MUDANÇA CLIMÁTICA: Nova tentativa de mover uma agenda congelada

Roma, 12/06/2009 – Parlamentares dos 13 países mais contaminantes do mundo se reúnem hoje e amanhã na capital italiana para promover um acordo internacional efetivo contra a mudança climática nas negociações de dezembro em Copenhague. Do encontro da Organização Global de Legisladores para o Equilíbrio Ambiental (Globe) participam cerca de cem legisladores interessados em problemas ambientais do Grupo dos Oito países mais poderosos: Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia. E também das cinco nações em desenvolvimento que emitem mais gases de efeito estufa: Brasil, China, Índia, México e África do Sul. A reunião é preparatória para a cúpula do G-8 que acontecerá entre 8 e 10 de julho também na Itália.

Aos parlamentares se reunirão cientistas e especialistas ambientais como Martin Lees, secretário-geral do Clube de Roma; Antonino Zichichi, presidente da Federação Mundial de Cientistas; Ashok Khosla, presidente da União Internacional para a Conservação da Natureza; Mohan Munashinghe, vice-presidente do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC), e Colin Bradford, do Instituto Brookings. “A intenção de nossa reunião é exortar os governos do G-8 a agirem para deter a mudança climática”, disse à IPS Stephen Byers, presidente da Globe e ex-ministro britânico de Energia e Comércio.

A reunião ocorre enquanto os Estados Unidos continuam se opondo a concretizar reduções substanciais de gases de efeito estufa, que aquecem a atmosfera. Esta posição voltou a ficar evidente nos debates entre 1º e 12 deste mês em Bonn, que tentavam aplainar o caminho para a 15ª conferência das partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontecerá em dezembro em Copenhague, de onde, espera-se, deve surgir um novo acordo climático internacional que suceda o Protocolo de Kyoto, que expira em 2012.

“A oposição do governo dos Estados Unidos ao Protocolo de Kyoto não mudou, embora tenham mudado o pessoal que representa Washington nas negociações internacionais e a sua retórica sobre a mudança climática’, disse à IPS um diplomata alemão que pediu para não ter o nome revelado. “Os delegados dos Estados Unidos em Bonn não tinham um plano concreto para negociar. Sua única intenção parecia ser rechaçar obrigações de reduções drásticas para os países industrializados e instrumentar manobras dilatórias”, acrescentou, referindo-se aos longos discursos sem nenhum objetivo aparente a não ser atrasar as conclusões.

Outro diplomata europeu presente em Bonn disse à IPS que foi “como se a equipe do ex-presidente George W. Bush ainda estivesse atuando nos bastidores para que os Estados Unidos criem obstáculos a um ambicioso protocolo de Copenhague, do mesmo modo que boicotou o de Kyoto”. A fonte, que pediu reserva de seu nome, também afirmou que as reduções de gases contaminantes propostas pelos países europeus e pelo governo dos Estados Unidos não são compatíveis. “As nações da União Européia buscam reduzir em até 30% suas emissões até 2020. Mas Washington quer reduzir muito menos, 6%, de suas emissões”, acrescentou.

Os Estados Unidos produzem a maior proporção de gases contaminantes por pessoa e é o segundo maior contaminante climático, depois da China. O Protocolo de Kyoto estabelece a obrigação de reduzir tais emissões em 5,2% com relação ao índice de 1990 para as nações industrializadas que o ratificaram. E estabelece prazo, de 2008 a 2012, para seu cumprimento. Mas, não estabelece compromissos para países emergentes como a China.

Especialistas de organizações ambientalistas que participaram como observadores da reunião de Bonn confirmaram a informação dada pelos diplomatas. “As negociações de Bonn foram um fiasco. Os Estados Unidos manipulam os dados de suas emissões para adornar seus próprios objetivos de redução”, disse à IPS Karsten Smid, encaregado de mudança climática do Greenpeace. Mas, Smid também acusou a UE de não apoiar técnica e financeiramente os países em desenvolvimento com maiores emissões. “É o G-8 que não conduz de modo efetivo as negociações internacionais para deter a mudança climática”, afirmou.

Antes das discussões na Alemanha, Yvo de Boer, secretário-executivo da convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, disse que o apoio financeiro e técnico das nações industrializadas aos países em desenvolvimento para que reduzam suas emissões é um dos quatro pontos essenciais para se conseguir um protocolo ambicioso em Copenhague. Os outros três são quanto os países ricos reduzirão suas emissões até 2020, clareza quanto ao que farão as nações pobres para limitar o aumento de sua contaminação e um regime de governabilidade. Mas, não parece haver muito progresso nestes quatro objetivos.

O rascunho do comunicado final da cúpula do G-8 que circula nas capitais do grupo reconhece apenas vagamente a necessidade de limitar a dois graus o aumento médio da temperatura do planeta. “Para piorar as coisas, este débil pronunciamento está entre colchetes no rascunho. O que sabemos sobre as discussões do G-8 a respeito de mudança climática é deprimente”, disse Smid. Os cientistas que pesquisam o aquecimento global, inclusive os integrantes do IPCC, calculam que para conter o fenômeno, bem como seus piores riscos e consequências, o aumento médio da temperatura não deveria passar dos dois graus em comparação com a era pré-industrial.

Antes de Copenhague haverá mais três reuniões climáticas: entre 20 e 14 de agosto, também em Bonn; de 28 de setembro a 9 de outubro, em Bancoc, e entre 2 d 6 de novembro, em Barcelona. Além disso, está programada uma rodada paralela de negociações sobre mudança climática para o final deste mês no México, com a participação de delegados das 16 principais economias mundiais, devido a uma iniciativa do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. IPS/Envolverde

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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