Buenos Aires, 29/06/2009 – A primeira novela de uma escritora argentina, narrada por uma personagem que foge do estereótipo de literatura feminina, despertou as mais virulentas desclassificações sexistas em âmbitos – a priori – insuspeitos desses preconceitos, com a crítica literária e os leitores instruídos.
“O livro gera violência verbal e agitação sexistas justamente porque não lida com temas associados com a “literatura feminina”, mas faz crítica sociológica com erudição e ironia, que são valores supostamente masculinos”, concluiu.
O “caso Póla” é emblemático, mas não o único. A professora de Letras da Universidade de Buenos Aires Elsa Drucaroff, autora de ensaios e novelas e crítica da produção de jovens escritores argentinos, explicou à IPS que o escândalo emerge quando uma autora “salta sai dos bastidores”.
O estereótipo diz que “a escritora fala de si mesma e de seus amores”, ironizou. Nesse esquema, também há uma literatura de mulheres independentes. É a versão “chick-lit” (literatura de moças), que mostra mulheres glamorosa e autônomas, com seu paradigma de mercado na série norte-americana “Sex and the City”.
Mas se as autoras fogem desse nicho em qualquer de suas versões, começam as desqualificações. “Não se leva a serio a literatura feminina”, afirmou Drucaroff, “quando é boa, dizem que parece escrita por um homem”.
Para a especialista, os preconceitos sexistas no âmbito literário agora são vergonhosos e se ocultam por trás de certa crítica literária, mas têm uma longa tradição.
Recordou que em 1939 o autor uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994) escreveu que com as “duplamente belas letras femininas” ocorria algo curioso. “Antes as mulheres se dedicavam quase exclusivamente à poesia. Cantavam o amante, Deus, as árvores, os recém-nascidos”, afirmou.
“Cada comarca tinha sua poeta oficial e todos muito contentes”, recordava Onetti com nostalgia, quando descobriu mulheres que “não se conformavam” com sonetos e escreviam “sobre Cristo, Marx, o Cosmos ou a técnica do autor do Bisonte de Altamira”.
Para Drucaroff, estes preconceitos continuam se manifestando, embora menos livremente. Agora se volta à literatura de mulheres, desde a indústria e desde a crítica, e o castigo recai sobre as que resistem ao espartilho.
É o caso da novela de Oloixarac. Mas, também o de Samanta Schweblin, Alejandra Laurencich ou Cecília Szperling, para mencionar alguns nomes da nova narrativa argentina.
Schweblin, ganhadora do Prêmio Casa das Américas 2008 por seu livro de contos “Pajaros em la boca”, recebeu em abril uma crítica sexista de seu compatriota e escritor Patricio Prom, na revista peruana Etiqueta Negra.
Ao comentar a visita da escritora à Espanha, Prom escreveu: “Schweblin abira os olhos e não dizia nada. Pareciam os olhos de um veado que vê como a noite se reparte nos focos de luz de um caminhão que se dirige para ele e não pode se mover. Talvez compreenda que ali termina o que ocorria”.
Para Drucaroff, os contos de Schweblin são “o que há de melhor da nova narrativa”. Em sua ficção, foge do estereótipo. Mas Prom não pondera assim. “Samanta já estava entre o que de melhor uma mulher havia escrito na Argentina nos últimos 10 anos, o que não era exatamente mérito seu, mas culpa de suas colegas”, afirmou.
A novela de Oloixarac, publicada por uma pequena editora no final do ano passado, esgotou a edição em dois meses, mas, também inspirou críticas furibundas. A maioria dos críticos, segundo Drucaroff, confunde a narradora com a escritora, e ataca esta última pelos desvarios da primeira.
“Dizer que Oloixarac é uma escritora de direita seria errado. Não é escritora”, sentenciaram dois críticos da revista Planeta apesar de dedicarem ao primeiro livro deste “não-escritora” cerca de 300 linhas. “É uma novela sem amor”, reclamaram.
