AMBIENTE-MAURÍCIO: Entre a eletricidade e o adubo

Port Louis, 20/07/2009 – O Estado insular de Maurício produz 400 mil toneladas de lixo por ano Seu único lixão está lotado e o governo discute se incinera os resíduos para produzir eletricidade ou os converte em adubo orgânico, em beneficio dos agricultores. Centenas de caminhões atravessam diariamente as ruas de Maurício coletando o lixo que depois é jogado na localidade de Mare Chicose. Os 200 habitantes desta pequena aldeia queixaram-se durante anos de problemas respiratórios, doenças da pele e outros males causados pela contaminação devido à presença do lixão. Exigem das autoridades que sejam transferidos para em outro lugar. Até agora, suas reclamações não foram ouvidos, mas é possível que seus problemas estejam chegando ao fim.

Criado na década de 90 para receber 300 toneladas diárias de lixo, o depósito recebe 1.200 toneladas. Seu ciclo de vida caiu de 20 para oito anos, ficando rapidamente lotado. O governo propõe mudar a prática de enterrar o lixo pela sua incineração. A empresa nacional Gamma Civic, em associação com a norte-americana Covanta, pretende instalar um gerador-incinerador em La Chaumière, na costa ocidental da ilha. Esta usina eliminará três quartos do lixo e gerará eletricidade para ajudar a atender a crescente demanda.

O elevado custo dos combustíveis fósseis é outro incentivo para promover fontes alternativas. Atualmente, cerca de 80% das necessidades de eletricidade da ilha são atendidas a partir de combustíveis fósseis. A empresa de risco compartilhado entre Gamma Civic e Covanta – Gamma Energy Ltd. – investirá cerca de S$ 160 milhões em uma usina que queimará 300 mil toneladas de lixo sólido anualmente para produzir 24 megawatts, ou, aproximadamente, 6% da demanda elétrica nacional. Essa energia será vendida ao Conselho Central de Eletricidade, o fornecedor nacional. Além do que será pago à Gamma Energy por alimentar a rede nacional, a companhia também receberá do Estado US$ 39,00 para cada tonelada de lixo queimada.

Porém, ambientalistas alegam que o governo está por cometer um grande erro. O ativista Wassen Kaupaymuthoo disse que a incineração não se adapta a Maurício porque mais de 70% do lixo do país são orgânicos. “O governo diz que precisa de mais eletricidade para o desenvolvimento econômico. Maurício tem um enorme potencial eólico – de aproximadamente 450 megawatts – que continua sem explorar. Isto é 10 vezes mais do que poderia produzir uma grande usina térmica”, disse Wassen à IPS. A ilha deveria resolver o problema da demanda elétrica com projetos eólicos, e reciclar o lixo.

Milhares de cidadãos protestam contra o projeto do incinerador por meio de manifestações públicas, anúncios na imprensa e petições ao governo. Afirmam que supõem um grande risco para a saúde da população e o meio ambiente, devido à emissão de contaminantes, particularmente dioxinas. Desde o começo do ano já houve duas passeatas até o local proposto para o projeto de conversão do lixo em energia, com slogans contra os promotores da idéia. Organizações não-governamentais também apresentaram uma demanda contra Gamma Energy antes que o Tribunal Ambiental questionasse a avaliação de impacto na matéria que as autoridades cobraram da empresa.

A sociedade civil sugere como solução “um enfoque de reduzir, reutilizar e reciclar. Instalamos enormes recipientes em várias partes da ilha para recolher plástico, papel e vidro separadamente para elaborar adubo orgânico. Nossos membros viajam por toda a ilha desde o ano passado para sensibilizar as pessoas sobre esses três “R”, disse Catherine de Spévill, da organização que se opõe à incineração de lixo. Outras instituições como a municipalidade de Curepipe, fazem o mesmo, enquanto a unidade da empresa Polypet Recyclers paga à população para que colete garrafas plásticas para reciclá-las e exportá-las para outros países.

Crhistine Sauzier, integrante da não-governamental Mission Verte (Missão Verde), considera que a população está muito entusiasmada com a idéia. “Incentivamos as pessoas a elaborarem adubo a partir do lixo verde para devolvermos ao solo o que eles nos deu, em lugar de tirar”, disse à IPS. A fabricação de adubo orgânico (composto) não é nova em Maurício. Desde 1995, a Federação Nacional de Clubes de Agricultores Jovens o produz em várias aldeias, usando-o nos campos onde seus membros cultivam verduras e frutos. Simla Caria, membro da federação, percorre a ilha para promover a elaboração de adubo orgânico, principalmente conversando com as mulheres em suas casas. “Antes, a pessoas não sabiam que podiam fabricar adubo orgânico a partir do lixo e usá-lo na agricultura. Agora, sabem e muitas se unem a nós neste esforço”, afirmou.

As organizações não-governamentais estão convencidas de que o volume de lixo pode diminuir tanto que não seja necessário nem um incinerador nem outro grande lixão. Indradev Balgobin, ex-integrante da federação e um dos iniciadores do projeto de fabricação de composto em Maurício, considera possível transformar em adubo orgânico todo o lixo, “desde que haja mercado para isto nos países da região”. Mas, defendendo seu projeto, Gamma Energy argumenta que o incinerador será uma solução sustentável para o manejo de dejetos na ilha.

O diretor de desenvolvimento de projetos da empresa, Shaun Knight, disse à IPS que o incinerador-gerador compensará a necessidade de importar combustível fóssil ao produzir eletricidade. Knight descartou qualquer risco para a saúde pública e o meio ambiente, já que haverá equipamentos de controle de contaminação aérea de ponta para avaliar continuamente as emissões, em linha com os padrões da União Européia. “Isso requer que periodicamente tomemos amostras desses gases, particularmente, dioxinas e metais. E isso nos dará a capacidade de garantirmos que a usina cumpra as leis da UE”, acrescentou.

Sabatinado no parlamento no dia 30 de junho, o ministro de Energia e Empesas Públicas, Rashid Beebeejaun, recordou que o assessor especial do primeiro-ministro, Joel de Rosnay, à frente do projeto “Maurício Ilha Duradoura”, insistiu na incorporação de filtros contando com a última tecnologia. Enquanto isso. Continua a pressão sobre Gamma Energy Ltd. e o governo, com a esperança de que o primeiro-ministro, Navinchandra Ramgoolam, freie este projeto. Porém, o governante rebateu as críticas ao projeto de transformar lixo em energia qualificando-as de “pouco realistas”. Também disse que as manifestações de rua realizadas com base em informações errôneas não podem ditar as políticas de seu governo. IPS/Envolverde

* Este artigo é parte de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org).

Nasseem Ackbarally

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