REFUGIADOS: Novos deslocamentos

Washington, 25/06/2009 – Conflitos e perseguições afetaram em 2008 42 milhões de pessoas, sendo 15,2 milhões de refugiados, 823 mil solicitantes de asilo e 26 milhões de refugiados internamente, informou esta semana o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Embora sejam 700 mil pessoas a menos do que no ano anterior, outros deslocamentos registrados em 2009 não estão refletidos no estudo “Tendências globais 2008”, elaborado por esta agência.

“Em 2009, já observamos numerosos novos deslocamentos, concretamente no Paquistão, Sri Lanka e na Somália”, disse o Alto Comissariado, Antonio Guterres, ao apresentar o informe em Washington. “Enquanto alguns deslocamentos podem ser curtos, outros podem demorar anos ou mesmo década para serem resolvidos. Continuamos enfrentando várias situações de deslocamento interno de longo prazo em lugares como Colômbia, Iraque, República Democrática do Congo, e Somália. Cada um desses conflitos também gerou refugiados que cruzaram suas próprias fronteiras”, acrescentou.

O informe enumera 29 grupos diferentes de 25 mil refugiados ou mais em 22 nações que estiveram exilados pelo menos cinco anos e para os quais não há solução imediata à vista. Segundo o documento, 80% dos refugiados do mundo estão nas nações em desenvolvimento, como a grande maioria de refugiados internos. Em 2008, entre os principais países anfitriões de refugiados figuraram Paquistão com 1,8 milhão e Síria 1,1 milhão. “Infelizmente, não podemos dizer que a generosidade e a riqueza sejam proporcionais entre si”, disse Guterres, se referindo à enorme carga que pesa sobre as nações menos capazes de enfrentá-la.

Os principais países de origem são Afeganistão e Iraque, que somam 45% dos refugiados assistidos pelo Acnur. A escalada dos enfrentamentos entre forças do governo paquistanês e o movimento extremista Talibã causou “a crise de proteção mais desafiadora desde a de Ruanda”, em meados dos anos 90, disse Guterres. Segundo a organização de direitos humanos Human Rights Watch, mais de dois milhões de civis fugiram de suas casas no vale de Swat, na Província da Fronteira Noroeste, e de áreas vizinhas na região paquistanesa de Makakland, desde que o exercito lançou em 7 de maio uma grande operação para expulsar o Talibã da área.

Milhares de civis, sem poder ou disposição para fugir, permanecem na zona de conflito. A área está submetida a toque de recolher indefinido imposto pelo governo, o qual é levantado intermitente e brevemente para permitir aos civis irem em busca de alimentos e outros elementos básicos para subsistir. Dos dois milhões de refugiados no Paquistão, 80% não estão em acampamentos, mas em comunidades pobres que os recebem. Segundo Guterres, a situação apresenta um desafio para a comunidade internacional. O clima quente, ao qual os refugiados procedentes das montanhas não estão acostumados, faz a Organização das Nações Unidas se esforçar para melhorar as condições nos acampamentos.

A iminente temporada das monções, caracterizada por chuvas torrenciais, somará um novo fator de tensão. “O mundão não pode se dar o luxo de estas pessoas se sentirem abandonadas”, disse Guterres, acrescentando que não dar apoio ao Paquistão e às organizações humanitárias internacionais pode ter sérias implicações em matéria de segurança. “Eles não têm suficiente assistência internacional”, disse esta semana o enviado dos Estados Unidos, Richard C. Holbrooke, a um jornalista local que acompanhou sua visita a um acampamento de refugiados no Paquistão. “Os Estados Unidos estão dando mais da metade da ajuda. Isso não está certo. Onde estão os europeus? Onde está a Conferência Islâmica?”, perguntou.

A Colômbia tem uma das maiores populações do mundo de refugiados internos, estimada em cerca de três milhões de pessoas. No final de 2008, o Iraque tinha 2,6 milhões, dos quais 1,4 milhão abandonaram suas casas nos últimos três anos. Segundo o informe, as mulheres e crianças constituem 47% dos que buscam abrigo e asilo, e a metade de todos os refugiados e dos que retornaram. Quarenta e sete por cento dos refugiados e solicitantes de asilo são menores de 18 anos. Cerca de dois milhões de refugiados e refugiados internos puderam voltar às suas casas no ano passado, o que representa redução em relação a 2007. A repatriação de refugiados foi 17% menor, enquanto a de refugiados internos caiu 34%.

A redução reflete, em parte, a deterioração das condições de segurança, especialmente no Afeganistão e Sudão, diz a investigação. A quantidade de solicitantes de asilo que fizeram seus pedidos individualmente aumentou 28%, para 839 mil. A África do Sul foi o maior receptor dessas gestões, seguida de Estados Unidos, França e Sudão. Estima-se que 827 mil solicitações não foram processadas até o final do período coberto pelo informe.

Do total de pessoas refugiadas em todo o mundo, 25 milhões (que incluem 14,4 milhões de refugiados em seus próprios paises e 10,5 milhões de refugiados) estão na órbita do Acnur. Os outros 4,7 milhões de refugiados são palestinos, e recebem assistência de outro organismo da ONU, a Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina no Oriente Médio (UNRWA). Na medida em que aumentam os conflitos e os efeitos negativos da crescente urbanização e mudança climática, o espaço humanitário diminui.

“A capacidade de organizações humanitárias com a nossa está diminuindo”, disse Guterres. Cada vez mais governos com uma visão radicalizada contra as organizações humanitárias, bem com a às vezes difusa distinção entre assistência humanitária e as operações de manutenção da paz. Também exigiu maior conscientização da comunidade internacional e aumento do financiamento de todas as agências humanitárias que se dedicam a questões dos refugiados. “As quantias necessárias para resgatar as pessoas são inferiores ao que se precisa para resgatar bancos”, assegurou Guterres IPS/Envolverde

Marina Litvinsky

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