Oloixarac explica porque acredita que a nova desperta rejeição. “É deliberadamente política, tem uma relação forte com o saber, joga partidas simultâneas com diferentes disciplinas e reconstrói as posturas da esquerda cultural”, afirmou.
Mas, não agrada a todos. No jornal Crítica, o comentarista de seu livro foi demolidor. “Pobre Póla. É bonita, virtuosa, mas continua escrevendo para os professores”, afirmou. Outros, que valorizam seu trabalho, não puderam evitar entrever um homem escondido em sua literatura. “Uma Fogwill com saias”, definiu um, em alusão ao inovador escritor argentino Rodolfo Fogwill.
Mas é nos blogs de leitores eruditos, escritores e estudantes de Letras que se dá rédea solta aos comentários mais repulsivos, que se potencializam diante das imagens de uma escritora que além de inteligente é bonita e não esconde isso.
Em um deles onde se pública sua foto há dezenas de comentários inconvenientes. Um dos menos violentos diz, anonimamente: “a esta (a escritora) proponho uma troca: 10 segundos de prazer por uma eternidade de silencio”.
“O que assombra é que uma mulher tenha conseguido alcançar esse nível de violência verbal, que domine o registro da ironia com essa liberdade. Suspeito que houve uma importante mão corretora por trás”, arriscou um leitor.
“Não é que uma mulher não possa ser irônica, mas não acredito que Póla tenha conseguido ser sem que alguém lhe passasse as palavras”, continuou. “Geralmente, se uma minita (mulher no sentido pejorativo) se destaca na Faculdade de Filosofia e Letras, o próprio sistema acadêmico baixa sua bola ela se vai, ou se abranda”.
Se deixa a faculdade – continuou o leitor – a espera a “intranscendência” e se fica “não tem outra opção a não ser calar muitas coisas para não perder seu lugar”.
Por fim, há aqueles que fazem um particular “reconhecimento” a Oloixarac. “Construiu uma personagem de puta, esnobe, intelectual e com isso teve muito sucesso”, disse um. Outro sugeriu: “se é verdade que ela fez tudo isso, deve-se admirar por seu instinto de trepadora”.
Os preconceitos do tipo que fazem crer que a mulher que faz literatura “escreve como um homem” também caíram sobre Cecilia Szperling, autora de “Seleção natural”, que acaba de ser publicado em Londres. Um crítico local elogiou a novela e concluiu que parecia escrita por um homem, contou a autora à IPS.
“No mundo da literatura são poucas as “papisas”, mulheres fortes, excepcionais, que alcançam o reconhecimento de um homem”, explicou. “O sistema de consagração é hegemônico, está dominado por homens e é difícil que deixem entrar uma mulher”, acrescentou.
“Como em outros campos, na literatura há pouquíssimas mulheres que sem a marca de ‘literatura feminina’ conseguem reconhecimento. Para o mesmo mérito se exige muitos mais esforços”, assegurou.
Szperling recordou outras autoras argentinas que no passado romperam esquemas, como Silvina Ocampo ou Alfonsina Storni, e foram ignoradas ou enfrentadas. Drucaroff somou-se a Ana Maria Shúa, cuja novela “Os amores de Laurita”, provocou, já nos anos 70, a confusão narradora-autora que afeta as mulheres. Shúa apresentou à IPS outro ângulo da evolução dos temas das escritoras. “As mulheres têm sofrido, talvez até minha geração, certa limitação temática em função da limitação de nossa experiência do mundo”, analisou.
“Fomos, sobretudo, escritoras da porta para dentro. A infância, o amor, o erotismo, as relações familiares: esse foi durante séculos nossa experiência do mundo e, portanto, também nosso tema”, disse a premiada autora.
As escritoras da nova guarda tentam romper a invisibilidade das que fogem do cânon estabelecido. Para isso apóiam-se em editoras pequenas que se anima em publicar o novo, em blogs e outros canais alternativos de difusão.
Mas a batalha se antecipa árdua. “A crítica nos encurrala, e a correção política faz com que as mulheres pareçam não ter chegado à literatura”, definou Szperling. IPS/Envolverde


