Teerã, 26/06/2009 – A capital do Irã se converteu esta semana no cenário da mais grave violência ocorrida desde que começou a crise política por causa das eleições. Mesmo assim, as mulheres continuam tendo uma firme presença em todas as mobilizações. As dezenas de milhares de manifestantes que desafiaram o governo na quarta-feira e se reuniram na Praza Baharestán, em Teerã, convocados pelos líderes reformistas, foram vítimas de uma dura repressão.
“De repente, cerca de 500 pessoas com garrotes surgiram (de uma mesquita próxima), encheram as ruas e começaram a atacar a todos”, disse à rede norte-americana CNN uma mulher, que qualificou o ocorrido de “massacre”. “Bateram em uma mulher tão selvagemente que ficou empapada de sangue, e seu marido, que via a cena, desmaiou”, disse a testemunha. Apesar da repressão por parte das forças de segurança e por milicianos voluntários, que deixou centenas de feridos e mortos nas últimas semanas, houve muitas mulheres presentes na praça na quarta-feira, com estiveram em todas as manifestações desde que a crise começou. “Estou tão orgulhosa das mulheres iranianas, presentes nos protestos”, disse uma manifestante à IPS, confirmando que elas foram brutalmente golpeadas com bastões pelas forças de segurança. De fato, o protagonismo das mulheres nessas mobilizações atraiu a atenção e surpreendeu observadores internacionais. Um vídeo divulgado recentemente pela Internet mostra a morte de Neda Agha-Soltan, de 27 anos, assassinada por um franco-atirador dos Bajij (paramilitares voluntários guardiões da Revolução Islâmica) ao sair de seu carro em meio a um protesto. O assassinato desta jovem despertou a indignação no Irã e em todo o mundo. Outra mulher teria sido assassinada em recentes choques entre as forças de segurança e manifestantes.
“Creio que as mulheres aparecem nestes protestos porque se sentem enganadas e querem respostas. Participaram das eleições e se depararam com uma fraude. Querem ter suas vozes ouvidas”, disse uma jovem de 25 anos que participou da maioria das mobilizações nas duas últimas semanas. “Sua presença nestes protestos é uma demonstração da crescente conscientização das mulheres iranianas”, acrescentou.
As mulheres estão presentes em todos os aspectos da vida social e profissional deste país, como empresárias, engenheiras, médicas, professoras universitárias e advogadas. As estudantes universitárias superam em número os homens. O Irã também é lar de um dos movimentos de mulheres mais vibrantes na região da Ásia central, com pelo menos um século de historia. Nos últimos anos as ativistas pelos direitos das mulheres defendem um status legal igual ao dos homens no direito iraniano, que se baseia em interpretações conservadoras da “shariá” (lei islâmica) e que as relega a cidadãs de segunda classe.
Há quase três anos as ativistas iranianas lançaram a Campanha por Um Milhão de Assinaturas para exigir mudanças em leis discriminatórias dos códigos penal e civil. A campanha procura consagrar a igualdade de gênero em temas como casamento, direito ao divorcio, custódia dos filhos e idade de imputabilidade, bem como acabar com a poligamia, entre outras mudanças. Busca coletar um milhão de assinaturas em apoio a uma petição que será apresentada ao parlamento iraniano. As ativistas usam um enfoque “cara a cara” para educar a consciência entre os cidadãos. Mas, segundo o site da campanha, mais de 50 de suas integrantes foram presas ou acusadas de crimes contra a segurança nacional.
Apesar disso, suas demandas foram contempladas nas campanhas presidenciais, onde três dos candidatos reconheceram a necessidade de mudar a situação. O primeiro a tratar do tema foi o reformista Mehdi Karroubi, que prometeu apresentar projetos de lei para acabar com a discriminação. Também se comprometeu a designar mulheres para seu gabinete. Muitas ativistas feministas, junto com estudantes e defensores dos direitos humanos, votaram em Karroubi por sua posição progressista. Após ao anúncio de Karroubi, o outro reformista, Mir Hossein Moussavi, apresentou um completo programa como parte de sua plataforma eleitoral, no qual também se comprometia a por fim às leis que discriminam as mulheres. Além disso, Mohsen Rezaie, o candidato conservador, adotou uma surpreendente postura a favor das mulheres e prometeu trabalhar pela igualdade de gênero.
Embora o presidente Moahmoud Ahamadinejad não tenha feito promessas de campanhas sobre o trema, sua assessora Zohreh Tabibzadh, presidente do Centro para Mulheres e Famílias, apareceu em duas entrevistas coletivas, algo raro para uma figura que sempre se manteve afastada dos meios de comunicação. Nas duas oportunidades ela atacou as feministas em geral e Shirin Ebadi, premio Nobel da Paz, em particular. Na segunda entrevista respondeu a contragosto a pergunta feita por um jornalista do diário Etemad, dizendo que “os que querem mudar as leis sobre as mulheres devem votar em um candidato reformista”. De fato, a postura de Tabibzadeh reflete as políticas adotadas pelo governo de Ahmadinejad, que relega as mulheres às suas casas e apenas promove seu papel como esposas e mães. IPS/Envolverde

