ECONOMÍA-EUA: Bancos resgatados executam os pobres

Boston, 21/05/2009 – Poucos meses depois de os contribuintes dos Estados Unidos jogarem uma corda para salvá-los da bancarrota, os grandes bancos agora jogam outra corda para quem está incapacitado de pagar suas hipotecas, mas não exatamente para resgatá-los. Três dessas instituições, Goldman Sachs, JP Morgan e Morgan Stanley, asseguram que voltam a pisar terreno firme e que começarão a pagar o empréstimo feito pelo Departamento do Tesouro em dezembro, quando estavam perto da falência total. Estes bancos obtêm grandes lucros graças à venda de ações e de dívidas e aos altos juros hipotecários, refinanciamentos, empréstimos e cartões de crédito.

Por outro lado, as execuções de moradias em abril chegaram a 342 mil, a maior quantidade alcançada em um mês na história nacional. O desemprego aumentou em uma porcentagem sem precedentes desde 1983: 8,9%. Algumas comunidades, especialmente as negras, apenas sobrevivem. “A crise das execuções e a do desemprego têm um enorme impacto nas comunidades de cor”, disse à IPS Rinku Sem, diretora-executiva do não-governamental Centro de Pesquisas Aplicadas. “Como as crises se concentram muito nessas comunidades, o sistema não presta atenção. Os bancos não enviaram nenhum aviso. Os funcionários locais e dos Estados ainda não começaram nem a se fixar. Ninguém vigiou, apesar dos milhões de prejudicados”, afirmou Sem.

Os bancos e prestamistas hipotecários se voltaram nos últimos anos para potenciais clientes negros e de outras minorias raciais empobrecidas, cobrando taxas de juros mais altas, segundo a Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP). Esta organização, a mais conhecida por sua luta pelos direitos civis da comunidade negra, apresentou demandas contra alguns dos maiores bancos do país, muitos dos quais ajudados pelo resgate do governo. Nove bancos receberam do Tesouro US$ 125 bilhões. No total, o pacote somou US$ 400 bilhões destinados a 586 bancos e companhias de seguros e automobilísticas. O governo obteve em troca ações dessas empresas, em um trato que, segundo muitos economistas, foi um “presente” para os bancos.

“É possível os contribuintes recuperarem seu dinheiro dentro de 10 anos? Sim, mas não muito. Isto é, claramente, um subsídio em massa”, disse à IPS Robin Hahnel, professor da American University. Segundo Hahnel, o assessor em economia do presidente Barack Obama, Larry Summers, e o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, não estão fazendo um bom trabalho em defesa dos contribuintes. “Estão manejando tão mal que deveriam ser demitidos imediatamente. Estão arriscando terrivelmente o país”, afirmou o economista.

“Agora, alguns bancos podem pagar sua dívida porque fizeram dinheiro à moda antiga: pedindo emprestando a juros baixos e emprestados com altas taxas”, disse o professor de economia Timothy Canova, da Faculdade de Direito da Chapman University. Os bancos pediram dinheiro ao governo a juro de quase zero por cento e depois emprestaram a taxas de 5% e 6%, explicou. As entidades que receberam dinheiro do Departamento do Tesouro devem restringir os salários e bônus de seus executivos, além de contratação de não-norte-americanos, mas estas normas foram estabelecidas depois de um escândalo pelo pagamento de bônus milionários em meio à crise.

A principal motivação para a desvalorização do dinheiro é que os altos empregados dos bancos querem começar a pagar bônus a si mesmos. Não querem condicionamentos”, segundo Canova. “Podemos esperar que devolvam o dinheiro, mas também que muitos bancos necessitem de mais fundos no futuro”, acrescentou. Dezenove grandes bancos com mais de US$ 100 bilhões em ativos realizaram novos balanços há pouco tempo, a pedido da Reserva Federal, que concluiu que nove instituições estão bem e as outras 10 precisam de mais US$ 74,9 bilhões, no melhor dos casos, e até US$ 600 bilhões, no pior cenário.

As essas revisões são consideradas pouco realistas por economistas conservadores e progressistas. Para Canova, mesmo o pior cenário parece muito otimista, pois prevê um crescimento econômico pouco provável. “É muito possível que o produto interno bruto continue caindo e que, então, os bancos necessitem do dobro de dinheiro”, afirmou. Além disso, as contas foram feitas pelas próprias instituições. A Reserva Federal, inclusive, pediu que fizessem uma previsão de suas próprias perdas potenciais nos dois cenários. Todo o processo, incluídas as reuniões de revisão com funcionários da Reserva, consumiu 45 dias.

Os 10 bancos que precisam de ajuda podem pedi-la ao Departamento do Tesouro em troca de ações, avaliadas a uma cotação baixa. Mas, também poderão obter dinheiro no mercado, vendendo ações e buscando investidores, segundo Geithner. “Se essas instituições são essencialmente solventes, como sugere o senhor Geithner, parece apropriado que se ponha fim à contribuição com subsídios com dinheiro dos contribuintes”, afirmou na terça-feira a um comitê da Câmara de Representantes o economista Dean Baker, codiretor do Centro para a Pesquisa Econômica e Política.

“Tem sentido estas condições de crédito especiais criadas pela Reserva Federal, enquanto os bancos e outras instituições têm pendentes US$ 2 bilhões em créditos?”, pergunta Baker. Muitos bancos continuarão fazendo muito dinheiro com os cartões de crédito, cujos portadores têm de pagar taxas de juros superiores a 21% ao ano. Está previsto que o presidente Obama assine esta semana um projeto de lei sobre reforma do sistema de cartões. Setenta e oito por cento dos lares norte-americanos possuem, pelo menos, um cartão de crédito, e pagam no total cerca de US$ 15 bilhões anuais em moras. IPS/Envolverde

Adrianne Appel

Adrianne Appel has written for IPS since 2006 about U.S. domestic issues, including the environment, politics and economics. Formerly a politics reporter in Washington, D.C., she now reports from Boston. In 2010 she was awarded a Knight Science Journalism Fellowship.

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