ECONOMÍA: A crise cria um mundo mais conflitivo

Washington, 05/06/2009 – A Terra é um lugar mais perigoso desde o ano passado, segundo o novo Índice de Paz Global, devido, principalmente, à crise econômico-financeira internacional nascida nos Estados Unidos. Com a paralisação da economia em 2008, muitos dos indicadores usados para medir a situação de paz aumentaram, como a probabilidade de incidentes violentos e instabilidade política, enquanto outros diminuíram, como o respeito aos direitos humanos.

“Existe uma correlação clara entre a crise econômica e a deterioração da situação de paz”, afirmou Clyde McConaghy, do Instituto de Economia e Paz, responsável pelo Índice de Paz Global (GPI), divulgado ontem. “Iss confirma que a paz é um valor da economia real, que gera um ambiente que permite aos trabalhadores produzir, aos comerciantes vender, aos empresários e cientistas inovar e aos governos regular e, por sua vez, cria riqueza”, explicou. Outras causas incluem o recrudescimento de conflitos violentos em alguns países e as consequências da disparada do preço dos alimentos e dos combustíveis em 2008.

O GPI, primeiro índice a classificar as nações por sua tranquilidade e identificar os possíveis catalisadores de paz, foi criado pelo australiano Steve Killela, filantropo e empresário. O GPI faz parte do Instituto de Economia e Paz, um centro de estudo dedicado a examinar a relação entre o desenvolvimento econômico, o setor privado e a paz. Este ano, o GPO classificou 144 nações, contra 140 em 2008, segundo sua “falta de violência”. Nova Zelândia subiu do quarto para o primeiro lugar do ano passado para este, seguida de Dinamarca e Noruega, ambas em segundo lugar. Islândia, que liderou a lista em 2008, baixou três posições devido à violência gerada pela crise econômica.

As nações democráticas, estáveis e menores aparecem nos primeiros lugares. Catorze dos 20 primeiros países são da Europa central e ocidental. Os Estados Unidos subiram seis posições e está em 83º lugar. “Sua melhor posição é relativa porque se deveu à melhoria do indicador possibilidade de atentado terrorista e queda na classificação de outras nações em relação aos EUA”, explicou Leo Abruzzese, diretor de pesquisas da Unidade de Inteligência Econômica da América do Norte, que fez os cálculos para o GPI. “Os Estados Unidos melhoraram sua posição apesar da crise econômica, mas alguns fatores, com disponibilidade de arma, grande população carcerária e os combates que protagoniza, impediram que ocupasse melhor posição na classificação”, acrescentou.

Pelo terceiro ano consecutivo, o país que fecha a lista é o Iraque. O seguem Afeganistão e Somália, onde são travados combates e há uma grande agitação política. Bósnia-Herzegovina foi o país que mais melhorou, subindo 23 posições até a 50ª. Madagascar, por as vez, registrou a pior queda, 30 posições, devido à crescente instabilidade política e às violentas manifestações. Angola, que subiu 16 posições em 2009, melhora ano a ano desde que o GPI foi criado.

O GPI é formado por 23 indicadores qualitativos e quantitativos fornecidos por fontes muito respeitadas, escolhidas por um painel de especialistas internacionais entre os quais há cientistas e dirigentes de organizações que promovem a paz. Os indicadores combinam medidas internas e externas de tranquilidade, que vão desde a porcentagem de presos, passando pelo grau de delinqüência organizada até o gasto militar e respeito aos direitos humanos. “A paz é um requisito para sobreviver no século XXI que conhecemos”, disse McConaghy no lançamento do GPI, ontem. “É um objetivo concreto que pode ser medido e avaliado, não apenas em termos sociais, mas também econômicos”, acrescentou.

O painel de especialistas internacionais que supervisiona a compilação de dados decidiu incluir mais cinco países este ano, Burundi, Geórgia, Guiana, Montenegro e Nepal. As 144 nações selecionadas concentram quase 99% da população mundial e mais de 87% da massa territorial do planeta. Hong Kong desapareceu devido ao seu status especial dentro da China. Este território mantém um alto grau de autonomia, mas os assuntos relacionados com exterior e defesa dependem de Pequim.

Outra mudança do GPI é a eliminação de dois indicadores que foram utilizados em 2007 e 2008, o grau de participação militar na Organização das Nações Unidas ou sua ausência. O indicador deixou de ser usado porque não média com precisão o compromisso dos países com as missões de paz da ONU. A falta de participação foi inicialmente incluída porque se considerou que uma nação com soldados no estrangeiro não podia considerar-se tranquila. Mas os especialistas reconheceram que o indicador pode ser ambíguo.

Os responsáveis pelo GPI esperam que a publicação anual do índice mostre uma tendência que possa ser usada por governos e diferentes organismos e instituições ara encontrar a melhor forma de conseguir uma convivência pacífica. O Instituto de Economia e Paz recomendou a governos e organizações não-governamentais incluir como objetivo de seus programas de assistência ao desenvolvimento à capacidade das comunidades para promover a paz. Também propôs que governos e universidades financiem estudos específicos sobre como conseguir a paz. Além disso, as associações empresariais deveriam formar comissões para trabalharem com as autoridades nesse mesmo sentido.

A presente do centro Fulbright, Harriet Fulbright, convidada para a apresentação do estudo, anunciou que sua organização propiciará uma nova conferência para “criar mais consciência sobre o GPI”. O Simpósio Global das Nações Pacíficas, a ser realizado em novembro, reunirá as duas nações que encabeçam a classificação em nove regiões para “discutir sua situação de paz”. O GPI tem apoio de vários ganhadores do prêmio Nobel, como Martti Ahtisaari, ex-presidente da Finlândia; o arcebispo Desmond Tutu; o líder espiritual tibetano Dalai Lama; o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter e o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan. O GPI será apresentado sexta-feira na sede das Nações Unidas em Nova York. IPS/Envolverde

Marina Litvinsky

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