Gaza, 15/05/2009 – Os moradores de Gaza usam o termo “zanana”, que significa zumbido em árabe, para descrever o som dos aviões israelenses, uma constante em suas vidas. O humor negro de comparar aviões de guerra com abelhas parece mostrar que as pessoas deste território palestino no mar Mediterrâneo conseguem sobreviver à ocupação, que dura mais de quatro décadas. Mas os aviões lhes recordam seu pior pesadelo, que o ataque se repita. A devastação causada pela Operação Chumbo Derretido, lançada por Israel contra a Faixa de Gaza entre 23 de dezembro e 19 de janeiro, é visível em várias partes desta cidade.
No bairro de Izbet Abed Rabo, um rebanho de cabras caminha por uma rua onde só o que resta das casas são blocos de concreto e vigas amontoadas. O único abrigo para os moradores das casas arrasadas são as barracas de campanha brancas fornecidas por diferentes agências da Organização das Nações Unidas. Doadores internacionais prometeram milhares de milhões de dólares na conferência que realizaram no balneário egípcio de Sharm El-Sheij, em março, a fim de transformar esta paisagem apocalíptica em um lugar para que as pessoas desalojadas possam viver com um mínimo de dignidade. Mas os trabalhos não começaram porque Israel proíbe a entrada de materiais imprescindíveis para a construção.
As consequências psicológicas do ataque são menos evidentes, mas os resultados preliminares de um estudo do programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza, ainda não concluído, indicam que pouquíssimas pessoas, se é que existe alguma, saíram ilesas. Dos 374 meninos e meninas, entre 6 e 16 anos, entrevistados para o estudo, mais de 73% disseram que pensavam que morreriam no ataque. Quase 68% disseram acreditar que haveria outro ataque e 41% expressaram um forte desejo de vingança. Quanto aos adultos entrevistados para esse mesmo estudo, 69% dos pais e 75% das mães consultadas foram diagnosticados com estresse pós-traumático. Entre os sintomas observados, 59% dos adultos ouvidos disseram ter medo da morte, metade deles temia morrer de ataque cardíaco e cerca de 15% temiam contrair câncer pela exposição a armas químicas como o fósforo branco. Além disso, 82% dos pais e mães responderam que seus filhos estavam mais agressivos depois do ataque israelense e 52% disseram que os filhos apresentavam problemas emocionais. “Todo mundo perdeu alguma coisa na guerra”, disse à IPS o porta-voz do Programa de Saúde Mental da Comunidade de Gaza, Hussan El-Nunu. “Alguns perderam amigos e conhecidos, outros perderam partes do corpo e há quem perdeu dinheiro e propriedades, e também há os que perderam a sensação de segurança e proteção. É um sentimento muito forte. Nunca senti a morte tão próxima como durante o último ataque. Não tinha para onde fugir”, afirmou.
Uma caricatura presa em uma parede do escritório de imprensa do governo de Israel em Jerusalém pretende ilustrar a visão oficial, repetida exaustivamente, de que o Estado judeu tem o exército com os melhores valores éticos do mundo. De um lado da fronteira há um general israelense que repreende um subalterno recalcitrante, e do outro lado há um combatente de uma organização islâmica que faz o mesmo com um subalterno. O primeiro diz: “havia uma família, como pôde disparar?”. O segundo diz: “Havia uma família, como conseguiu errar?”. Mas a caricatura israelense não reflete em nada o sentimento majoritário dos moradores de Gaza a respeito de Israel, que acusam de não tomar as devidas precauções para garantir a segurança dos civis.
O estudante de engenharia Majed Abu Salama contou que um amigo de sua família foi morto após sair de sua casa uma tarde em que Israel havia prometido um cessar-fogo temporário. “Foi morto com um foguete quando suas filhas e a mulher estavam em minha casa. Foi horrível”, disse Salama. Antes do ataque já era difícil para a maioria dos habitantes de Gaza atender suas necessidades básicas. Em 2006, pouco depois da surpreendente vitória do Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) nas eleições legislativas palestinas de janeiro, um assessor do governo israelense, Dov Weisglass, disse que os moradores do território tiveram “um encontro com um nutricionista para emagrecerem muito, sem morrer”.
Em 2008, Israel estabeleceu um duro bloqueio econômico e restringiu a entrada de produtos de primeira necessidade e de pessoas que trabalhavam em Israel, depois que o Hamas tomou pelas armas controle deste território em junho de 2007. A pobreza e os números do desemprego aumentaram de forma significativa. Tudo isso afetou psicologicamente as pessoas. A maioria dos palestinos de Gaza precisa de cuidados psicológicos, segundo Khalil Abu Shammala, diretor da Associação de Direitos Humanos Al-Dameer. “É evidente quando se caminha pela rua e se olha as pessoas nos olhos”, afirmou.
“É preciso entender que os habitantes de Gaza sofrem há três anos o assédio israelense. Ninguém pode viajar e não é possível cobrir as necessidades básicas da população. Muitas famílias não têm dinheiro suficiente para dar leite aos filhos”, disse Shamala. “Conheço muitos pais que saem cedo de casa e voltam tarde da noite para não ouvirem os filhos pedindo um sheqel (cerca de US$ 0,24), que não têm para lhes dar”, acrescentou.
Perto do que resta da sede do Conselho Legislativo Palestino, bombardeado no início da Operação Chumbo Derretido, Nahed Wasfy Wshah perguntava aos estrangeiros se podia pedir asilo em seus países. “Meus filhos e minhas filhas continuam com medo. Às vezes acordam gritando à noite nos pedem: papai tire a gente daqui, sempre haverá guerra aqui”. IPS/Envolverde

