Havana, 23/06/2009 – As tensões econômicas de Cuba aumentam as preocupações familiares no começo do período de férias, quando cresce a demanda por alimentos, transporte e energia elétrica, todas as áreas sob impacto de reduções devido às dificuldades agravadas pela crise global. “Logo terei todos em casa, pedindo comida, querendo ir à praia, gastando mais luz. Não é fácil”, contou à IPS uma mulher na fila dos ovos “por la libre”, com se chama a venda em moeda nacional fora da distribuição racionada. “Meus filhos estão internos, mas em poucos dias sairão de férias”, acrescentou.
Sua preocupação é compartilhada por boa parte da população deste país, de 11,2 milhões de habitantes, que nos anos 90 viveu os rigores do chamado “período especial”, após a queda do campo socialista e do fim da União Soviética. Em declarações ao jornal Juventude Rebelde, o ministro da Economia e do Planejamento, Marino Murillo, admitiu no domingo que se desenha um “plano de consumo” em termos de alimentação, sobre um estimado de 3.100 quilocalorias, superior as recomendação diária de 2.400.
“Mas independente desta e outras garantias, inevitavelmente se sentirá as restrições no consumo”, acrescentou Murillo. Embora sem explicar, supõe-se que o cálculo seja feito com base na cesta básica que a preços subsidiados é distribuída a cada cidadão mediante a caderneta de abastecimento racionado. Esse sistema vigente desde 1962 entrega a cada pessoa certa quantidade de arroz, feijão, açúcar, óleo, ovos, alguma proteína, pasta dental e sabão, entre outros produtos. Segundo alguns estudos, esses alimentos garante cerca de 36% das calorias diárias por pessoas e dão para aproximadamente 12 dias ao mês.
As proteínas – rações de frango, pescado ou carne moída bovina misturada com soja – não chegam para mais de 10 dias e as gorduras para nove, segundo pesquisas de economistas. Também existem dietas especiais para grupos vulneráveis, como mulheres grávidas, lactantes e doentes com diferentes patologias. Para completar suas necessidades, os consumidores devem ir aos “mercados livres agropecuários” (MLA) que a preços altos oferecem, em moeda nacional (o peso) alimentos de boa qualidade. A outra opção são as Tendas Arrecadadoras de Divisa (TRD), que fornecem alimentos que não constam da caderneta.
Pelo que se sabe, a partir deste mês foram eliminadas cotas adicionais de grãos que eram distribuídos desde 2004 a consumidores da capital e províncias da região oriental do país, como parte de um plano de reajuste de gastos que incluem redução no consumo de eletricidade e adiamento de alguns investimentos e de compras externas. De acordo com meios oficiais, a contração do crédito em nível mundial, devido à crise financeira global, aumentou as dificuldades de Cuba para conseguir empréstimos, e também podem diminuir este ano em mais de US$ 1 bilhão a renda com o turismo e a exportação de níquel.
“É preciso reajustar o plano de crescimento, o que implica reduzir consumos como o da energia elétrica, e, em consequência, de combustível. Porque o país não pode tirar do bolso mais do que entra”, reconheceu o vice-ministro de Economia e Planejamento, Julio Vázquez Roque. Para especialistas, é “imprescindível priorizar os investimentos estratégicos” e aqueles que permitem criar capacidades para reduzir importações, como no caso da agricultura, cujo desenvolvimento requer sistemas de irrigação, fertilizantes e outros insumos.
A compra externa de alimentos exigiu em 2008 desembolso em torno de US$ 2,5 bilhões, devido, entre outras razões, à baixa produtividade do campo cubano e às aquisições de emergência destinadas a minimizar o impacto dos três furacões que açoitaram o país, com perdas estimadas oficialmente em US$ 10 bilhões. O país recebeu de janeiro a maio 1,2 milhão de turistas, 2,1% a mais do que em igual período do ano passado, mas os visitantes deixaram menos dinheiro. Dados oficiais indicam que a captação de divisas desse setor caiu 13,7% durante os três primeiros meses do ano.
Somente a queda dos preços do níquel no mercado internacional, que passou de US$ 33 mil a tonelada em 2007 para pouco mais de US$ 15 mil atualmente, significará para Cuba receber US$ 720 milhões a menos do que em 2008. Também há redução da renda com menores exportações do tabaco, lagosta e camarão. Nesse contexto, o governo de Raúl Castro aplicou ao setor estatal um drástico corte no consumo de energia elétrica, em cuja geração se gasta aproximadamente 50% do combustível importado. Meios oficiais dizem que isso não fosse feito ficaria comprometida a capacidade de compra de alimentos e remédios.
No entanto, para o setor agropecuário, submetido ao desafio de produzir para diminuir as importações de alimentos, o primeiro quadrimestre foi instável, com altas nas colheitas de batata e tomate e queda em itens tão importantes para a mesa familiar cubana como carne de porco e ovo, para citar os casos mais representativos. As autoridades esperam por em marcha a partir de agosto um sistema que busca evitar a perda de produções agrícolas por falhas e carências de todo tipo na compra estatal e posterior venda aos consumidores. A reorganização passa a comercialização do ministério da Agricultura para o de Comércio Interno, mas tem seus críticos mesmo antes de ser aplicada.
“Ver para crer, mas não acredito que se acabará com a burocracia. Quanto a mim, me obrigam a vender ao Estado, em lugar de vir aqui direto com meus produtos, não trabalho mais. Com 63 anos, já posso descansar”, disse à IPS um camponês dos arredores de Havana que oferece diariamente em um mercado urbano uma variedade de vegetais de boa qualidade, embora a preços mais altos do que a média. Por outro lado, especialistas temem que a crise comprometa as necessárias reformas na agricultura que vão desde a descentralização administrativa e o fortalecimento dos municípios na organização e tomada de decisões, até à entrega de terras ociosas, sob regime de usufruto, com o fim declarado de aumentar a produção.
Segundo estimativas do vice-ministro da Agricultura, Alcides López, até agora somam cerca de cem mil pedidos “recebidos e tramitados” e já foram entregues 38% do fundo ocioso, do qual 20% já estão em exploração ou semeados. A pergunta agora é se haverá recursos para que estes novos camponeses produzam. IPS/Envolverde

