uma série de conhecimentos tradicionais e complementá-los com enfoques médicos, com o objetivo de reduzir os riscos do parto e garantir a saúde da mãe e do recém-nascido. “É possível melhorar a qualidade com que a mulher é atendida, respeitando seus tempos e necessidades. Transita bem seu período de parto. Além disso, o bebê nasce mais tranqüilo, adaptando-se ao exterior e muito apegado à meã”, explicou Coronado.

A parturiente pode escolher a posição em que dar à luz, deitada de costas, sentada, agachada, de pé ou na água. Durante o processo pode receber sucos naturais, medicamentos homeopáticos e massagens e praticar alguns exercícios. Antes de dar à luz, Marla Vargas fez um curso de seis meses para conhecer o processo em saber com agir durante o parto, no qual teve as companhias da parteira, do marido, da mãe, avo e irmã. “Não me senti cansada ou esgotada nem me separei do bebê”, contou Marla à IPS, ao relatar sorridente sua experiência de cinco horas de trabalho de parto.

No México há cerca de 22 mil parteiras que anualmente atendem mais de 300 mil partos nas comunidades rurais, segundo dados oficiais. Mas, esse número é pequeno, porque se sabe que há um número indeterminado de mulheres não recenseadas.

No ano passado, o Casa atendeu 345 nascimentos e sua meta é aumentar esse número em 2009. No México foram registrados em 2007 mais de 135 mil nascimentos em hospitais públicos e privados. Dados do Instituto Nacional de Estatística, Geografia e Informática indicam que os Estados com maior porcentagem de partos assistidos por parteiras são os Chiapas, Oaxaca, Guerrero, Tabasco e Veracruz, todos no sul, e justamente neles se concentra a pobreza mais grave do país e onde vive a maior porcentagem de integrantes dos 62 povos originários com suas respectivas línguas, e que são 12 milhões de pessoas.

O dom da vida

Antonio Córdova, moradora de San Miguel de Allende, é uma das seis parteiras que ensinam suas futuras colegas e uma das mais antigas integrantes do Casa, onde chegou em 1988. “Comecei nisto por casualidade, como todas as parteiras. Me emocionava fazer esse trabalho e me agradava. Mas, depois vi os riscos que assumia”, contou à IPS. Córdova, cuja filha entrou na escola há três anos e que também trabalha no Casa, já esqueceu de quantos partos participou, mas mantém ainda o assombro diante do que chama de “dom da vida”, que ela ajuda a acontecer sem traumas. No Casa, o programa de estudos é de três anos e inclui matérias como biologia, anatomia e ginecologia, com uma contribuição de conhecimentos e habilidades que lhe valeu a maior pontuação em um estudo de 2006 sobre três modelos mexicanos.

O Instituto Nacional de Saúde Reprodutiva e o Departamento de Obstetrícia, Ginecologia e Ciências Reprodutivas da Universidade da Califórnia (EUA) deram ao programa 85% das 223 variáveis possíveis. O segundo modelo foi o da Escola Nacional de Enfermaria e Obstetrícia, da estatal Universidade Nacional Autônoma do México, que absorveu a formação própria de parteiras sob o título único de enfermagem, que obteve 54%. O modelo da Escola de Medicina, da mesma universidade, conseguiu 45%. “O Casa põe ênfase no trabalho de equipe e nas relações interpessoais. As estudantes mais avançadas ajudam as menos experientes e apóiam a formação de equipes dentro da comunidade de parteiras”, diz o informe.

Ao contrário de países como Chile e Argentina, ser parteira não é uma carreira na educação universitária e enfrenta muitos obstáculos para sua integração aos sistemas de saúde, reconheceu Coronado. “A profissão pode ser massificada e, assim, se conseguir melhores resultados e educar as mulheres”, disse a argentina Débora Clavé, diretora da escola. Originaria da província argentina de Chubut, Clavé chegou ao Casa com voluntária e coordena a instituição desde julho passado.

Além da escola, o Casa maneja outros 10 projetos, entre eles um hospital e uma creche para crianças de dois meses até três anos de idade. Agora, a organização busca abrir centros educacionais semelhantes em Oaxaca, Chiapas e Guatemala, país centro-americano que limita como o México ao sul e onde há cerca de 20 mil parteiras. IPS/Envolverde

Emilio Godoy

Emilio Godoy es corresponsal de IPS en México, desde donde escribe sobre ambiente, derechos humanos y desarrollo sustentable. En el oficio desde 1996 y radicado en Ciudad de México, ha escrito para medios mexicanos, de América Central y de España.

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