COMUNICAÇÕES-AMÉRICA LATINA: Nova visão da brecha digital

Caracas, 12/06/2009 – Superar a brecha digital, entre incorporados e excluídos das novas tecnologias da informação e comunicação (TIC) na América Latina e no Caribe requer novos enfoques sobre os recursos disponíveis e a luta contra a pobreza, concluíram pesquisadores na capital Venezuela. “Programas de organizações internacionais indicam que a região avançará na medida em que incorporar mais tecnologias, mas isso não é verdade, devido às desigualdades sociais e à diversidade cultural”, disse à IPS Erick Torrico, diretor de pós-graduação em jornalismo na Universidade Andina Simón Bolívar, da Bolívia.

Entre os que postulam essa visão citou a Organização das ações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), a Organização de Estados Americanos (OEA) e a União Internacional das Telecomunicações (UIT). Torrico preside a Associação Latino-americana de Pesquisadores da Comunicação, organizadora do encontro sobre TIC que terminou quarta-feira, em preparação à sua assembléia desta semana em Caracas. O eixo de sua tese é que os latino-americanos “devem rejeitar o determinismo tecnológico”.

O especialista recordou cifras – com base em estatísticas da Cepal e da UIT – sobre a persistência da brecha digital na região, como o consumo de cem minutos mensais de telefone representar 2% da renda de um habitante do Norte industrializado contra 26% da renda de um latino-americano. A maioria da população da América Latina e do Caribe tem acesso a meios tradicionais (em 14 países, de 6A maioria da população da América Latina e do Caribe tem acesso a meios tradicionais (em 14 países, de 63% a 94% dos lares têm televisão, segundo a Cepal) enquanto apenas 20% utilizam a Internet e nas escolas, embora exista um computador para cada 30 estudantes (Chile), pode haver 479 alunos por equipamento (El Salvador).

“Mas, desde Túnis (Cúpula da Sociedade da Informação, 2006) se propõe que a gestão das TICs, e em particular da Internet, deve ser múltipla e democrática, e se antes olhávamos cifras de conectados e não-conectados, agora vemos fatores com maior complexidade”, disse Torrico. Estes atores seriam “a persistência de desigualdades sociais que podem aprofundar com uma cópia dos padrões do capitalismo avançado, e a diversidade cultural velada, pois, salvo o quéchua, quase nenhuma outra língua indígena é manejada na Internet”, afirmou. Também acredita que se deve olhar, no caso da Internet, a qualidade da conexão e a escassa produção regional de conteúdos e equipamentos de comunicações.

Migdalia Pineda, professora emérita da venezuelana Universidade del Zulia, disse que “sem inclusão social e projetos de desenvolvimento pela qualidade de vida das pessoas tampouco se pode conseguir a inclusão digital”. Fala-se de “brecha e de exclusão digital como se fosse apenas, ou principalmente, um problema técnico, quando, na realidade, o mais importante são as opções para que as sociedades e os indivíduos tenham acesso às TICs e se apropriem delas”, disse Pineda.

Saadia Sánchez, professora na Universidade Central da Venezuela e diretora da Rede de Informação e Conhecimento, do sistema Econômico Latino-americano (sela), destacou que “os fatores de apropriação das TICs pela sociedade e as pessoas expressam a brecha digital, dão uma nova dimensão à exclusão social e marcam uma nova assimetria dentro da região e entre a América Latina e o Caribe e outras regiões do mundo”. A “democratização das TICs exige políticas publicas e coordenação entre nossos Estados que revertam as assimetrias, para fomentar a produção de conteúdos, desenvolver a indústria do software e promover espaços de apropriação social das TICs, como são as escolas, os infocentros e as bibliotecas”, disse Sánchez.

Para Cosette Castro, professora de Comunicação em universidades brasileiras, “o importante é ter os olhos muito abertos, diante das oportunidades que se abrem para que as comunidades se apropriem das TICs, desde a Internet e os celulares até as rádios digitais e mesmo os videojogos, e produzam conteúdos sobre seus interesses e pontos de vista”. Deu como exemplo que “jovens das favelas do Rio de Janeiro estão produzindo conteúdos para telefones celulares e televisão digital sobre seus interesses de informação e esportes, como nano-vídeos, de 15 segundos, nos quais o requisito é contar uma historia”.

“As pessoas podem aprender a dar um uso maior e melhor às TICs que utiliza, a consertar um computador ou um celular, e na região devemos aproveitar a passagem da televisão analógica para a digital, que ampliará o espectro e permitirá a comunicação de retorno”, disse Cosette à IPS. Os jovens já trabalham muitas de suas coisas na rede, destacou. “As pessoas de mais idade devem ir um pouco mais rápido”, afirmou. Para a especialista, “não é uma mudança fácil, mas nossos povos têm um acúmulo de historia, cultura, tradições, interesses e diversidade que pode nos levar a uma maior e mais intensa produção de conteúdos, com os quais preparar programas de alimentação, meio ambiente, saúde, educação e enfoques de gênero, isto é, combater a pobreza”.

Como exemplo citou o programa regional e-LAC (da sociedade da informação, da Cepal), “com o objetivo de que em cada país possamos desenvolver um centro nacional de produção de conteúdos, que se agrupem em um centro regional para intercambiar essas produções, incentivar a produção de software para conteúdos e, por que não, exportá-los para outras regiões do mundo”. IPS/Envolverde

Humberto Márquez

Humberto Márquez fue corresponsal de IPS en Venezuela entre 1994 y 1996, y retomó esa labor en 2002. Fue corresponsal de Agence France Presse para Venezuela y el Caribe entre 1977 y 1992, y redactor de la sección internacional del diario El Nacional de Caracas entre 1997 y 2002. Periodista venezolano, graduado en Comunicación Social (1982) por la Universidad Central de Venezuela, durante más de 30 años ha cubierto y descrito el acontecer político y económico de Venezuela, su sociedad y su condición de encrucijada en procesos de integración y cambio en América Latina y el Caribe.

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