Bancoc, 18/05/2009 – Como se não bastasse o martírio que já sofreu, Aung San Suu Kyi, líder do movimento pró-democrático da Birmânia, pode ser obrigada a suportar mais dois anos de detenção por causa da imprudência de um cidadão norte-americano. A prêmio Nobel da Paz, de 63 anos, foi levada ontem cedo de sua casa, sobre o lago Inya, em Rangun, para um tribunal especial instalado na infame prisão de Insein, ao norte da antiga capital do país. Suu e duas de suas empregadas domésticas, Khin Khin Win e Win Ma Ma, foram acusadas no tribunal, famoso por seus procedimentos secretos, de violação das condições da prisão domiciliar a que a dirigente está submetida desde maio de 2003.
Outro acusado na audiência foi John William Yettaw, norte-americano de 53 anos, que alcançou uma duvidosa fama depois de ficar conhecida sua prisão pela polícia birmanesa na semana passada, depois de ficar dois dias, sem ser convidado, na casa de Suu. Yettaw entrou na casa na noite do último dia 3. Havia nadado dois quilômetros através do lago para chegar à residência. Foi detido pelas forças de segurança quando nadava de regresso. Essas ações transgrediram as duras leis de segurança interna ditadas pela férrea ditadura militar. O julgamento, que começará na segunda-feira, pode dar a Suu “três anos de prisão adicionais, segundo o artigo 22 da Lei de Proteção Estatal”, disse seu advogado de defesa especializado em direito internacional, norte-americano Jared Genser. “Condenamos de modo inequívoco esta evidente tentativa da junta de prolongar a detenção de Suu Kyi com uma aparência de legitimidade”, acrescentou Genser em um comunicado.
A lei em vigor de 1975, que entrou em vigor durante a primeira fase da ditadura militar neste país do sudeste asiático, diz que “qualquer pessoa que se oponha, ou resista, ou desobedeça qualquer ordem dada sob essa lei poderá ser submetida a prisão por um período de três a cinco anos”. A intrusão de Yettaw na casa de Suu ocorreu quando a junta ficava sem argumentos para manter fora da cena política a máxima dirigente da Liga Nacional para a Democracia (LND), principal partido de oposição. No ano passado, o regime anunciou que não cederia em sua intenção de manter Suu em prisão domiciliar pelo período máximo previsto, de seis meses, que vence no próximo dia 27. Suu passou mais de 13 anos em prisão domiciliar.
A última fase de sua detenção começou depois que foi atacada, junto com outros dirigentes da LND, durante uma atividade partidária no centro da Birmânia em 2003. a líder pró-democrática é temida pela ditadura por causa de sua grande popularidade em todo o país e pela esmagadora votação da LND nas eleições gerais de 1990, quando a população destinou ao partido 82% das 485 cadeiras no parlamento. Mas o regime não reconheceu os resultados das eleições e obrigou os membros do governo eleito nas urnas a ir para o exílio.
Para evitar um revés semelhante, a ditadura do general Than Shwe promoveu no ano passado uma controvertida Constituição que permite a convocação de eleições para o próximo ano, com muitas restrições a grupos políticos como a LND. Este partido declarou, após uma incomum reunião de sua diretoria no começo deste mês, que sua participação nas eleições dependia da libertação de Suu e mais de 2.100 presos políticos, muitos deles na prisão de Insein, bem como da revisão da atual constituição.
“A junta está criando o clima político necessário para manter Suu detida”, disse à IPS Bo Hla Tint, chanceler do governo da LND no exílio, que funciona na Tailândia. “Desde o começo, a autoridades justificaram sua prisão pela necessidade de protegê-la. Portanto, a falta de segurança cabe às autoridades. Não tem sentido acusá-la por não denunciar o intruso norte-americano que entrou em sua casa”, afirmou Bo. A imprudente peripécia de Yettaw prejudicou as esperanças diante do que parecia uma iminente libertação de Suu, tanto dentro do movimento pró-democrático na Birmânia quanto entre seus simpatizantes em todo o mundo.
Em todos eles predomina um sentimento de profundo desprezo para um homem que diz ser veterano do Vietnã, que supostamente pratica a religião dos mórmons e que disse a birmaneses exilados na Tailândia que estava dedicado a escrever “um livro sobre o heroísmo baseado na fé”. Ele “apresentou-se como simpatizante de Suu. Reuniu-se com gente de organizações religiosas. Não parecia sério”, disse Nyo Ohn Myint, encarregado do comitê de relações exteriores da LND que opera em território birmanes, perto da fronteira com a Tailândia. “Éh possível que tenha agido por conta da junta ou que tenha sido usado por ela, porque nos contaram que um homem birmanês foi quem o incentivou a invadir a residência de Suu”, acrescentou Myint. “Pensávamos que tudo não passava de uma brincadeira, que esse tipo nunca existiu. Foi uma coisa muito grotesca”, acrescentou.
“Por acaso, John William Yettaw considerou as consequências de seus atos:? Por acaso pensou, por um minuto que fosse, que faria mais mal do que bem? Provavelmente não”, escreveu Aung Zaw, diretor da revista The Irrawaddy, publicada na Tailândia por birmaneses no exílio. “Se o regime buscava uma desculpa para manter Suu detida, Yettaw a entregou de bandeja”, concluiu o jornalista. IPS/Envolverde

