MUDANÇA CLIMÁTICA-EUA: Governo passa recibo

Washington, 18/06/2009 – Ferozes ondas de calor e incêndios no oeste dos Estados Unidos, grandes tempestades costeiras e perturbações nos sistemas de energia, água e transporte são alguns dos muitos impactos da mudança climática previstos pela Casa Branca. O informe “Impactos da mudança climática nos Estados Unidos: um renovado objetivo para as decisões” foi a primeira admissão oficial científica do governo de Barack Obama de que o problema já afeta a população do país. “Demoramos oito anos para sintetizar 21 estudos individuais e de 13 agências federais, com a ajuda de numerosas organizações independentes e universidades”, disse à IPS Rick Weiss, porta-voz do Escritório de Ciência e Tecnologia do Presidente.

Embora não inclua recomendações políticas específicas, o informe de 188 páginas apresentado terça-feira no Congresso, diz que “implementar reduções consideráveis e sustentadas nas emissões de dióxido de carbono o mais rápido possível reduziria sensivelmente o ritmo e a magnitude da mudança climática, e seria mais efetivo do que iguais reduções, porém iniciadas mais tarde”. O estudo confirma empiricamente a existência de um aquecimento global induzido pela ação humana, algo que o antecessor de Obama, George W. Bush, questionou notoriamente. Os autores também previram efeitos devastadores em cada área da vida nacional, desde a produção agrícola até a saúde pública.

“Veremos mudanças nos Estados Unidos e no mundo”, disse Carter Roberts, presidente do não-governamental Fundo Mundial para a Natureza (WWF). “Se olharmos a costa (norte-americana) do Golfo (do México), combinação do aumento do nível do mar e a maior quantidade de chuvas” implicará uma perda de 3.345 quilômetros de estradas e de “27% da superfície das principais cidades da área”, afirmou. O informe constata, após medição das temperaturas medias por estação em cada região do país, aumento nos últimos 50 anos. “Nas próximas décadas, o clima no Estado de New Hampshire (noroeste) se parecerá com o da Carolina do Norte (oeste). Temos de estar preparados”, ressaltou Roberts.

O estudo enfatiza o aspecto “global” do aquecimento, destacando que em alguns anos certas áreas poderão ser significativamente mais frias do que em anos anteriores. Porém, a tendência geral na última metade de século foi de temperaturas cada vez mais elevadas. Outra constatação do informe é que, provavelmente, o impacto da mudança climática continuará se acelerando. Embora no século passado as temperaturas médias nos Estados Unidos (que cobre quase 10 milhões de quilômetros quadrados e contém diversos ecossistemas ) tenham aumentado cerca de 1,5 grau, projeta-se para o próximo século que aumentem até 11,5 graus.

A elevação de um ou dois graus pode parecer insignificante, mas Weiss disse à IPS que é justamente o contrário. “Soa pequeno, mas é bastante significativo em relação aos estragos que causa nos ecossistemas”, afirmou. Entretanto, o aquecimento literal não é o único aspecto meteorológico que experimenta mudanças devido à contaminação. As chuvas aumentaram e a tendência mais clara fica exposta na frequência e severidade de fortes precipitações, causadoras de inundações. O estudo mostra aumento de 7% nas chuvas leves e moderadas e de 20% ns quantidade de água caída com chuvas mais pesadas durante o século passado.

O WWF alertou que a combinação do aumento das temperaturas e das chuvas terá vários impactos. Na medida em que as temperaturas aumentam, por exemplo, certas pestes sobrevivem aos invernos em maior quantidade. O escaravelho dos pinheiros, que se alimentam destas arvores, já não morrem devido às gélidas temperaturas, o que acelera a destruição florestal do Pacífico noroeste. Algumas das mudanças mais significativas estão ocorrendo no Estado do Alasca. Segundo Margareth Williams, que coordenou os estudos do WWF, as regiões árticas mudam mais rapidamente do que qualquer outra parte do planeta.

No Alasca, as temperaturas aumentaram, em média, seis graus, e as estações sem geadas aumentaram 50%. “Até 2013, esperamos ver um inverno sem gelo. Os impactos sobre a sociedade serão enormes. Por exemplo, obtemos do mar de Bering mais da metade de nosso pescado, no valor de US$ 2 bilhões ao ano”, disse Williams. O WWF descobriu que as reservas pesqueiras na região mais pródiga do mar de Bering caíram 40% desde 2004. Williams disse que, na medida em que se derrete o permafrost (camada permanente de gelo), a infra-estrutura que antes suportava esse elemento fica em sério risco. Estima-se que no Alasca, onde boa parte da população depende de aviões pequenos para ter acesso a bens e serviços, até 2025 a reparação de casas, estradas e pistas de pouso custará US$ 7 bilhões.

Anne Schrag, que dirigiu os estudos o setor norte das Grandes Planícies, destacou o impacto sobre a agricultura. “Os rendimentos foram muito afetados. Os agricultores estão reduzindo os campos de cevada, um dos alimentos básicos, porque dependem da irrigação, mas as secas estão dificultando”, afirmou. Por sua vez, isto reduzir a capacidade da terra de alimentar o gado, e o pastoreio excessivo reduz ainda mais a fertilidade dos solos. Schrag também assinalou um importante aumento na população de mosquitos, e junto com isto a transmissão de doenças tropicais como o vírus do oeste do Nilo.

Apesar do obscuro prognostico do informe da Casa Branca, nem todas as notícias são más, segundo o WWF: “Temos estratégias agrícolas e pecuárias sustentáveis e enormes recursos em tecnologias eólica que são animadores. A questão é que devemos usá-los”, disse Schrag. “A oportunidade é importante, porque este é precisamente o momento em que o Congresso está considerando legislação sobre meio ambiente e energia”, disse Robert. “Mas, na medida em que o tempo passa, somente irá demorar mais abordar este tema”, acrescentou. IPS/Envolverde

Correspondentes da IPS

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