ÁFRICA DO SUL: Finalmente Possuem a Terra que Têm Cultivado

Cidade do Cabo, 08/06/2009 – Banhada com a luz do sol numa manhã fria de outono, Welgemeen, exploração agrícola no distrito de Ceres, no Cabo Ocidental, é um exemplo notável da reforma agrária na África do Sul, que tem sido caracterizada por altos e baixos. Parte da exploração agrícola pertence aos primos Robert e Peter Graaff (com 20 por cento cada um), enquanto que a maior participação (60 por cento) pertence a 210 pessoas afectadas de forma negativa pela história colonial e pelo apartheid na África do Sul. Os primos são os descendentes de uma família de agricultores bem conhecida que lavra a terra há três gerações.

No geral, o processo da reforma agrária na África do Sul não tem sido uma história de sucesso.

Desde o processo de transição democrática em 1994, alguma terra agricola tem sido transferida para requerentes negros como parte de um processo de restituição (tendo como base uma reivindicação histórica a terras de onde os reclamantes ou os seus antepassados foram expulsos) ou de redistribuição (os requerentes recebem subsídios do governo para adquirir terra).

Porém, grandes extensões de terra têm sido mal geridas e não estão a ser cultivadas. Isto deve-se a diversos factores, incluindo a falta de apoio por parte dos agricultores existentes e do governo que não providencia formação, e a falta de sementes e fertilizantes. Os novos agricultores ficam desmoralizados e abandonam as terras quando não conseguem lidar com as exigências da agricultura e os seus custos.

Mas Welgemeen está a prosperar. “Os novos proprietários de Welgemeen estão a ser treinados por agricultores comerciais que têm sido bem sucedidos. Visto que detêm uma participação na exploração agrícola e nas suas infraestruturas, estão determinados a vencer”, disse Robert Graaff.

Graaff recebeu o prémio de Jovem Agricultor do Ano em 2007, prémio concedido pela AgriSA, a associação dos agricultores da África do Sul.

Welgemeen está localizada perto de uma outra exploração agrícola que pertence aos primos Graaff – a exploração comercial de Lushof. Quando Welgemeen foi posta no mercado há três anos, apressaram-se a comprá-la.

“Algumas das famílias dos acionistas têm estado ligadas à nossa família durante décadas. Welgemeen é uma forma de devolver algo (à comunidade)”, explicou Graaff.

Jacobus Mietas é um dos acionistas. Está em Welgemeen há quase quatro anos, desde o início do projecto.

Nasceu na cidade de Ceres, localizada bem perto, depois de ter vivido e trabalhado na área de Witzenberg durante toda a vida. Aproveitou esta oportunidade para se tornar um dos proprietários da terra quando surgiu a iniciativa de Welgemeen há mais de três anos. “Pensei que era uma boa ideia sermos nós os proprietários”, declara Mietas.

O modelo que foi seguido foi o de conseguir um número suficiente de membros de comunidades desempossadas que se unissem e tivessem interessados em fazer parte deste projecto.

Cada pessoa teve direito a um subsídio governamental para adquirir a terra. Juntou-se essa quantia num fundo comum o qual, juntamente com ajuda financeira adicional, atingiu 60 por cento do preço de compra. Os primos Greeff apresentaram os restantes 40 por cento.

Obtiveream-se fundos adicionais, e outras formas de apoio, para se constituir a exploração agrícola. Por exemplo, o departamento de agricultura – através do seu programa inclusivo de apoio agrícola – ajudou a adquirir os novos equipamentos necessários para que se tornasse um negócio viável.

Hoje, 130 hectares de Welgemeen estão a ser plantados com pomares de citrinos e frutos decíduos – incluindo damascos, pêssegos, nectarinas e peras. Esperam colher 3.5 toneladas de fruta esta estação, 70-90 por cento da qual se destinará ao mercado de fruta seca.

A maior porção da colheita vai ser exportada – para a Europa (principalmente o Reino Unido), Médio Oriente, América do Norte e Extremo Oriente. O resto da produção é vendida a grandes retalhistas locais, como o Woolworths e a Associação Sul Africana de Frutos Secos. Ambas estas organizações são clientes exigentes, que só aceitam produtos de alta qualidade.

Greeff explica que Welgemeen é reconhecida oficialmente pela gigante cadeia retalhista do Reino Unido, a Tesco. “A exploração agrícola tem de ser gerida segundo princípios comerciais. A nossa maior preocupação é a sustentabilidade”.

Dos 210 acionistas negros, 18 trabalham em Welgemeen permanentemente. Os outros trabalham noutras fazendas que pertencem aos Graaffs ou são trabalhadores noutros locais. Todos os lucros alcançados até agora têm sido injectados em Welgemeen.

“Explicámos desdo o início que não iríamos pagar dividendos durante alguns anos. É preciso engordar a vaca antes de se extrair o leite. Todos concordaram”, afirmou Graaff.

“O aumento do valor da fazenda também tem de ser levado em linha de conta. O seu valor triplicou nos últimos três anos. Enquanto que a porção de cada acionista valia 3.467 doláres no início, agora vale 10.760 doláres”.

Greeff afirma que tem de haver um elevado nível de confiança mútua entre os acionistas e os trabalhadores para fazer vencer um projecto como Welgemeen. "É um pau de dois bicos. Ajudamo-nos uns aos outros. É preciso ser-se totalmente transparente’’

Os livros de Welgemeen são auditados por uma firma de contabilidade, a PricewaterhouseCoopers (PWC). O conselho administrativo de Welgemeen reúne-se quatro vezes por ano, e há também uma assembleia geral anual de acionistas. Os Greeff são membros do conselho administrativo, juntamente com os outros acionistas, que operam através de representantes das duas companhias fiduciárias que foram criadas. As decisões políticas abrangentes referentes à direcção estratégica do negócio são aprovadas durante as reuniões do conselho administrativo.

Greeff tem uma licenciatura em ciências agricolas da Universidade de Stellenbosch, perto da Cidade do Cabo.

O capataz da fazenda é Hubert Roux. Também tem formação universitária em agricultura. “As pessoas aqui estão positivas. Toda a gente coopera para o bem comum”, diz em tom animado. Mietas concorda: “Todos temos um interesse nisto”.

Além dos acionistas, outras 68 pessoas trabalham na fazenda a tempo inteiro, existindo também outros 100 trabalhadores contratados. Estas oportunidades de trabalho ajudam a aliviar o pesado fardo do desemprego na área.

Sofia Muller, que empacota fruta na exploração, disse à IPS: “Sustento uma família com cinco pessoas. É difícil sobreviver porque existem muito poucas oportunidades de emprego nesta área”. Recebe cerca de 15 doláres por dia durante o periodo de empacotamento da fruta – um rendimento que é crucial para uma família pobre.

Para Mietas, o seu investimento na fazenda traduz-se num tipo de vida sustentável. “A agricultura está no meu sangue. Esta fazenda é um investimento no futuro dos meus filhos”.

Stephanie Nieuwoudt

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *