ORIENTE MÉDIO: Sandálias do pescador em terreno escarpado

Jerusalém, 06/05/2009 – O papa Bento XVI, que visitará a Jordânia, Palestina e Israel a partir de sexta-feira, como “peregrino da paz”, encontrará uma Terra Santa muito diferente da que seu antecessor, João Paulo II benzeu há nove anos. O pontífice deverá andar com mais cautela ainda do que seu predecessor para evitar campos políticos e religiosos minados. Wadi Abunassar, analista político palestino católico e porta-voz da visita do papa, considera que sua passagem pela região servirá para melhorar as relações inter-religiosas. Mas os conflitos e cruzam, e envolve frágeis vínculos entre judeus e árabes, cristãos e muçulmanos e católicos e judeus.

O Vaticano e o governo direitista israelense de Benjamin Netanyahu, compartilham algo: plena consciência da necessidade de extremar esforços para melhorar a má imagem que eles mesmos projetaram de si próprios, em termos políticos e religiosos. O Vaticano havia cancelado a audiência do papa com o prefeito muçulmano da cidade israelense de Sajanin, Mazen Ghnaim, devido a pressões do novo governo israelense, e só a concedeu na semana passada. Ghnaim é um fervoroso defensor da coexistência entre palestinos e israelenses, mas o ministro do Turismo, Stas Misezhnikov, do partido ultraconservador Israel Beiteinu, havia recomendado publicamente a Bento 16 não receber “terroristas”.

O Vaticano preferiu não acrescentar um novo choque com Israel, especialmente após ter tomado uma série de decisões conflitivas, como o levantamento da excomunhão do bispo Richard Williamson, que nega o Holocausto nazista e que insistiu em suas apreciações ao voltar ao púlpito, o que lhe valeu uma observação eclesiástica. Líderes políticos e religiosos israelenses veem as desculpas papais com receio. Sobretudo porque muitos judeus não esquecem que o pontífice integrou a juventude nazista durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Entre muçulmanos, se recorda um discurso em que Bento 16 citou, em 2006, um texto medieval ofensivo ao profeta Maomé.

Os seguidores do imã anticristo Nazem Abu Salim colocaram uma faixa atravessando a frente da Basílica da Anunciação em Nazaré, um dos locais sagrados da cristandade, com um versículo do Corão: “Quem lastima a Deus e ao seu Mensageiro é maldito neste mundo e mais além, e Deus lhes prepara um castigo exemplar”. Em Nazaré, onde Jesus passou sua juventude, há clara tensão entre muçulmanos e cristãos. As autoridades locais se mostram reticentes em anunciar a retirada do cartaz antes da chegada do papa, que ali rezará missa no dia 14. O próprio pontífice resiste em não promover expectativas pouco realistas a respeito de sua visita. Mas isso é impossível, tratando-se de um papa, pelo menos entre seus fieis, que o consideram uma fonte de esperança.

Esta visita, a terceira de um papa, acontece em um clima muito diferente das anteriores. João Paulo II se propôs, no que chamou Peregrinação do Milênio, criar uma aura de harmonia, mas seis meses depois detonou a dura realidade da intifada (levante popular palestino contra a ocupação israelense). Bento 16 fica agora entre a cruz e a espada. Os povos da região, submersa em um espírito de profunda desilusão não têm expectativa alguma de paz. Todas as promessas nesse sentido parecem condenadas. O papa foi cuidadoso em projetar a visita como uma viagem espiritual, mas sabe que estará marcada pelas onipresentes complicações do mundo terreno.

Muitos palestinos estão desiludidos pela “extremamente tíbia” crítica do Vaticano à guerra de Gaza, entre dezembro e janeiro. O papa não visitara as poucas centenas de cristãos que ainda residem nesse território palestino, e tampouco poderá ver a dureza em que vive a população local. Várias dezenas de cristãos puderam escapar das vicissitudes de Gaza e poderão aclamar o pontífice em Belém, cidade natal de Jesus, na sitiada Cisjordânia palestina. Ali, o papa enfrentará o formidável muro de segurança israelense que cerca a área. Rezará na Igreja da Natividade e visitará o acampamento de refugiados de ainda. Mas o gesto de solidariedade pode não ser suficiente para os sofridos palestinos.

A peregrinação de oito dias terminará no próximo dia 15, coincidindo com a comemoração da perda da maioria das terras e casas dos palestinos pela criação do Estado de Israel em 1948, fato histórico que denominam de naqba (“catástrofe”, em árabe). O representante do papa na Terra Santa, arcebispo Antonio Franco, assegura que Bento 16 não tem intenções de fazer declaraçoes políticas durante a viagem. Mas, mesmo assim não conseguirá escapar do escrutínio público. Embora não queira, suas homilias e palavras de consolo poderão ser traduzidas da linguagem da fé para a linguagem da política. Em uma região onde a desconfiança é a regra, outro momento de extrema sensibilidade será sua visita ao Memorial do Holocausto em Jerusalém (Yad Vashem). A destreza papal em comunicações e na construção de pontes passará, então, por uma dura prova. IPS/Envolverde

Jerrold Kessel

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