SOCIEDADE-AMÉRICA LATINA: Integração bipolar

Santiago, 24/06/2009 – Os latino-americanos aprovam, em sua maioria, a integração econômica regional e se mostram dispostos a fazer concessões, mas, desconfiam da cooperação política e resistem à livre circulação fronteiriça de pessoas, segundo pesquisa divulgada ontem na capital chilena. “As pessoas querem cada dia menos integração política e mais integração econômica”, resumiu à IPS a diretora da Corporação Latinobarômetro, Marta Lagos, após a apresentação do trabalho recopilado no ano passado pela entidade.

O latino-americano “diz quero bens, tragam-me bens, não me tragam problemas, não me tragam política, não me tragam gente, tragam-me bens”, disse a socióloga chilena, para que esses resultados deveriam ser considerados pelos líderes políticos da região para promoverem políticas de aproximação e confiança entre os povos. “O impacto negativo de Hugo Chávez (presidente da Venezuela) é fatal para estes temas de integração”, porque “polarizou” a região, disse Marta, encarregada do estudo denominado “América Latina olha o mundo. A economia e a política das relações internacionais”, para a qual foram entrevistadas pessoalmente 20 mil pessoas de 18 países entre 1° de setembro e 11 de outubro.

Uma maioria de 73% aprovou a integração econômica, porcentagem que variou na década entre 70% em 2002 e 85% em 2005. Além disso, 67% disseram que “é possível avançar na integração da região”, vontade que, entretanto, não se traduz em políticas concretas por parte dos países. Consultados se estão dispostos a fazer concessões para permitir avançar na integração, 60% dos latino-americanos responderam que sim, seis pontos percentuais a mais do que em 2007. Embora seja uma maioria elevada, é evidente que nem todos os que aprovam a integração estão dispostos a fazer concessões, disse Marta.

Os mais dispostos à integração são os uruguaios, já que 85% deles responderam estar “muito ou algo a favor” da idéia, seguidos dos paraguaios com 83%, dos chilenos e argentinos com 82% e dos colombianos com 80%. À pergunta “há algum país com o qual não se deveria nunca integrar?”, 29% dos entrevistados responderam que nenhum e 309% que não sabem ou não responderam. Apenas três países concentraram a rejeição: Estados Unidos com 10%, Cuba e Venezuela com 8% cada um.

Os mais dispostos a fazer concessões são os venezuelanos, 75%, seguidos de 72% dos dominicanos, 68 dos uruguaios, 67% dos brasileiros, 62% dos mexicanos. Na outra ponta, os chilenos lideram a lista dos que consideram que é preferível não avançar se for preciso fazer concessões, com 28%, seguidos dos salvadorenhos com 27%, argentinos 26%, hondurenhos 23%, mexicanos e paraguaios 22%, brasileiros 21%. Quanto à cooperação política, a porcentagem de latino-americanos que a vêem com bons olhos caiu de 71% em 2002 para 60% em 2008.

Habitantes de países do Cone Sul, como Argentina, Paraguai e Uruguai, além da Colômbia, mostraram alto disposição à cooperação política, entre 70% e 80%, ao contrário de algumas nações centro-americanas, como Honduras, Guatemala e Panamá, onde a porcentagem rondou os 50%. A busca por uma solução para o problema da energia pode ajudar a integração regional, disseram os entrevistados em sua maioria. Além disso, 69% deles aprovaram os investimentos multinacionais e 57% a criação de um Banco Central Sul-americano.

Mas apenas 46% dos latino-americanos consultados se mostraram inclinados à livre circulação das pessoas pelas fronteiras, apenas dois pontos a mais do que em 2007. isto é patente na Venezuela, onde apenas 31% apoiaram a idéia, seguido de Equador com 32%, Argentina 35%, Paraguai 36% e Chile 38%. No Panamá, apenas 23% dos entrevistados consideram um desafio a integração. Estes números são consistentes com a opinião sobre as fronteiras: 84% dos cidadãos disseram que se deve ter respeito pelos limites territoriais.

Segundo Marta Lagos, a América Latina é a região mais desconfiada do mundo. “Enquanto não houver políticas de aproximação dos povos, além de seus governantes, dificilmente aumentará a confiança entre os povos e com isso as possibilidades de integração regional”, conclui a pesquisa. O Latinobarômetro 2008 também identificou aumento no interesse dos habitantes da região pela globalização, que passou de 44% em 2004 para 53% em 2008, especialmente entre os homens adultos jovens com menos instrução, já que esta é vista como uma janela de saída para a pobreza, disse a socióloga chilena.

Quanto à opinião regional sobre potenciais mundiais, em média, 62% dos latino-americanos disseram ter uma boa imagem da Espanha, porcentagem que baixa para 61% no caso do Japão e para 58% no dos Estados Unidos e da China. A opinião positiva dos habitantes da região sobre os Estados Unidos, ao final do segundo mandato de George W. Bush, caiu ao seu pior nível desde 1995, sendo a guerra do Iraque iniciada em 2002 o ponto de inflexão para esse desempenho. De todo modo, as opiniões dos países são totalmente díspares. Enquanto 88% dos dominicanos têm uma posição favorável aos Estados Unidos, apenas 32% dos argentinos pensam o mesmo. IPS/Envolverde

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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