MASERU, 01/06/2009 – Um centro de saúde num dos distritos mais pobres do Lesoto conseguiu um significativo sucesso na implementação do programa de prevenção da transmissão de VIH de mãe para filho (PMTCT), mas especialistas de saúde avisam que diversos factores, incluindo as crenças culturais e o estigma, ameaçam pôr em perigo esse êxito. “Foi a mais difícil decisão que tive de tomar na minha vida, mas sabia que tinha de tomá-la para bem do meu filho ainda não nascido. O aconselhamento que recebemos antes dos testes também nos ajudou”, recordou Nthabiseng Rannyali, de 24 anos, que decidiu submeter-se ao teste de VIH para proteger o filho que ainda não tinha nascido.
Rannyali, cujo teste de VIH teve um resultado negativo, pertence a um grupo de mães grávidas aconselhadas pelos médicos do Hospital da Missão de St James Mantsonyane, no distrito de Thaba Tseka, localizado a cerca de 200 quilómetros da capital do Lesoto, Maseru, a submeterem-se ao teste de VIH.
O distrito dos serviços de saúde de Mantsonyane é um dos mais pobres do Lesoto, onde apenas cerca de 15 por cento dos residentes tem acesso a emprego remunerado. A maioria tem de sobreviver da agricultura e de projectos comunitários ocasionais geridos pelo governo e, às vezes, por organizações não governamentais (ONGs).
O hospital da missão supervisiona uma rede de nove estabelecimentos de saúde que servem de 64.000 pessoas, numa área com 2.000 quilómetros quadrados.
O programa PMTCT faz parte da iniciativa do governo do Lesoto de acelerar o acesso universal à prevenção, tratamento, cuidados e apoio ao VIH até 2010. O objectivo é aumentar o número de mulheres seropositivas que recebem um tratamento profilático completo com medicamentos anti-retrovirais, com vista a reduzir em 80 por cento o risco de transmissão de mãe para filho.
O pessoal de saúde afirma que a resposta dada ao programa PMTCT do Lesoto é encorajadora. Os estabelecimentos que ministram o PMTCT aumentaram de nove em 2004 para 166 no final de 2008. De acordo com as estatísticas do Conselho Nacional para a SIDA em 2009, o número de mulheres que receberam PMTCT e o subsequente tratamento anti-retroviral aumentou de 421 em 2004 para perto de 5.000 no final do ano passado.
Contudo, as clinicas começaram a enfrentar vários desafios inesperados. Os principais são as crenças culturais e o estigma associados ao VIH e à SIDA.
O coordenador de saúde primária no Hospital da Missão de St James Mantsonyane, Khanyane Mabitso, afirma que o estigma e as crenças culturais tornam difícil ao pessoal médico continuar a fazer o acompanhamento das mulheres seropositivas e seus bebés.
“Ainda há muito que fazer depois do parto. Temos de continuar a aconselhar as mães no que diz respeito a higiene pessoal, nutrição, consumo de drogas e outros assuntos, mas algumas mulheres desaparecem logo depois do parto quando sabem que são seropositivas”, explicou.
“Devido ao estigma associado a esta doença, elas têm receio que as pessoas na sua comunidade venham a saber da sua condição e as despresem”, disse Mabitso.
Além do estigma, as crenças culturais impedem as mulheres de regressarem à clínica, onde sabem que os trabalhadores de saúde as irão aconselhar a não exporem os filhos a ritos tradicionais e aos medicamentos feitos de ervas. Por exemplo, algumas mulheres alimentam os seus bebés recém-nascidos com ervas para os tornarem mais fortes, ao passo que outras acreditam que alimentar ou dar banho aos bebés com arbustos os ajuda a lutar contra as doenças e os protegem dos ataques de bruxas.
Um mito local diz que se um bebé recusar o peito da mãe, esta cometeu adultério durante a gravidez. Devido a isto, as mães seropositivas têm relutância em escolher fórmulas de alimentação dos bebés.
As mães seropositivas que dão à luz bebés seronegativos devido ao PMTCT são aconselhadas a alimentar os seus bebés com biberão, devido ao elevado risco de infecção que a amamentação traz.
“Existe um elevado nível de analfabetismo nesta área, e nós esforçamo-nos por assegurar que as mães saibam escolher (entre a amamentação ou fórmulas de alimentação dos bebés) e ainda como usar as fórmulas de leite”, disse Mabitso à IPS, acrescentando também que muitas mulheres continuam a ignorar os conselhos dos trabalhadores de saúde, alternando entre as duas maneiras de alimentar os bebés, muitas vezes devido à pressão exercida pelas mulheres mais velhas da família que pensam que sabem mais.
No lado positivo, um crescente número de mulheres, como Rannyali, compreendem agora a necessidade de se submeterem ao teste de VIH quando engravidam para proteger os filhos que ainda não nasceram.
A introdução do PMTCT no Hospital da Missão de St James Mantsonyane também ajudou a “promover as mensagens de prevenção do VIH em muitas comunidades que fazem parte da área dos serviços de saúde”, segundo Ascension Martinez, consultora independente. O programa também encorajou as pessoas a participarem em aconselhamento e testes voluntários e a fazerem parte de grupos de apoio.
“Podemos dizer agora, com segurança, que um maior número de pessoas tem informação sobre o VIH e a SIDA devido à educação e formação, mas ainda é difícil avaliar a influência (do programa) na mudança de comportamentos”, observou Martinez.
O Conselho Nacional para a SIDA do Lesoto planeia implementar o programa PMTCT em todos os 128 concelhos distritais do país nos próximos anos.

