Genebra, 16/06/2009 – Representantes de governo, empregadores e sindicalistas celebraram nesta cidade suíça um acordo para enfrentar a crise trabalhista internacional, mas, alertaram que qualquer demora em sua implementação poderá agravar os problemas causados pela especulação financeira “Os que pensam que se trata de uma crise temporária têm um enfoque suicida. Não podemos esperar. Já esperamos muito. Devemos agir agora”, afirmou o presidente da França, Nicolas Sarkozy, ao falar ontem na abertura da Cúpula sobre a Crise Mundial do Emprego, que terminará amanhã, na sede da Organização Internacional do Trabalho.
Milhões de pessoas perderam seus empregos em todo o mundo como conseqüência da crise financeira, em sua maioria nos países pobres e pequenos. Espera-se que o Pacto Mundial de Empregos proposto pela OIT seja amplamente debatido na Cúpula e aprovado na Conferência Internacional do Trabalho, que acontece de forma paralela em Genebra até sexta-feira. O pacto chama para a criação de altos níveis de emprego e trabalhos decentes para todos, bem como a forjar uma economia aberta que dê oportunidades e garanta a equidade, com crescimento ambientalmente sustentável e baixas emissões de carbono. Também chama por uma proteção social acessível a todos, com forte defesa dos direitos no trabalho.
Pelo menos nove chefes de Estado e de governo, vice-presidentes, ministros do Trabalho e lideres de organizações de empregadores e trabalhadores participam do encontro, que inclui painéis de alto nível sobre coordenação global e regional, cooperação para o desenvolvimento, princípios fundamentais e direitos no local de trabalho e estratégias da indústria. Sarkozy disse que o mundo não pode ser governado por mercados ou leis de oferta e demanda. “Se não houver uma regulamentação mundial, a globalização não sobreviverá à lei da selva. Não pode haver liberdade sem regras”, afirmou.
Sarkozy disse que a globalização não deve se basear em comércio e mercadorias, mas em temas como saúde, educação, trabalho e cultura. O mandatário cobrou do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e de outras agências multilaterais que respeitem as condições ambientais e sociais dos países, e defendeu um novo sistema global que financie empresários e não especuladores. “A crise não nos dá licença para imaginar. É tarde para se retirar. Não há mais tempo a perder. Olhemos o preço do petróleo aumentando novamente. Os especuladores voltaram”, ressaltou Sarkozy, expressando seu desejo de que se atue sobre as decisões tomadas na última cúpula do Grupo dos 20 países mais poderosos e emergentes. Entre outras medidas, o FMI prometeu aliviar as condições para seus créditos.
O diretor do Instituto Internacional para Estudos Trabalhistas da OIT, Raymond Torres, falando aos jornalistas no domingo, disse que muitas nações desejam que a promessa do FMI se torne realidade. “Esperamos que funcione, porque alguns países perguntam: onde está o apoio prometido”, acrescentou.
Por sua vez, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se afastou do texto que havia preparado para seu discurso e criticou duramente os organismos multilaterais com sede nos Estados Unidos, dizendo que o Consenso de Washington chegou ao seu fim. “Necessitamos construir um novo mundo baseado na distribuição eqüitativa da riqueza”, afirmou. Por Consenso de Washington se conhece o conjunto de políticas de liberalização econômica elaborado nos anos 90 pelos órgãos de credito internacionais com escritórios na capital norte-americana.
O Presidente Lula elogiou o pacto da OIT e disse que a comunidade internacional não pode se permitir perder mais empregos nos países pobres. “Os líderes do G-20 prometeram não resgatar mais bancos nem instituições financeiras, mas proteger e criar trabalhos. Precisamos construir um novo modelo que seja mais eqüitativo”, afirmou. O Presidente também criticou as agências de classificação de credito com sede nos Estados Unidos, que alertam outros governos, mas “não puderam deter o risco em seu próprio país. Não podemos viver em um sistema financeiro que especula sobre o papel, que é improdutivo e não gera empregos”, disse Lula, referindo-se às instituições financeiras norte-americanas e de credito “subprime” que desataram a crise.
O diretor-geral da OIT, Juan Somavia, fez um chamado para que haja maior diálogo social sobre o pacto para que este funcione. ‘A cooperação e o diálogo são algo urgente, central e indispensável”, afirmou, acrescentando que um dos maiores desafios será conseguir que o diálogo social funcione em nível local. “Sabemos que não é fácil. Justificamos sua presença, encontramos desculpas para seu mau desempenho, acusamos o outro. Mas, o resultado final é que todos perdemos. Se o diálogo social não lançar raízes em tempo de crise, estaremos debilitando o potencial do Pacto Mundial de Empregos”, afirmou.
Roy Trotman, presidente do grupo representante dos trabalhadores na OIT e vice-presidente de uma comissão que preparou recomendações para a conferência, afirmou que os sindicatos deveriam ser incluídos como sócios plenos no pacto sob um acordo tripartite. Funcionários da OIT disseram aos jornalistas no domingo que China, Índia e as nações árabes em geral não foram afetadas como outras. “Índia e China não estiveram expostas ao mundo graças aos seus gigantescos mercados internos, enquanto os Estados árabes tinham enormes reservas financeiras para resistir à crise”, disse Torres. Por sua vez, o fato de os Estados árabes não serem afetados ajudou a minimizar o impacto entre os imigrantes no Oriente Médio, a maioria procedente de diversas partes da Ásia.
O diretor do Programa Internacional de Migrações da OIT, Ibrahim Awad, disse que não houve nenhuma perda de emprego no mundo árabe nem redução das remessas das quais dependem em boa parte países como Bangladesh, Filipinas, Indonésia e Sri Lanka. “Embora, no geral, uma parte da indústria da construção tenha sido afetada em Dubai (Emirados Árabes Unidos), poucos trabalhadores estão regressando” aos seus países de origem, explicou Awad à IPS. O impacto foi mais grave na Ásia central, lugar de origem de milhares de imigrantes na Rússia, país que também foi afetado pela crise. No Cazaquistão, por exemplo, as remessas representam 45% do produto interno bruto. “Isso significa que metade da economia depende das remessas”, afirmou. IPS/Envolverde

