Nova Délhi, 29/05/2009 – A Tata Motors, empresa indiana fabricante do “automóvel mais barato do mundo”, já tem mais de um milhão de pedidos para a primeira partida destes veículos, que estará pronta em poucos meses. A montadora faz parte do conglomerado Tata Group, com atividades em diversos setores como aço, hotelaria, químicos, computação, telecomunicações e energia, entre outros, e faturamento de aproximadamente US$ 60 bilhões ao ano. O automóvel Nano, com motor traseiro, tem capacidade para quatro passageiros. A um preço entre US$ 2.500 e US$ 3.000, sem contar impostos, foi pensado principalmente para o mercado indiano por ser um meio de transporte barato e pouco poluente.
Mas os subsídios, diretos e indiretos, concedidos por vários organismos governamentais à Tata Motors lhe valeram críticas. Ambientalistas e outros ativistas da sociedade civil afirmam que o que fez o governo foi ajudar setores relativamente mais privilegiados do segundo país mais populoso do mundo, com mais de 1,1 bilhão de pessoas. Uma bicicleta é um bem apreciado para os pobres deste país, enquanto a aspiração da classe média é comprar uma motocicleta. O petróleo não é subvencionado de forma direta, mas os donos de automóveis, em geral as classes média e alta, não pagam quase nada para estacionar ou circular. De certa forma, subvencionam o meio de transporte.
O subsídio dado pelo governo de Gujarat à Tata Motors chega a US$ 600 bilhões para instalar sua fábrica nesse Estado indiano, segundo um documento interno preparado por funcionários para o chefe de governo estadual, Narendra Modi, que vazou para a imprensa. “A quantia total do subsídio cobre cerca da metade do preço de mercado do Nano”, disse à IPS Anumita Roy Chowdhury, diretora do não-governamental Centro de Ciência e Meio Ambiente. Diferentes órgãos governamentais oferecem subsídios indiretos aos fabricantes de carros, o que supõe uma discriminação contra os meios de transporte públicos, como os ônibus, afirmou.
O governo estadual vendeu à Tata Motors mais de 445 hectares ao preço subsidiado de US$ 80 milhões, que a empresa poderá reembolsar em oito cotas, com juros de 8% a prazo de dois anos. Tampouco cobraram por deixar de usar terras férteis para a agricultura nem para registrar a marca. Por sua vez, o governo estadual assumirá o custo da construção de estradas, fornecimento elétrico e de gás. Também destinou 40 hectares para construir uma cidade destinada a abrigar os empregados da montadora, nos arredores da capital estadual de Ahmedabad. O governo também ofereceu um empréstimo brando de US$ 1,950 bilhão a juros de 0,1% ao ano para começar o projeto e permitiu que o pagamento do grosso do capital seja feito em mais de 20 anos.
A criação do Nano foi um projeto polêmico desde o começo. O carro não foi concebido para ser o mais barato do mundo, mas para gerar emprego. Em maio de 2006, a Tata Motors anunciou sua intenção de fabricar o nano em Singur, no Estado de Bengala Occidental, governado por uma coalizão comunista há mais de três décadas.
Pouco depois, a empresa e o governo estadual se chocaram com a férrea oposição dos agricultores, os quais alegaram que foram obrigados a entregar suas terras. Inclusive os que venderam de forma voluntária reclamaram maiores compensações. A polêmica em torno do Nano foi encabeçada por Mamata Banerjee, presidente do Congresso Trinamool, que se opõe à Frente de Esquerda que governa Bengala Occidental. A demora levou a companhia a anunciar o adiamento do projeto em setembro de 2008. mas, pouco depois assinava um novo memorando de entendimento com o governo de Gujarat que lhe permitiu adquirir o terreno para instalar a fábrica na localidade de Sanand, perto de Ahmedabad.
O governo de Gujarat pagou a mudança do projeto, US$ 140 milhões, que incluem traslado de máquinas e equipamentos de Singur para Sanand. O governo estadual forneceu 200 quilowatts de eletricidade e exonerou a empresa do pagamento do serviço, além de lhe dar 14 mil metros cúbicos de água por dia, instalações para resíduos perigosos e uma tubulação para levar gás natural. “Podemos comprar um carro porque o governo o paga”, disse Sunita Narain, do Centro de Ciência e Ambiente, na revista Down to Earth. “Não temos de pagar o custo da gestão, o imposto sobre os automóveis é mais baixo do que o dos ônibus”, afirmou.
Tata Group teve várias disputas com ativistas de direitos humanos e ambientalistas. Em janeiro de 2006, a policia de Kalinganagar, no Estado de Orissa, abriu fogo contra manifestantes de uma tribo local e matou várias pessoas. A população indígena protestava contra a construção de um muro dentro de seu território onde o consórcio pretende construir uma fábrica de aço. Em novembro desse ano, sobreviventes da tragédia de Bhopal de 1984 ficaram indignados com a atitude do presidente do conglomerado, Ratan N. Tata, que na qualidade de chefe de um painel governamental se esforçou para resgatar a Dow Chemicals, nova proprietária da Union Carbide, cuja fábrica foi responsável pelos gases tóxicos que mataram milhares de pessoas, o maior acidente industrial do mundo.
O conglomerado também foi criticado por fornecer veículos à ditadura militar da Birmânia. Tata Group também vai instalar uma fábrica de caminhões nesse país com apoio do governo indiano. Após vários protestos de organizações ambientalistas, incluindo o Grenpeace, suspendeu seu plano de construir um porto em Dhamra, em Orissa, que poderia por em risco o maior local de ninho de tartarugas do golfo, uma espécie ameaçada.
Mas o projeto Nano é o empreendimento mais polêmico da empresa indiana. Os defensores do carro afirmam que permitirá a mobilidade social da classe média. Por outro lado, seus críticos pensam que somente aumentará a contaminação e os engarrafamentos e que não deveria ser subvencionado pelo governo. IPS/Envolverde

