Nova York, 08/05/2009 – Um detalhado relatório de 184 páginas questionando o ataque de Israel contra edifícios da Organização das Nações Unidas no território palestino de Gaza foi meticulosamente reduzido a 27 paginas, por razões de segurança e de suscetibilidade política.
“A Comissão é independente. Respeito a total independência do informe. Perguntem aos nossos assessores que trabalharam nele. Não tenho nenhuma autoridade para editar nem alterar nenhuma palavra das conclusões nem das recomendações. Não tenham nenhuma dúvida”, afirmou Ban. A Comissão, integrada pro Ian Martin, Larry Johnson, Sinha Basnayake e pelo tenente-coronel Patrick Eichenberger,devia reunir informação sobre os nove ataques mais graves cometidos contra funcionários e instalações da ONU em Gaza durante a Operação Chumbo Derretido, lançada por Israel entre 27 de dezembro e 19 de janeiro.
A ofensiva contra o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), que controla a faixa de Gaza desde junho de 2007, incluiu artilharia pesada, bombardeio aéreo e ações terrestres. Houve 1.400 mortos e mais de cinco mil feridos, boa parte deles civis. Os israelenses bombardearam vários edifícios da ONU, apesar de ter assegurado ao próprio Ban Ki-moon que não seriam seus alvos. Esses ataques causaram vários mortos e feridos. O custo dos danos chega a mais de US$ 10,4 milhões para a Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinos (Unrwa) e a mais de US$ 700 mil para o Escritório do Coordenador Especial do Processo de Paz no Oriente Médio.
Ban Ki-moon disse que “pretende” cobrar uma indenização ou o reembolso dessas perdas. “Revisei com extremo cuidado as recomendações do relatório para determinar quais medidas terão de ser tomadas pela ONU e por mim mesmo, enquanto secretário-geral, caso seja necessário”, acrescentou. Mas, em uma carta enviada ao presidente do Conselho de Segurança, o embaixador russo Vitaly Churkin, Ban afirmou: “não creio que seja preciso iniciar nenhuma outra investigação formal a respeito, que fique fora dos termos de referência da Comissão”.
Ao ser consultado sobre a possibilidade de outra investigação, Ban respondeu: “neste momento não considero necessário solicitar outra investigação. Agirei caso por caso segundo as situações e quando for oportuno”. O secretário-geral também informou que o governo de Israel lhe disse que tinha “objeções e reservas significativas’ sobre certos elementos do relatório da Comissão Investigadora. “Estamos muito decepcionados com a reação do secretário-geral, segundo o que pudemos saber” do informe, disse à IPS a representante da organização Anistia Internacional na sede da ONU, Yvonne Terlingen, para quem “o secretário-geral parece dizer à Comissão: muito obrigado, mas não vamos fazer mais nenhuma pergunta”.
A Comissão Investigadora afirmou que, diante de algumas ações militares do exército israelense, “não pode aceitar que foram feitos os esforços suficientes nem que tenham sido tomadas as precauções necessárias para cumprir as responsabilidades do governo sobre a inviolabilidade e a não interferência com instalações da ONU e a proteção dos civis e objetivos civis dentro de seus locais”. Também concluiu que o exército de Israel agiu com diversos graus de negligencia e imprudência em relação às instalações da ONU e à segurança de seus funcionários e outros civis que se encontravam nelas, ou que deixou várias pessoas mortas e feridas, além de danos e destruição de propriedade.
Quanto à escola de Jabalia da Unrwa, a Comissão concluiu que “as precauções que o exército israelense possa ter tomada quanto às instalações da ONU foram inadequadas. A responsabilidade das partes pelos civis assassinados e feridos fora da escola deve ser analisada pelas normas e pelos princípios do direito humanitário internacional, e requer uma investigação específica”, diz o relatório. O exército de Israel defendeu suas ações alegando que foram em resposta a disparos de morteiros lançados pelo Hamas desde a escola e que combatentes do movimento islâmico estariam escondidos no estabelecimento ou haviam ocupado o local.
O informe conclui que “essas declarações são falsas, feitas quando já se sabia que eram falsas, e não foram retiradas, como corresponderia, nem houve desculpas públicas”. A Comissão Investigadora diz que no momento de redigir seu relatório, o argumento dos disparos a partir da escola da Unrwa “permanecia no site do Ministério das Relações Exteriores” de Israel. IPS/Envolverde


